Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2008

Ainda Sobre O conceito De Tempo...

O tempo parece muitas vezes ser uma entidade flexível, variando segundo os padrões estabelecidos pelo estado de espírito de cada um, fazendo parecer subjectiva a velocidade a que ele se escoa. No entanto, essa noção é desmentida pelo síncrono passar dos segundos, das horas, dos dias, uma infindável sucessão de instantes numa cadência cuja perfeição é diminuída por condições específicas, a rapidez a que o observador se desloca encolhendo o espaço, o tempo sendo esticado num demorar de difícil intelecção. O tempo não é imutável e, contudo, vemo-nos incapazes de o moldar à forma do nosso desejo, as intrincadas leis da relatividade estorvando a nossa determinação. Queria ter a habilidade de o controlar, a macieza dos tempos sem tempo sendo prolongada pela eternidade afora…

música: Time (Pink Floyd)

publicado por V.A.D. às 02:56
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Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2008

Vi

                  

“Vi a expansão abrandar, a matéria escura potenciando a gravidade, o rasgo inflacionário fenecendo, esgotado de tão velho, incapaz de contrariar o poder da mais indomável das forças. Vi os longínquos exames de galáxias em aproximação, o Cosmo iniciando o encolhimento que encheu de luz o céu nocturno, antes quase desprovido de radiação, os frios pontinhos de luz substituídos por fogueiras vibrantes de energia. Vi-me livre da prisão corpórea, a levitação da mente proporcionando um panorama desusado, a invenção de uma bancada de onde um fabuloso espectáculo pôde ser admirado. Vi-me só, o resto de tudo caindo em direcção ao nenhures numa violência de choques que tudo fundia, a matéria aglomerando-se num caldo efervescente de quarks até a radiância se extinguir abruptamente. Senti o ovo cósmico formar-se, a implosão do velho Universo esvaindo o espaço do próprio espaço, o tempo afunilando-se no ralo da eternidade moribunda. Percebi o negrume que absorveu os resquícios de energia adensar-se até nada mais existir, a infinidade de tudo contida num invisível invólucro, a unicidade das forças revivendo o início num aparente fim, o interminável ciclo cósmico dando mais uma fase por terminada... Cessei de existir..."

V.A.D. em Vi

Vídeo: A Grande Implosão (http://www.youtube.com/watch?v=nJgY-ZPY0L0)


publicado por V.A.D. às 03:14
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Terça-feira, 15 de Janeiro de 2008

Verdade

Meti-me à toa por um atalho do tempo para a procurar, os olhos castanhos brilhando de prazer e as rugas de expressão sulcadas em sorrisos abertos dando-me o ar despreocupado de quem bebe um café numa manhã solarenga de um domingo qualquer. Não raras vezes, captei aqui e ali uma impressão confusa de símbolos entre parênteses, a estrutura complexa das matemáticas dando-lhe um significado tão vasto e profundo que a minha mente recuava instintivamente, o receio de ser arrastado por aquela desmesurada força vital agindo como se o pânico da luz me empurrasse para a sombra. E então, desobstruía-se a razão num fluir de noções muitas vezes intuídas, as esquivas imagens geradas nos interstícios sinápticos urdindo a tapeçaria da compreensão, o entendimento nascendo frágil da incerteza progenitora, a minha face tornada esfíngica pelo esforço da concentração. Por vezes pergunto a mim próprio se a realidade não passará de um simples holograma ou se nada mais é que o resultado de meros pensamentos, uma absurda diversidade de palcos sendo povoada por actores inventados. Quase sempre persuado-me da tangibilidade de tudo, a verdade absoluta ao alcance do intelecto mostrando-se perfeita mas absolutamente esquiva, cultivando um absoluto poder de sedução…

Imagem: Verdade (http://static.flickr.com/118/292949477_64c13cbdbb.jpg)

música: The Eyes of Truth (Enigma)

publicado por V.A.D. às 02:27
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Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2008

Diz Que Até Não É Um Mau Blog

Quando, há pouco mais de um ano e em resposta a um desafio do meu filho, me iniciei nestas lides, estava longe de supor que viria a ter tantas manifestações de apreço por parte das pessoas que, muito gentilmente, me lêem. É engraçada a forma como essas pessoas acabaram por entrar na minha vida: as amizades, embora virtuais, não podem ser facilmente distinguidas daquelas que se desenvolvem através de um relacionamento em que a presença física se faz notar. Em ambos os casos, esse sentimento é construído e aprofundado através das nossas vivências quotidianas; criam-se laços fortes, atados com emoções feitas palavras, a escrita agindo como um íman poderoso que atrai e prende…

 

A Maluca Responsável e a Emanuela tiveram para comigo mais um gesto de carinho, distinguindo-me com um prémio chamado “Diz que até não é um mau blog”. Cabe-me agradecer a ambas e dar sequência a esta distinção, cujas regras estão abaixo transcritas.

 

REGRAS

1. Este prémio deve ser atribuído aos blogs que considere serem bons, ou seja, àqueles que costuma visitar regularmente sem frete e onde deixa comentários.

2. Só e somente se recebeu o “Diz que até não é um mau blog”, deve escrever um post, indicando a(s) pessoa(s) de quem recebeu o prémio, com uma hiper-ligação para o(s) respectivo(s) blog(s), a tag do prémio, as regras e a indicação de outros 7 blogs que pretende nomear.

