Sábado, 16 de Fevereiro de 2008

Imago

                  

Em certos momentos de inquietude, ponho de parte alguns pedaços ínfimos de verdade, abomino a aceitação calada de algumas das fronteiras que a natureza humana impõe, recuso o auto-sacrifício de me avassalar à pasmaceira imposta pela mesquinhez dos limites. Cerro as pálpebras e vejo mundos em construção, vórtices de energia dominando as paisagens desassossegadas pela concepção de alternativas inventadas. Interiorizo-me, a procura da essência sendo levada a um extremo que me esgota e extasia, examino cada recanto do meu ser, consciente de que muito mais se esconde nos subterrâneos inacessíveis, os vislumbres de um palco, de um actor solitário manipulando fios suspensos de pernas para o ar e o reflexo de um títere imago de mim mesmo indiciando a peça que é representada no anfiteatro sem luz do Id. Não me reconheço em reproduções meramente tridimensionais, a translucidez do tempo e as etéreas linhas de causalidade ou de casualidade assumindo uma relevância exasperantemente manifesta, muito antes da alvorada ou pouco depois do pico solar, o equador de quem sou transmutando-se em frialdade polar… Ou ao contrário, nem sei bem…

Vídeo: VjXoe Cosmic Gate (Thievery Corporation) (www.youtube.com/watch?v=ek4C1E-z5tw)


publicado por V.A.D. às 23:58
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Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008

Telestesia (II)

                 

“Como a fragrância que se espalha ao sabor de um movimento etéreo, o aroma incorpóreo dos seus pensamentos atravessava os golfos da distância, o espírito reivindicando a plenitude de tudo tocar, o seu intelecto exultando com o percebimento de outros numa imprevisível singularidade. Via com clareza aquilo que outros olhos viam, nenhum segredo se lhe ocultava, nenhum sabor lhe era estranho. E, contudo, ansiava descobrir, por entre a amplíssima mole, aquela que o complementaria, que daria sentido à invenção insuspeitamente exequível de conhecer sem ter de estar, de se dar a perceber sem desvendar a substância, a imaterialidade dos raciocínios exteriorizando-se bastamente e ainda assim tão bastamente falha de um diálogo ansiado numa premência muda. Era extensa, a agra semeada de perguntas, tão imensa quanto a safra de respostas que tinha armazenado cuidadosamente nos silos frescos da memória que ia sendo arquitectada… Num lugar absurdamente próximo e tão paradoxalmente remoto, uma mente debatia-se na impugnação da velha lei da humanidade, a determinação de se desagrilhoar aniquilando o derradeiro obstáculo, a libertação assentindo finalmente a unicidade, a fusão de dois entes predestinados erradicando decisivamente a sombra num flamejante encontro.”

V.A.D. em Telestesia

Vídeo: Destiny (Zero 7) (http://www.youtube.com/watch?v=ZncATpZre_w)


publicado por V.A.D. às 02:20
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Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008

Telestesia (I)

                  

“Desenleou-se das palavras, abdicou da fútil tentativa de se descrever, os caracteres inventados não chegando para verter no papel todo aquele pélago de emoções incontidas e vertiginosos pensamentos, as palavras parecendo cada vez mais exíguas, incapazes de encerrar as infinitudes deflagrantes de uma indómita e impetuosa mente. Ténues, a princípio, as ondas partiam do seu encéfalo, perturbando o falacioso isolamento de outros egos, insinuando-se disfarçadamente por entre sinapses, as dendrites reagindo, os axónios parecendo envergonhar-se perante a intrusão inesperada mas irresolutamente admitida. Viam-lhe, sentiam-lhe o âmago, sorviam-lhe a intrincada nitidez da essência, a transparência do seu ser entregando-se à intelecção, a clareza das suas ideias transformando o entendimento de quem intuía a sua presença. Tornou-se parte de um todo crescente, a consciência de quem era disseminando-se, harmoniosa, pelos raciocínios inventados de quem a acolhia. Aos outros eram abertas passagens para os lugares onde estava, imagens pintando cores, sons sendo escutados, os conhecimentos difundindo-se num fluxo inesgotável…”

