Terça-feira, 11 de Dezembro de 2007

Artefacto (I)

“A casa, grande e quase vazia, estava embrulhada na obscuridade das persianas fechadas, um cheiro mofento e abafadiço de velhice aflorando das paredes nuas e descaracterizadas. Escutava-se o ténue rumorejo das carícias do vento nas janelas e o estalejar das grossas traves do tecto, a madeira cedendo em reacção às pequenas mas sensíveis variações de temperatura resultantes da frescura do ar, renovado pela porta que havia deixado aberta. Estremeci, ao ouvir os seus passos arrastados e o bater cadenciado da bengala no sobrado. Da penumbra, destacou-se um rosto branco, as rugas de muitos anos criando desfiladeiros na pele fina e seca como papel, um sorriso franco assomando-lhe nos lábios finos e o brilho dos olhos ofuscando de tanta vivacidade. - Siga-me, por favor. Dirigimo-nos aos degraus e desci-os com cuidado, a mão ao longo do corrimão, guiando-me até à cave onde uma profunda escuridão nos aguardava, agachando-se pelos cantos, como predadores emboscados. Devagar, à medida que o olhar se adaptava, os falazes animais iam tomando a forma de cadeirões e armários. A meio da divisão, sobre uma mesa rústica, um estranho artefacto emitia uma ténue luz, de um azul fantasmagórico…”

V.A.D. em Artefacto

Imagem: Luz Azul (http://images.inmagine.com/168nwm/digitalvisionfilm/dv760/dvf760012.jpg)
música: Blue Light (David Gilmour)

publicado por V.A.D. às 02:52
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12 comentários:
De ______ a 12 de Dezembro de 2007 às 11:53
Olá

Não gosto do escuro (só para dormir) e as sombras trazem-me sempre fantasmas que falam sussurrando em redemoinhos no meu pensamento que cria cenários assombrosos. Mas gosto do teu texto que cria a perspectiva duma noite fria em, que tudo é possível, nessa cave em quye habitam mais que letras da imaginação.

Beijos V.A.D. e um sorriso :)


De V.A.D. a 13 de Dezembro de 2007 às 02:24
Olá, Ki :-) Gosto da noite e aprecio, em certas ocasiões, a escuridão; há alturas em que me é muito agradável, pois propícia uma tempestade mental, dissimelhante da que referes, na medida em que me recuso a aceitar que fantasmas de qualquer natureza interfiram com os processos de divagação em que me deixo transportar.
Agradecendo as tuas amáveis palavras, desejo-te uma excelente noite.

É claro que retribuo o teus beijos e o sorriso... :-)


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