Quarta-feira, 14 de Novembro de 2007

Viagem (VII)

“Três longos anos da minha vida foram devotados ao entendimento de como aquele espantoso evento ocorrera, lançando-me numa impaciente tentativa de o replicar. Servi-me, para isso, da minha memória e dos maquinismos que presumivelmente haviam gerado aquela ímpar condição de descontinuidade que me havia arremessado para o passado. Uma a uma, as respostas foram sendo custosamente encontradas, experiências exaustivas tornando viável o que era anteriormente inadmissível. Debati-me com escolhos de toda a ordem e não poucas vezes considerei renunciar à tarefa de tornar maneiro, o miraculoso engenho que me levaria, uma vez mais, a pontos dissemelhantes de uma mesma linha temporal. Não me vou delongar em detalhes, por agora. O meu objectivo está concretizado: estou em Lisboa, na primeira hora do dia um de Novembro do Ano Da Graça de Mil Setecentos e Cinquenta e Cinco; preparo-me para assistir in loco ao terramoto, num local que considero ser seguro. Aluguei, a troco de uma moeda de prata, herança de família, um quarto numa estalagem surpreendentemente limpa, e vou esforçar-me por dormir algumas horas. Se pressentir algum perigo eminente, terei certamente oportunidade de lhe escapar, accionando o deslocador. Se não voltar a escrever acerca desta espantosa aventura, é porque me perdi definitivamente num passado que quis resgatar…”

V.A.D. em Viagem. 

Imagem: Gravura Alusiva ao Terramoto de 1755 (http://pt.wikipedia.org/wiki/Terramoto_de_1755)


publicado por V.A.D. às 02:33
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10 comentários:
De A Túlipa a 14 de Novembro de 2007 às 14:17
o terramoto.. o pânic daquela gente que não sabia que a terra era viva... Não posso imaginar. Esperemos então pelo cataclismo que será o fim da história. (no bom sentido, claro)


De V.A.D. a 15 de Novembro de 2007 às 01:53
Na verdade, estou longe de ser um daqueles indivíduos que sentem uma atracção, diria mórbida, por toda e qualquer espécie de acidentes. O terramoto foi a primeira coisa que me veio à mente, enquanto ia escrevendo o conto e, assim sendo, foi o evento que escolhi como o primeiro a ser presenciado pelo protagonista.
Também eu não consigo nem quero imaginar uma situação assim, em que, no meio de escombros, incêndios e vagas de vinte metros, muitos milhares de pessoas encontraram a morte. Não vou, por isso, fazer um relato da devastação; escolhi para final, algo de muito mais prosaico e menos impactante. Espero que possa agradar... :-)
Votos de uma excelente noite!

Um beijo... :-)


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