Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008

Telestesia (I)

                  

“Desenleou-se das palavras, abdicou da fútil tentativa de se descrever, os caracteres inventados não chegando para verter no papel todo aquele pélago de emoções incontidas e vertiginosos pensamentos, as palavras parecendo cada vez mais exíguas, incapazes de encerrar as infinitudes deflagrantes de uma indómita e impetuosa mente. Ténues, a princípio, as ondas partiam do seu encéfalo, perturbando o falacioso isolamento de outros egos, insinuando-se disfarçadamente por entre sinapses, as dendrites reagindo, os axónios parecendo envergonhar-se perante a intrusão inesperada mas irresolutamente admitida. Viam-lhe, sentiam-lhe o âmago, sorviam-lhe a intrincada nitidez da essência, a transparência do seu ser entregando-se à intelecção, a clareza das suas ideias transformando o entendimento de quem intuía a sua presença. Tornou-se parte de um todo crescente, a consciência de quem era disseminando-se, harmoniosa, pelos raciocínios inventados de quem a acolhia. Aos outros eram abertas passagens para os lugares onde estava, imagens pintando cores, sons sendo escutados, os conhecimentos difundindo-se num fluxo inesgotável…”

V.A.D. em Telestesia

Vídeo: Porcelain (Moby) (http://www.youtube.com/watch?v=D1Fcaro25Ek)


publicado por V.A.D. às 02:25
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De **** a 15 de Fevereiro de 2008 às 01:08
"os caracteres inventados não chegando para verter no papel todo aquele pélago de emoções incontidas e vertiginosos pensamentos" - sim, realmente as palavras nunca são suficientes para descrever algo, tangível ou não. Mesmo que tentemos descrever algo bem mais objectivo que as emoções - uma paisagem, por exemplo - falta-nos sempre algo mais para dizer, um cheiro que se insinuou de mansinho, uma sombra indelével no céu por entre as nuvens, uma sensação inexplicável que nos percorreu a espinha... realmente nunca são demais as palavras, aliás, nunca são suficientes.
São meras representações artificialmente criadas por nós na necessidade de comunicação, contudo, com engenho e arte, podem aproximar-se, podem ser "abertas passagens para os lugares onde estava, imagens pintando cores, sons sendo escutados, os conhecimentos difundindo-se "...

É uma das formas mais clara de abrirmos a nossa mente, o nosso ser, a nossa alma aos outros, nunca conseguiremos mostrar a sua totalidade - nem nós a vemos - mas, por vezes, mesmo esta parcialidade pode ser demais.

"os axónios parecendo envergonhar-se..." - a passagem soa especialmente bem

Beijos,
e que nunca abdiques da tentativa de te descreveres, em ti não é fútil pois tens realmente geito

Sophia


De V.A.D. a 15 de Fevereiro de 2008 às 03:23
Acho, amiga, que é a própria intangibilidade das palavras que lhes limita a profundidade tão desejada. São veículos maravilhosos, capazes de nos transportar para mundos diversos, para lugares inventados, ou mesmo até aos abismos do intelecto mas, como muito bem referes, nunca serão suficientes. Simplesmente, há coisas que não podem ser descritas; a sua apreensão, mesmo que transitória, só é possível durante a vivência, a complexidade ou a subtileza do que nos é apresentado revelando uma amplidão de pormenores impossível de transcrever...

E, contudo, o que seria de nós sem as palavras...?! Não saberíamos das maravilhas, não nos deixaríamos extasiar pelas descrições de lugares ou sentimentos, víveríamos (ainda mais) isolados, num crepúsculo difuso feito apenas de instintos dissociados das emoções e da racionalidade...

Partilhamo-nos também pelas palavras, unimo-nos também pelas palavras... :-)

Agradecendo as tuas palavras, sempre amáveis, sempre enriquecedoras, desejo-te uma noite em que os teus pensamentos possam fluir, livres, através da imensidão do espaço-tempo!

Um beijo e um enormeeeeeeee sorriso... :-)


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