V.A.D. em Telestesia

Vídeo: Porcelain (Moby) (http://www.youtube.com/watch?v=D1Fcaro25Ek)


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Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008

Precipício

                  

“Trazia neles negrume da noite, os olhos postos num ponto quimérico insinuando a melancolia dos crepúsculos cinzentos e o silêncio lacrimoso da desafortunada existência. O cabelo caía-lhe pelos ombros, uma anarquia desordenada de filamentos de azeviche ondulando ao sabor do vento catabático que soprava de norte, as costas voltadas ao sol numa obstinada recusa de quentura, a pedra onde se sentava fortalecendo a frialdade do Inverno tardio e persistente. Ausente num alhures diviso, a mente apartada esquecera-se do corpo dessensibilizado pelos sentidos desliados, a mágoa de algum indeclinável desencanto arrojando-a num precipício contrário à razão. Tocou-a ao de leve com a suavidade de um sussurro, o aveludado das palavras brotando dos seus lábios como uma carícia, a lhaneza de um olá arrebatando-a à catalepsia em que parecia estar deliberadamente mergulhada, o pestanejar redobrado denunciando o regresso à inteligível realidade, uma abrupta negação do abismo trazendo um sorriso embaçado. Respondeu-lhe com a firmeza espontânea de um olá, ele sentando-se junto a ela, ambos olhando a espuma branca que o vento arrancava às ondas…”  

V.A.D. em Precipício

Vídeo: Edge Hill (Groove Armada) (www.youtube.com/watch?v=HEAhRhjtK58)


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Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2008

Insectos - Posfácio

Os insectos são os mais bem sucedidos animais terrestres, abundantes nos mais diversos habitats, a excepção sendo verificada em relação aos ambientes marinhos. No nosso planeta contam-se mais de um milhão de espécies, algumas delas verdadeiramente repugnantes, outras manifestando uma eusocialidade que causa espanto e perturbação, a complexidade da estrutura social assemelhando-se à de alguns mamíferos superiores, exigindo processos de comunicação insólitos, de difícil apreensão e que sempre nos causarão estranheza por serem diversos daqueles a que estamos habituados. Tentei utilizar, no conto, algumas das especificidades que tornam os insectos tão desconformes aos nossos olhos, baseando-me, para isso, em algumas informações disponíveis sobre a sua organização e comportamento. Quando era miúdo, gostava de observar as formigas e a forma como pareciam saber o que lhes competia fazer, o sistema de castas firmando a divisão de tarefas. Maravilhava-me com os carreiros que, supunha eu, teriam de estar assinalados de alguma forma, pois os pequenos animais percorriam-nos sempre como se de uma auto-estrada se tratasse. Descobri, algum tempo depois, que usavam uma espécie de marcadores químicos, segregados por glândulas especializadas. Apercebi-me da importância dessas moléculas na vida de diversos organismos e ainda hoje me interrogo acerca das possibilidades que elas podem representar, um fantástico mundo químico de sinais aguardando a exploração. Actualmente, as feromonas são usadas para o controlo de pragas, o engodo químico que tem por finalidade a continuidade da espécie sendo virado contra as próprias criaturas. Neste meu modesto exercício de escrita, fui um pouco mais além, imaginando-as como meio de comunicação efectiva, a alquimia das palavras usando átomos como fonemas…

Imagem: A Formiga e Eu (http://static.howstuffworks.com/gif/the_ant_bully.jpg)


publicado por V.A.D. às 01:55
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Sábado, 9 de Fevereiro de 2008

Insectos (VII)

