Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

Sol Vermelho (V)

“Sou Saf’tiah, a neurocirurgiã. A operação decorreu sem incidentes. Segundo os relatórios que o comando espacial fornecera, o único ocupante da nave alienígena acidentada fora encontrado sem sentidos, os sistemas de combate a incêndios havendo actuado antes que o frágil estrutura biológica tivesse cedido definitivamente aos horrores do fogo, a intervenção pronta da equipa de salvamento permitindo que a centelha de vida não se houvesse extinguido por completo. A injecção de sulfeto de hidrogénio levara aquele ser até ao misterioso limbo da animação suspensa, o metabolismo desacelerado permitindo a preservação da mente até que todo o encéfalo pudesse ser transplantado para um organismo estaminal, em tudo semelhante ao corpo de um de nós. Respondia aos estímulos, o sistema nervoso parecendo adaptar-se sem dificuldade à nova condição, os parâmetros da vida revelando-se estáveis, perspectivando uma recuperação a todos os títulos notável, tão notável quanto a semelhança genética que nos havia confundido a princípio.

Permanecem pouco mais de cem milhões de nós no planeta que viu nascer a nossa espécie, os restantes havendo partido há muito, requestando o futuro afiançado nas estrelas, num êxodo velho de milhares de milénios, os genes disseminando-se pela galáxia como uma epidemia de vida colonizando o desconhecido, o instinto de sobrevivência zelando pela continuidade. Quebraram-se os laços com o passado mais remoto, cataclismos de natureza diversa arrasando consecutivamente o edifício da história, destruindo o ensejo de confirmar de imediato o vínculo, que a minha intuição teimosamente afirma existir, entre aquilo que sou e o que aquele estranho representa. Anseio pela hora de o olhar nos olhos; quem sabe terei um vislumbre da sua verdadeira natureza…”

V.A.D. em Sol Vermelho

Imagem: Encéfalo (http://thumbs.dreamstime.com/thumb_80/1156548884el1QEe.jpg)


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Segunda-feira, 14 de Abril de 2008

Sol Vermelho (IV)

“Sou Jon’hoh, o comandante. O nosso mundo está à beira do fim. Passaram-se já nove mil milhões de anos desde que a nossa estrela nasceu, a fase de gigante vermelha assimptótica havendo-se já iniciado há vários séculos, o colapso gravitacional resultante do esgotamento do hidrogénio no núcleo levando a um aumento da temperatura, a transmutação do hélio em carbono tornando-se factível, as camadas exteriores expandindo-se pela súbita pressão termodinâmica vinda do interior. É quase irónico, pensar que o elemento em que toda a vida conhecida se baseia esteja a ser criado desta forma, o processo que leva a esta génese ameaçando de extinção todo um ecossistema, o pagamento de um evo de vida sobre o planeta prestes a ser cobrado. Aprendemos a dominar os mais ínfimos aspectos da biologia, somos capazes de prorrogar a morte quase indefinidamente mas ver-nos-emos na contingência de abandonar o nosso lar definitivamente, antes de sermos obliterados pela fotosfera do astro moribundo, caso o escudo protector se venha a manifestar incapaz de alterar o destino.

As minhas cogitações são interrompidas, a hora do teste aproximando-se numa irreversível contagem decrescente, o gerador de radiações, posicionado algumas milhas acima da atmosfera, aguardando o premir do botão, os sensores da nave em voo sub-orbital apontados para o ponto onde a descarga terá a máxima intensidade. A sequência é iniciada e concluída com exactidão, o êxito parecendo reforçar a esperança no futuro. Subitamente, o imediato agita-se, alertando-me para um objecto improvável, escuro e danificado, surgindo no monitor como uma mancha informe…”

V.A.D. em Sol Vermelho

Imagem: Planeta (original em www.natrium42.com/halo/flight2/thumbs/IMG_0461.jpg)


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Domingo, 13 de Abril de 2008

Sol Vermelho (III)

