Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008

Precipício

                  

“Trazia neles negrume da noite, os olhos postos num ponto quimérico insinuando a melancolia dos crepúsculos cinzentos e o silêncio lacrimoso da desafortunada existência. O cabelo caía-lhe pelos ombros, uma anarquia desordenada de filamentos de azeviche ondulando ao sabor do vento catabático que soprava de norte, as costas voltadas ao sol numa obstinada recusa de quentura, a pedra onde se sentava fortalecendo a frialdade do Inverno tardio e persistente. Ausente num alhures diviso, a mente apartada esquecera-se do corpo dessensibilizado pelos sentidos desliados, a mágoa de algum indeclinável desencanto arrojando-a num precipício contrário à razão. Tocou-a ao de leve com a suavidade de um sussurro, o aveludado das palavras brotando dos seus lábios como uma carícia, a lhaneza de um olá arrebatando-a à catalepsia em que parecia estar deliberadamente mergulhada, o pestanejar redobrado denunciando o regresso à inteligível realidade, uma abrupta negação do abismo trazendo um sorriso embaçado. Respondeu-lhe com a firmeza espontânea de um olá, ele sentando-se junto a ela, ambos olhando a espuma branca que o vento arrancava às ondas…”  

V.A.D. em Precipício

Vídeo: Edge Hill (Groove Armada) (www.youtube.com/watch?v=HEAhRhjtK58)


publicado por V.A.D. às 02:59
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10 comentários:
De mnike30 a 13 de Fevereiro de 2008 às 08:36
Olá,

De cataléptico o teu texto não tem nada. A tua actividade descritiva não o permite!
Quanto ao negrume melancólico dos... crepúsculos cinzentos e silêncio lacrimoso... são estados. Estados que nos exigem mudança.
Penso que seja nestes momentos que a mente humana utiliza uma catapulta para crescer e se fortalecer... ou então não, e quando "não", é mesmo abismal. Mas a mente tem um enorme poder, o poder de escolha...

Há presenças que não nos dizem nada e há outras que nos dizem tudo, ainda que em silêncio...
:)
Have a nice day!
Beijinho

P.S som incrivelmente adequado a esta leitura!


De V.A.D. a 14 de Fevereiro de 2008 às 01:40
Estados de alma... Momentos de indefinível tristeza, a amargura do desalento apossando-se de um ser...
Subscrevo-te: é na dificuldade que se cresce interiormente, é provando o acre que se aprecia a doçura. Sim, é espantosa, a capacidade da mente. Permite que problemas aparentemente insolúveis sejam resolvidos num ápice, superando-se, enchendo-se de determinação, vencendo abismos... :-)

Há silêncios tão cómodos...! Valem por milhentas palavras ocas, definem melhor o que se sente que todos os verbos conjugados...

Esta música toca-me profundamente; sou capaz de ouvi-la vezes sem conta.

Desejo-te uma noite muito, muito agradável, cheia de momentos melodiosos!

Um beijo e um sorriso... :-)


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