Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008

Insectos (VI)

“A escuridão cegante da noite informe era trespassada por um sem-número de minúsculos pontos brilhantes, o fabuloso espectáculo de um firmamento discrepante podendo ser observado da superfície gélida e inerte do corpo celeste nos confins do sistema. Uma a uma, as naves-colónia ligavam os portentosos foguetes no apoastro, um rasto luzente de gases em rápida expansão impulsionando massas imensuráveis na direcção da estrela diminuída pela distância, carros de assalto aprestando-se para a conquista, o destino esboçando-se num rio vermelho de sangue, o futuro parecendo colorir-se do azul metálico da hemolinfa… As rotas eram traçadas nos computadores quânticos, os pilotos monitorizavam os cosmolábios e faziam correcções a cada instante, Alcor exercendo uma ténue mas perceptível força, os gravitões puxando os veículos para fora da trajectória. Subitamente, através dos comunicadores de todas as naves, chegou o desejo que representaria o malogro. Os machos abandonavam os seus postos, o estímulo incontrolável do acetato de z-dodecenilo agindo como uma força invisível que os atraía para as fêmeas, as fêmeas respondendo instintivamente com a activação das glândulas localizadas junto ao órgão genital reforçando o frenesi, a premência da cópula superando tudo…”

V.A.D. em Insectos

Imagem: Nave-Colónia (http://ferrus.blogs.sapo.pt/arquivo/estrela%20cadente.jpg)

publicado por V.A.D. às 03:18
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8 comentários:
De mnike30 a 8 de Fevereiro de 2008 às 23:47
Bem… nem sei por onde começar, mas acho que vai ser mesmo pelo inicio…
Sim, é assustadora a forma como tu escreves…
Consegues esconder o mais ínfimo pormenor de sentimento/ vivência real atrás de uma ilusão de constantes explosões galácticas.

Poxa! Deves ficar exausto quando, por fim, terminas umas deambulações tão ofegantes, catapultadas para um universo tão osmótico de sonho e realidade.
Posso até dizer que, a cada parágrafo destes “insectos” tive que fechar a boca… nem imaginas as vezes que pensei cá para comigo… “E eu que pensava que era doida”...
Sim, a certa altura, já estava eu completamente inundada pela tua paisagem estelar, "alienei-me" de mim e vi um bloco operatório escondido na “sede do governo”… percebes agora porque é que é assustador ler-te?

Não vou descortinar aqui as tuas metáforas, mas dois sóis “anestesiados” pela força gravitacional ao ponto de originarem tamanho voo intergaláctico… eu não sei… a sério que não… mas posso até apostar que nenhum buraco negro conseguiria sugar tamanha irradiação.

Será da luz do sete estrelo? Acho que não… deve ser mesmo do pó de feromónio presente na tua atmosfera…
Poxa, pá, acho que me calo agora!
Não gostei. Adorei mesmo… até tive medo de ter gostado tanto!

Beijinho

P.S. Atrevo-me a dizer que isto é quase literatura erótico-espacial… ;)


De V.A.D. a 10 de Fevereiro de 2008 às 01:20
Em primeiro lugar, quero pedir desculpa por só agora responder ao teu comentário. A vontade de concluir o conto e a hora tardia a que o fiz deixaram-me sem tempo...

A sério: não sabia que a forma como escrevo podia ser assim como dizes, assustadora, mas enche-me de vaidade contida, perceber que a transcrição das ideias que se me vão formando na mente pode ter um impacto assim tão grande. Uma coisa é certa: escrevo por prazer; é uma descoberta que fiz há pouco tempo e que se tem revelado deveras agradável, também pelo retorno positivo que tem tido.

Mesmo neste género, aquilo que é ficção pura não deixa de conter pedacinhos de quem escreve: algumas das paisagens existem na realidade, algumas das experiências foram vividas; em ambos os casos, pequenos e subtis retoques são dados, a realidade transformando-se em imaginário, o imaginário sendo passado para a escrita, nem sempre da melhor forma, mas sempre com intensidade... :-)

Nem sempre a construção das histórias é fluida e fácil, especialmente porque os pensamentos têm a mania de se atropelar uns aos outros, a escolha, nem sempre a melhor, sendo dificultada por algumas hesitações sobre o caminho a seguir. Enfim... :-)

Existem realmente algumas metáforas, escondidas sob a capa de frases aparentemente descritivas. Talvez venha a abordar uma ou outra, num eventual posfácio a publicar brevemente, no qual pretendo partilhar algumas das minhas considerações sobre a estranheza das coisas que não nos são familiares, mas que nem por isso deixam de ser interessantes, sob o meu ponto de vista.

Para concluir esta resposta, já longa, resta-me agradecer as tuas palavras, amáveis e motivadoras, e deixar-te uma sugestão de leitura, essa sim erótico-espacial: "Os Amantes" de Philip José Farmer, publicado pela Europa-América sob o número 237 da colecção "Ficção Científica"... :-)

Formulando os votos de que a tua noite seja muito, muito agradável, deixo-te um beijo... :-)


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