“A recordação das caras de quem amava perpassava-me pela mente, a nostalgia de tempos e lugares sabidos instilando-se dolorosa no córtex das emoções, o pontual desalento indignado de me saber perdido provocando aquela reacção. Os dedos ainda entorpecidos, a que me principiara a habituar, cerraram-se instintivamente, enquanto as pálpebras se fechavam, o ar asséptico sendo inalado profundamente num acto consciente. Resultava sempre. Resultara agora, a calma expectante regressando de imediato pelo anseio racional de iludir a desesperança em que me não podia deixar cair. Lá fora, a aurora dava lugar ao dia, a luz avermelhada crescendo de intensidade a cada minuto, deixando que as sombras se desvanecessem para que os pormenores daquele panorama alienígena se intensificassem. A vegetação rasteira e esparsa tinha algo de familiar, uma ou outra flor garrida contrastando com a predominância azulada de arbustos semelhantes a árvores enfezadas, enquanto à minha direita, mesmo no limite do raio de visão, construções soberbamente elevadas pareciam varar o céu sem nuvens, como arranha-céus numa qualquer grande cidade da Terra. Tantas eram as perguntas que me cruzavam o espírito, e tão arredia me parecia a perspectiva de obter respostas, a comunicação com os estranhos fazendo-se apenas por gestos, os fonemas trocados sendo-nos completamente ininteligíveis, os símbolos que haviam surgido numa das telas revelando-se-me indecifráveis, a pasigrafia não passando de um conceito isento de resultados.

Atrás de mim, o som distintivo da porta deslizante anunciou a chegada de alguém. Virei-me tão depressa quanto possível e apercebi-me da concentração estampada na face pálida, imberbe e oval da criatura obviamente feminina que acabara de entrar. Lágrimas de um contentamento incontido brotaram dos olhos que tomara por empréstimo quando, inesperadamente, ela se me dirigiu, a sua voz suave arrastando-se num sotaque carregado:

- Bom dia! Sou Fen’dah, a linguista…

V.A.D. em Sol Vermelho

Imagem: Arranha-Céus (original em www.mediaarchitecture.org/wp-content/uploads/2006/07/TurningTorso11.jpg) 


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Sábado, 12 de Abril de 2008

Sol Vermelho (II)

“A missão, solitária e corriqueira, aprestava-se a chegar ao término, a velocidade orbital de mach vinte e cinco principiando a ser reduzida pelo atrito da alta atmosfera, a rápida desaceleração fazendo-se sentir em cada músculo já desacostumado do peso, o rasto do ar tornado incandescente inundando de uma intensa luz alaranjada a carlinga da pequena nave, a temperatura nos painéis cerâmicos do revestimento externo atingindo vários milhares de graus, o elevado ângulo de ataque impedindo-me de vislumbrar o continente europeu tingido pelo negrume da noite e o artefacto contra o qual o acaso quis que desse o embate. Ao violento estremecimento sucedeu-se o inferno das chamas, a serenidade atenta rasgando-se na violenta aflição de um mar de fogo que carcomia o corpo e o espírito em dentadas de padecimento, a perda de consciência sobrevindo apaziguadora, antecipando uma morte que se me afigurara indeclinável. Minutos ou séculos depois achei-me naquele estado: um ser vivente exonerado do seu próprio cadáver numa grata negação da ordem natural das coisas, a natureza humana residindo numa compleição desconhecida.

Sacudi as memórias, fixando a minha atenção naquela paisagem estranha, as águas de um oceano aparentemente morto espraiando-se numa cataléptica imobilidade, apenas aquilo que podiam ser leves sopros de vento encapelando aqui e ali a superfície escura das águas onde o vermelho da radiação se espelhava como sangue derramado…”

V.A.D. em Sol Vermelho

Imagem: Reentrada (www.goingfaster.com/icarus/reentry2.jpg)


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Quinta-feira, 10 de Abril de 2008

Sol Vermelho (I)

“Já não tinha preocupações. A esmagadora sensação de que o fim fora iminente havia sido extinguida, as dores excruciantes não passando presentemente de uma mera ilusão de formigueiro que se tendia a desvanecer, a terrível ideia de término definitivo dando lugar à utopia da eternidade. As necessidades básicas eram agora providas pela complexidão da maquinaria biológica arquitectada pelas hábeis capacidades dos meus captores, o corpo totalmente artificial abrigando o meu imo, a sede do meu raciocínio tendo uma nova morada, tão diversa mas tão incrivelmente cómoda. Olhei-me no polimento do metal, a acção repetida vezes sem conta nestes últimos dias trazendo-me de novo aquela aflitiva noção de não me reconhecer, o invólucro postiço confundindo os sentidos e ferindo a mente num choque que se renovava teimosamente mas que, contudo, se parecia atenuar à medida que o tempo passava. Forçara-me a aceitar esta nova condição sem compunções nem revoltas, uma espécie de gratidão nascendo da certeza de estar morto, naquele momento, não fora a intervenção atempada daqueles seres, tão terminantemente alienígenas quanto capazes de revelar uma benignidade que rareava entre os humanos. Virei-me para a translucidez da estranha parede que me separava de um mundo que me era totalmente desconforme, admirando a vermelhidão de um sol grotescamente grande que acabara de ser erguer para lá de montanhas e edifícios negros de sombra. Fiquei ali, de pé, deixando que a memória me conduzisse, numa reconstituição precisa dos últimos instantes da minha anterior existência...”

