Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008

Precipício

                  

“Trazia neles negrume da noite, os olhos postos num ponto quimérico insinuando a melancolia dos crepúsculos cinzentos e o silêncio lacrimoso da desafortunada existência. O cabelo caía-lhe pelos ombros, uma anarquia desordenada de filamentos de azeviche ondulando ao sabor do vento catabático que soprava de norte, as costas voltadas ao sol numa obstinada recusa de quentura, a pedra onde se sentava fortalecendo a frialdade do Inverno tardio e persistente. Ausente num alhures diviso, a mente apartada esquecera-se do corpo dessensibilizado pelos sentidos desliados, a mágoa de algum indeclinável desencanto arrojando-a num precipício contrário à razão. Tocou-a ao de leve com a suavidade de um sussurro, o aveludado das palavras brotando dos seus lábios como uma carícia, a lhaneza de um olá arrebatando-a à catalepsia em que parecia estar deliberadamente mergulhada, o pestanejar redobrado denunciando o regresso à inteligível realidade, uma abrupta negação do abismo trazendo um sorriso embaçado. Respondeu-lhe com a firmeza espontânea de um olá, ele sentando-se junto a ela, ambos olhando a espuma branca que o vento arrancava às ondas…”  

V.A.D. em Precipício

Vídeo: Edge Hill (Groove Armada) (www.youtube.com/watch?v=HEAhRhjtK58)


publicado por V.A.D. às 02:59
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10 comentários:
De **** a 12 de Fevereiro de 2008 às 22:04
"O cabelo caía-lhe pelos ombros, uma anarquia desordenada de filamentos de azeviche ondulando ao sabor do vento catabático que soprava" - Este texto foi um choque, um definitivo, inesperado, arrebatador choque depois dum dia cansativo. Revi-me duma forma demasiado abrupta, uma espécie de dejá vu do momento da manhã em que, em certa altura, me “sentei as costas voltadas ao sol numa obstinada recusa de quentura, a pedra onde se sentava fortalecendo a frialdade do Inverno tardio e persistente”, ao lado de amigos e colegas, mas isolada, agarrando-me a mim mesma, num ponto ligeiramente mais alto que eles.

A pedra era, contudo, dum banco de lavra humana. Faltou-me o mar à minha volta e esse “olá” no qual confesso que pensava – num “olá” determinado, conhecido, desejado, que teria afastado tudo o “negrume da noite”, que teria pedido à mente para regressar e que aqueceria o corpo, teria afastado a mágoa. Fui arrancada desse confortável estado de letárgica melancolia por o toque frívolo duma campainha e não por um sussurro quente junto ao pescoço, daqueles acompanhados por um sopro que arrepia a pele, por um distraído afagar das mãos no ombro, por um sedento inalar da essência que se desprende desse anárquico cabelo.

O texto absorveu-me...

Beijos,
E que tenhas uma noite bem mais cheia de maresia que a minha passada a trabalhar em frente a um computador

Sophia


PS – Na altura ouvia música, se conhecesse esta antes teria sido uma boa candidata para me acompanhar... deveras sugestiva


De V.A.D. a 13 de Fevereiro de 2008 às 02:14
A mais dilacerante de todas as solidões é aquela que se vive no meio da multidão, o isolamento da ilha que somos sendo afirmado de forma contundente... Sendo pura ficção, esta espécie de retrato pretende afirmar que as pontes podem ser construídas com a simplicidade das palavras, o frio da existência sendo aplacado através de pequenos gestos... Metáforas... Gosto de as ver nascer, incomplexas e espontâneas, à medida que vou escrevendo... :-)

Nem te sei dizer o quão espantado fiquei, ao saber que a tua manhã tinha tido um momento assim, a tua alma apartada de ti, perdida em divagações ausentes. Sei que terias gostado de não ter sido a campainha a devolver-te à realidade; melhor seria, de facto, o toque suave de uma voz... Haverá certamente um dia, um alguém que te arranque da melancolia com um "olá" desejado... :-)

Fico contente por saber que, de certa forma, o texto te "tocou"... :-)

Desejo-te uma noite muito, muito agradável...! Groove Armada é excelente companhia, mas permite-me que te sugira Camera Obscura... :-)

Um beijo e um grande sorriso... :-)


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