“Perco o meu olhar pelas imensas searas de Helianthus Mizariensis, a folhagem cor de vinho ondeando ao sabor da brisa suave que percorre o vale soalheiro, as pétalas douradas encarando a luz, dela extraindo a energia demandada pelo colossal emissor erguido no cume da pequena elevação sobranceira ao rio, o edifício gémeo abrigando o telescópio óptico, duzentas polegadas de lente especulando o crepúsculo que se avizinha. Acendo o último cigarro, o maço amachucado, agora vazio, apresentando as indeléveis marcas daquilo que foi quase um desastre, o embriagante sabor do tabaco acalmando o desassossego da expectativa. Há horas que o trajecto da horda invasora está a ser seguido, a aceleração positiva e constante pressagiando o êxito da contra-medida. Dois terços da distância percorrida deveriam ter já determinado o disparo dos retrofoguetes, a aproximação ao plano da eclíptica teria de ter sido iniciada num ponto espacial já ultrapassado. Imagens imaginadas transcorrem pela minha mente, os hediondos insectos entregando-se ao fabular acto da procriação, deslembrando tudo numa induzida orgia, as feromonas sintéticas agindo como a derradeira arma biológica... F’zir, o intérprete, desperta-me destas cogitações com imprevisível efusão, os gritos carregados de sons sibilantes denunciando incontida alegria. Haviam sido registados violentos embates no sexto planeta e cerca de uma dezena de naves ultrapassara já o ponto de Lagrange, acercando-se perigosamente de Mizar, a colisão com a estrela afigurando-se como destino indeclinável…! Apago o cigarro, respiro fundo e regresso ao observatório, a fim de contemplar a vitória. Mas eis que algures, a milhões de anos-luz, numa outra dimensão nasce uma Supernova!"

V.A.D. em Insectos

Final sugerido por mnike30

Imagem: Colisão (www.ichthus.info/BigBang/PICS/SL9-02.gif)

música: Charriots of Fire (Vangelis)

publicado por V.A.D. às 02:54
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Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008

Insectos (VI)

“A escuridão cegante da noite informe era trespassada por um sem-número de minúsculos pontos brilhantes, o fabuloso espectáculo de um firmamento discrepante podendo ser observado da superfície gélida e inerte do corpo celeste nos confins do sistema. Uma a uma, as naves-colónia ligavam os portentosos foguetes no apoastro, um rasto luzente de gases em rápida expansão impulsionando massas imensuráveis na direcção da estrela diminuída pela distância, carros de assalto aprestando-se para a conquista, o destino esboçando-se num rio vermelho de sangue, o futuro parecendo colorir-se do azul metálico da hemolinfa… As rotas eram traçadas nos computadores quânticos, os pilotos monitorizavam os cosmolábios e faziam correcções a cada instante, Alcor exercendo uma ténue mas perceptível força, os gravitões puxando os veículos para fora da trajectória. Subitamente, através dos comunicadores de todas as naves, chegou o desejo que representaria o malogro. Os machos abandonavam os seus postos, o estímulo incontrolável do acetato de z-dodecenilo agindo como uma força invisível que os atraía para as fêmeas, as fêmeas respondendo instintivamente com a activação das glândulas localizadas junto ao órgão genital reforçando o frenesi, a premência da cópula superando tudo…”

V.A.D. em Insectos

Imagem: Nave-Colónia (http://ferrus.blogs.sapo.pt/arquivo/estrela%20cadente.jpg)

publicado por V.A.D. às 03:18
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Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008

Insectos (V)

“Mizar e a sua distante companheira Alcor haviam já baixado para lá do horizonte, o fabuloso crepúsculo pintado em laranja e violeta fazendo-me arrepiar de espanto, as tonalidades alienígenas apresentando toda a magnificência de uma Natureza simultaneamente estranha e familiar. Oitenta anos-luz são um enorme fosso, mas a beleza é universal e apanha-me sempre numa teia que me imobiliza e me deixa boquiaberto. Seguimos em elevada velocidade, num silencioso voo rasante sobre edifícios rasteiros que se confundem com a orografia, a inteligência intervindo na preservação de uma paisagem prodigiosa, o Lugar parecendo paradoxalmente intocado pela civilização. Em poucos minutos atravessamos metade de um continente para sobrevoar um mar que se estende, escuro e imenso, para lá do alcance da vista. Devemos estar próximos do nosso destino; sob as águas protectoras, esconde-se o alcácer onde irei arrazoar perante os representantes da Grande Nação Cinzenta. Trago comigo o medo de uma plateia alienígena, aquele friozinho que desce espinha abaixo sempre que me dirijo a uma grande audiência. Sou portador dos planos de construção de um emissor de entrelaçamento quântico que, em conjugação com a habilidade de síntese molecular dos meus interlocutores, permitirá a aniquilação do inimigo…”