V.A.D. em Sol Vermelho

Imagem: Sol Vermelho (original em http://static.desktopnexus.com/wallpapers/9677-bigthumbnail.jpg)

música: No Worries (Simon Webbe)

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Quarta-feira, 9 de Abril de 2008

Perceber

“Não quero ter pressa. Quero ser capaz de passar pelo tempo como se ele fosse minha propriedade, o andar decidido e a cabeça erguida assinalando aquilo que sou. Quero parar pelo caminho num reacender de memórias, a renovação de quem sou sendo feita pela condensação num momento inacabável daquilo que é intemporal. Quero olhar o futuro em todas as direcções, escolhendo, mesmo que o erro seja manifesto, um passo atrás não representando mais do que a consciência de que o desacerto é parte do inacabável processo de aperfeiçoamento. Quero saber da alegria de reencontrar velhos amigos, perdendo-me em conversas sem prazo delimitado, comprazendo-me com as vivências, assimilando as experiências, aprendendo que pouco sei. Quero admirar a subtileza de pequenos gestos, a gratidão interpretando a reciprocidade e não simulando o pagamento daquilo a que se não deve atribuir um preço. Quero partilhar-me, as minhas faces desiguais sendo mostradas sem dissimulações ambíguas e artificiais. Quero aperceber-me das peculiaridades de mim mesmo para almejar o entendimento dos outros. Preciso, para tudo isso, de me alienar do constante tiquetaque que me enche, ouvidos e mente, de uma ânsia abstrusa de chegar a lado nenhum…!“

V.A.D.                                 

Imagem: Espelho (http://img.photobucket.com/albums/v160/darkloud/MirrorHand2.jpg)


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Segunda-feira, 7 de Abril de 2008

Encosta-te a mim...!

                   

“O vento assobiava, incansável, o beirado com as suas saliências e reentrâncias fazendo vibrar o ar em movimento, os pequenos e invisíveis vórtices produzindo aquele som agoirento que antecipava a noite tempestuosa. A casa estava confortavelmente aquecida; a lenha, crepitando na lareira, ia-se desfazendo na quentura que enchia de placidez o ambiente, numa contradição artificiosa da natureza climática e do frio que instalara no seu âmago, o abismo negro da solidão envolvendo-o como se não mais pudesse regressar à companhia dela. Pousou o livro que não conseguia ler, as letras iludindo-o no tremeluzir das lágrimas que lhe inundavam os olhos, acendeu mais um cigarro e fixou-se no vazio que se lhe entranhava por todos os poros, num vão tentame de o desmentir.

Despertou subitamente, a frescura da água salgada caindo em pingos grossos sobre o corpo, o riso malicioso e brincalhão entrando-lhe pelos ouvidos adentro, as pálpebras semicerradas filtrando a intensidade do sol e ainda assim autorizando que o rosto dela se formasse na retina, a imagem dos cabelos húmidos e dos olhos sorridentes devolvendo-o à maravilha daquele dia de praia.

– Estavas a dormir?

Apercebendo-se do calor que sentia e do logro em que a sua mente o havia induzido, respondeu-lhe, antecipando o toque macio e refrescante da pele molhada de encontro à sua.

– Estava a ter um pesadelo. Deita-te, encosta-te a mim…!”

V.A.D. em Encosta-te a mim…!

Vídeo: Encosta-te a mim (Jorge Palma) (www.youtube.com/watch?v=Tu9HPz__3ys)


publicado por V.A.D. às 02:30
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Sexta-feira, 4 de Abril de 2008

Antiquitera (Epílogo)

“Brinco com o anel rodando-o no anelar e adivinhando as inscrições que o breu não me deixa vislumbrar. O alinhamento dos planetas havia-me levado a Ta-netjeru, a “Terra dos Deuses”, fazendo-me embrenhar, a austral, nas águas do Nilo, quase até chegar a margens núbias. Num acto de requintada ironia, os astros haviam eleito uma noite em que a abóbada celeste se velara com um manto de densa bruma, passando num passo cuidadoso pelo Nectanebo, a sul do Templo de Ísis, e pelos dois enormes pórticos em “V” na semi-obscuridade. A primeira das seis cascatas lembrava a sua proximidade, com um ruído constante que criava a sensação de, mesmo aqui na ilha de Filae, as minúsculas gotinhas de humidade se fazerem sentir na pele, gelando-me. Dois pesados archotes assinalavam o primeiro pilone, iluminando em conjunto o imenso espelho de água que acrescentava no seu reflexo um pouco de magia à desértica fachada do templo.