V.A.D. em Insectos

Imagem: Mar Escuro (www.candacedwan.com/jelly/data/photograph/image/Maximum_Width=1000,Maximum_Height=322/6761.jpg)
música: The Sea (Morcheeba)

publicado por V.A.D. às 02:55
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Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2008

Insectos (IV)

“A primeira das muitas dezenas de naves-colónia interceptava agora a órbita do décimo e último dos planetas que compõem o sistema de Mizar. Dentro de algumas horas, os poderosos motores químicos funcionariam de novo para iniciar a travagem, a alteração de velocidade permitindo que a gravitação do corpo celeste prendesse a máquina com fios imaginários, o metabolismo dos seus passageiros sendo gradativamente acelerado pela energia recolhida dos sóis gémeos, o estado de dormência longo de alguns anos sendo substituído pela frenética actividade de apresto para a invasão. A eusocialidade dá a cada casta uma função específica, a rígida hierarquia traduzindo-se num funcionamento síncrono do numeroso grupo, as feromonas enchendo o ar pesado com ordens e comunicados. Diversos veículos de caça haviam sido já enviados para o alvo, os batedores tendo como legacia a averiguação de ameaças. Um contínuo fluxo de informação inundava a ponte de comando, o marechal-de-campo e os adjuntos analisando os dados fornecidos pelos aparelhos de entrelaçamento quântico que mimetizavam instantaneamente as moléculas orgânicas segregadas pelas glândulas comunicacionais dos guerreiros e dos dispositivos sensoriais incorporados nos próprios veículos. A certo ponto, algo definitivamente desigual diferenciou-se insidiosamente da regularidade expectável: um objecto voador não identificado acabava de ser abatido…”

V.A.D. em Insectos

Imagem: Insecto (http://piclib.nhm.ac.uk/piclib/webimages/0/30000/300/30302_med.jpg)

música: The Blinding Sun (Gustavo Santaolalla)

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Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008

Insectos (III)

“Acordo entre a pureza de paredes abobadadas e imaculadamente brancas, brilhando com a luminosidade própria das moléculas orgânicas desenvolvidas pelos autóctones, a bioengenharia constituindo a expressão máxima da tecnologia dos aliados. Não sinto dores e a perna parece responder na perfeição às ordens que o meu cérebro emite. Instintivamente, percebo estar num nosocómio, o gel translúcido onde o meu corpo está mergulhado fazendo o trabalho de reconstrução dos tecidos danificados pela queda da nave, abatida por uma patrulha de insectos, o cerco fechando-se inexoravelmente sobre o quarto planeta do sistema mizariano. Acompanhado de um intérprete, o Kriegsherr planetário entra na divisão e o seu corpo esguio e cinzento inclina-se numa vénia, ao mesmo tempo que a bolha que me envolve se esvazia, nove décimos da gravidade terrestre fazendo assentar os meus pés descalços num chão que parece veludo. Depois de um duche ultra-sónico, cubro a minha nudez com o fato de voo cuidadosamente reparado por engenhosas mãos e sigo-os até à brisa morna do exterior. Aguarda-nos um veículo automático que nos transportará até à sede do governo, os planos de retaliação cuidadosamente preparados e contidos na minha cabeça havendo de ser apresentados e discutidos, o poder de uma aliança improvável proporcionando a única esperança contra os ventos de destruição soprados pelos enxames desapiedados…”

V.A.D. em Insectos

Imagem: Homem numa Bolha (original em www.rps.psu.edu/0101/graphics/BubbleMan.jpg)
música: War (Bruce Springsteen)

publicado por V.A.D. às 01:56
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