Abeirei-me da sua superfície, mirando-me. Uma vida havia passado – havíamos percorrido o mundo, mostrando nos mais restritos círculos o engenho que havia ficado sem outro nome senão esse, envolvendo-nos em demandas científicas, conhecendo gentes em cada porto; tínhamos sofrido um pouco, sorrido um tanto e, sobretudo, havíamo-nos amado demais; fôramos companheiros, cúmplices e amantes até à sua morte – mas a minha face mal tinha sido tocada pelo tempo. Aparentemente partia como tinha conhecido Hiparco naquela noite em Alexandria, levando o mesmo anel no dedo, o astrolábio, aperfeiçoado, dentro da bolsa e o cabelo claro preso num gancho de âmbar e prata. Não havia sequer trazido o mecanismo, tinha-o doado aos sábios de Rhodes. Contudo, levava no olhar um novo sentimento que não deixaria jamais. Um familiar clarão iluminou a noite. Encaminhei-me vagarosamente para lá.

Teria saudades.”

Sophia

 

Pouco antes da Páscoa do ano de 1900, uma tempestade desviou de sua rota um barco grego de pescadores de esponjas, fazendo-o chegar à pequena ilha de Antiquitera, a meio caminho entre o Peloponeso e Creta. Quando mergulharam a sessenta e um metros de profundidade, encontraram os restos de um navio romano que havia naufragado por volta do ano 65 aC. Durante ano e meio, pioneiros da arqueologia submarina recuperaram esculturas de bronze e mármore, ânforas e uma miríade de pequenos objectos. Enquanto examinava os despojos em 1902, Valerios Stais, director do Museu Arqueológico de Atenas, descobriu a máquina, em elevado estado de degradação. O aparelho, sofisticadíssimo para a época em que foi construído, constitui uma das maiores maravilhas tecnológicas de toda a história da humanidade.

V.A.D.

 

V.A.D. e Sophia em Antiquitera

Imagem: Mecanismo (IV) (http://www.newyorker.com/images/2007/05/14/p465/070514_antikythera01_p465.jpg )

 

“Who dares to love forever?
When love must die

But touch my tears with your lips
Touch my world with your fingertips (…)

And we can love forever
Forever is our today (…)

 

Who waits forever anyway?”

 

Obrigado, Sophia!

música: Who Wants To Live Forever (Queen)

publicado por V.A.D. às 15:00
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Quinta-feira, 3 de Abril de 2008

Antiquitera (XIII)

“Calo-me. Fica só o som do pausado bater do coração e o enérgico palrar das aves que anuncia o entardecer. O sol já ia baixo, a oeste, iluminando agora o banco. Ambos havíamos viajado por horas pelo meu passado – mais longe do que Hiparco alguma vez teria sonhado ir, mais longe do que eu pensaria vir a levar alguém. Contara-lhe que no Ragnarok me haviam afastado do meu povo, expulso duma terra que habitava há tanto que poderiam chamar sua, que havia sido a guardiã do saber de gerações, tão almejado pelos invasores, e que me haviam deixado somente um anel com inscrições sobre um alinhamento planetário, uma pista para um resgate que perdera importância à medida que a construção do mecanismo que o permitiria singrava. Ele dá-me um beijo terno e devolve-me o Astrolábio, pedindo num sussurro novamente quente que o ensine a olhar as estrelas.

Findara a tarefa que nos juntara, mas nascera algo mais…”

Sophia  

 

 

“O cronógrafo, em contagem regressiva, registava quarenta e oito unidades de tempo até à abertura do portal, o buraco de verme ainda impenetrável apresentando-se sinalizado por dois imensos radiofaróis, a energia sendo extraída de Musphelheim que brilhava, inexaurível e amarela, seis minutos-luz para lá do gigantesco planeta gasoso, fonte inesgotável de lendas, terra dos gigantes que na antiguidade haviam atemorizado as criancinhas pelas histórias contadas nas noites escuras. Antes de se concentrar na miríade de ponteiros e luzes, pejando o painel do carro espacial, Wotan lançou um derradeiro olhar ao seu mundo natal, o negrume do espaço descontinuado pelo azul da enorme lua a que chamavam de Asgard, berço e morada dos seus. De súbito, a viagem ocorreu, o alinhamento planetário num sistema distante somando a gravitação até que o atalho se desfechasse, o tempo e o espaço desfazendo-se numa singularidade, os parsecs diluindo-se num grânulo sem grandeza aparente, a Terra aparecendo diante de si, tão azul e bela quanto sua por acolhimento.

A noite descera, havia pouco. A Lua, cheia de fulgor, emitia uma claridade fantasmagórica sobre os montes e os vales onde as sombras se escondiam, a povoação outrora resplendorosa aninhando-se no sopé da montanha onde a fortaleza se arruinara. Segurava a sua lança como um bordão, a face sombreada pelo chapéu de aba larga que lhe não escondia o cabelo cinzento nem o brilho do olhar. Abriu a porta num rompante. Os rostos denotaram primeiro surpresa, depois uma profunda reverência. A sua voz soou, cavada e penetrante, quando quis saber se Freyja se encontrava ali, na que fora a casa de Vanir. Disseram-lhe que não; ofereceram-lhe guarida… Wotan, o Viandante, também chamado de Odin, estava de novo entre os mortais e assim permaneceu por mais duas noites e dois dias, esperando em vão por aquela que talvez tivesse finalmente encontrado Odur… Teve de partir, o alinhamento prestes a desfazer-se contando-lhe os minutos. Um mensageiro chegou, o cavalo esgotado pela urgência, um papiro dizendo-lhe que Freyja estaria no Egipto, quando uma nova conjunção se concretizasse…”

V.A.D.

 

V.A.D. e Sophia em Antiquitera

Imagem: Jardim

 

“Shows me colours when there's none to see
Gives me hope when I can't believe
That for the first time
I feel love”

música: The First Time (U2)

publicado por V.A.D. às 15:00
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Quarta-feira, 2 de Abril de 2008

Antiquitera (XII)

“Por um breve segundo, ecoaram as memórias dum plano antigo que antevira a separação. Ele afastara-se, após haver instalado o par de ponteiros da face inferior e o último trio de engrenagens de triangulares dentes de bronze. Agora, uma gota abatia-se sobre a superfície lisa da água, preenchendo a uma cadência de insuperável precisão o silêncio nervoso que, qual ave agoirenta, pairava sobre nós desde o despertar, já tarde adentro. A cada impacto espalhavam-se novas gotículas pelo recipiente de cobre da clepsidra sobre a qual Hiparco se debruçava, ausente, e a cada instante de intervalo eu sofria com a inquietude dos seus gestos, conservando ainda os dedos sobre o mostrador delineado a pigmento negro no cedro, onde os inertes ponteiros em breve principiariam a sua trajectória de circular perfeição. Simulara, no mecanismo, a posição observada, duas noites atrás, dos planetas cuja trajectória através do firmamento iria ser antecipada, a chave sextavada encaixando na perfeição no veio principal, cuidadosamente facetado. Rodei-a, perdendo a conta das voltas, até os ponteiros encontrarem o alinhamento. O calendário marcava trezentos e vinte e quatro. Esses eram os dias que me separavam do possível fim do exílio.

Outra gota condensou num momento ímpar aquele ápice em que tomei a decisão. Sem esperar pela seguinte, interrompi o trautear na madeira e levei-o para o jardim de estilo grego. Aí, o timbre da minha voz dispersava-se em explicações sobre a sua intrincada prenda, os seus olhos acompanhando cada oscilação do disco de oito polegadas de diâmetro, a mudez sendo mantida nos seus lábios. Eu adverti-o que só poderia servir-se de parte do delicado instrumento quando o sol desse lugar ao firmamento nocturno e pedi-lhe para suspender o astrolábio pelo anel de metal, na face oposta girei a alidade oca até que um único feixe de luz se projectasse na palma aberta da minha mão e tentei precisar o grau que era indicado na escala. Ele deixou descair o braço ao longo do corpo e desfez o alinhamento do aparelho, fitou-me com uma frieza contundente e disse-me que não suportaria mais os meus segredos, ocultações e enganos. Talvez fosse a hora marcada para a sua partida; contudo, ele mantinha-me presa pelo olhar que veementemente suplicava que não a permitisse. Segurei-lhe os pulsos e sentámo-nos num banco sob a sombra duma árvore, respirei fundo e encostámo-nos para deixar fluir toda a minha história, gota a gota…”

Sophia

V.A.D. E Sophia em Antiquitera

Imagem: Mecanismo (III) (http://eumesmo.nireblog.com/blogs/eumesmo/files/calcuastro2.jpg)

 

“Talk to me softly
There's something in your eyes
Don't hang your head in sorrow

(…)

Give me a whisper and give me a sigh”

música: Don’t Cry (Guns’n’roses)

publicado por V.A.D. às 15:00
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