3. Deve exibir orgulhosamente a tag do prémio no seu blog, de preferência com uma hiper-ligação para o post em que fala dele.

 

Os blogs que indico fazem parte do conjunto de blogs que visito e comento com prazer. É com imensa pena que me vou abster de indigitar quem me nomeou, pois os espaços que têm vindo a criar são, tal como os que seleccionei, lugares onde me costumo perder…

Antigos Caminhos

A Túlipa

Dhyana

Flip Side

Lazy Cat

Pérola

Trampolim

música: Glittering Prize (Simple Minds)

publicado por V.A.D. às 00:59
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Domingo, 13 de Janeiro de 2008

Machu Picchu

                 

Um dia hei-de de regressar ali, àquele lugar prodigioso onde as nuvens brancas são varadas pelos majestosos picos erguidos céu adentro, onde a vertigem de um olhar arrasta os sentidos para o indecifrável remoinho da convergência de seis séculos, o azul raro de uma temperatura de cor desabitual trazendo a ideia de um paralelo mais a sul, o soroche desatinando o sono com medonhos afogamentos afigurados e contudo incapaz de acanhar a tenção de ficar para apreender o símbolo das proezas projectadas. A cidade perdida, feita de massivas pedras talhadas cirurgicamente é a velha montanha em quíchua, a magnificência do engenho humano criando o inexequível, o granito cinzento contrastando com o verde dos socalcos agrícolas numa irrealizável tela hiper-realista, a localização privilegiada tornando-a fortaleza, refúgio do Inka e observatório do Inti. Chegarei num equinócio qualquer, a Intihuatana amarrando o poder do sol em alinhamento perfeito ao meio-dia, a sombra sendo alquebrada numa afirmação da arquitectura sabedora de segredos cosmológicos. Tenciono voltar a ouvir as águas tonitruantes do Urabamba e respirar aquela atmosfera única, quando regressar, por fim, a Machu Pikchu

Vídeo: El Condor Pasa (http://www.youtube.com/watch?v=jpJkDZ9g9z4)


publicado por V.A.D. às 02:13
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Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2008

Presente

A Maluca Responsável, sempre gentil, resolveu oferecer-me um presente, que ela afirma envenenado mas que a mim me sabe doce, e que consiste em pegar nos últimos dez títulos dos meus textos e escrever algo de coerente – ou não – em prosa, sob a forma de poema… O que interessa realmente é fazer a imaginação funcionar. O resultado é este:

 

“Eram dezassete horas em Portugal, a tarde sufocante de calor igual a tantas outras, a vida transcorrendo na cadência desacertada de um fluir inconstante mas satisfatório, o sonho surreal da noite de magias sendo protelado num arrastar de minutos que insinuavam horas. Ansiava a partida não menos que almejava a chegada, o lugar onde o reencontro, contendo a promessa de eflúvios suores, era artefacto de maravilha idealizada, fábrica das histórias de paixões profanas. Suspender-se-ia temporariamente a procura, a existência condensando-se numa breve história de tudo, traduzir-se-ia numa voluptuosa catarse, pois que a manifestação de um amor incontido reduz o tempo a uma singularidade na qual nada tem significado…”

 

Cabe-me agora entregar um presente similar a cinco pessoas, para que o desembrulhem…

A Túlipa

Dhyana

Emanuela

Ki

Flip Side (As meminas que decidam entre si a quem cabe a tarefa de desembrulhar o presente)

música: Gift (Lia)
tags:

publicado por V.A.D. às 01:45
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Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008

Estranho

“Sinto sobre os ombros o peso dos séculos, feéricos rendilhados de noções abstractas espraiando-se na mente, a areia fina e já sem brilho de ideias outrora coerentes rangendo sob os pés de mil corpos possuídos. Fadiga maldita…! Cansaço desfeito numa massa pegajosa e informe a escorrer por mim abaixo, a vontade exaurida desabando no arruinamento infecundo de um tempo que nada significa. Nascido noutro lugar que não este onde prosperou, o pensamento reclama a radícula perdida no fosso de parsecs, a origem distante e antanha teimando numa vindicação infindável. Quero ser capaz de galgar as barreiras do espaço e regressar à quentura do sol mais branco, esta luz ofendendo a vista é amarela demais e ensandece os sentidos! Nunca me habituei a este ar, a densidade que não envenena o sangue parece atordoar o encéfalo que não me pertence e sinto-me um estranho na desconformidade de um mundo que não é o meu, o pasmo de dias passados trocado pela ânsia incorpórea ainda por esquecer… Não sou daqui, a identidade em dissonância gritando desapego, a essência etérea ambicionando autonomia…

- Pobre diabo, a demência fá-lo julgar-se alienígena…”

V.A.D. em Estranho

Imagem: Estranho (www.irtc.org/ftp/pub/stills/1999-06-30/strange.jpg)

música: People are Strange (The Doors)

publicado por V.A.D. às 01:23
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Terça-feira, 8 de Janeiro de 2008

Fábrica das Histórias

Foi-me endereçado um amável convite, através do jmack, para participar na Fábrica das Histórias. Neste projecto, todos os visitantes podem ser co-autores de uma história que começa com uma frase, e vai sendo completada por todos os que o visitam, bastando para isso deixar um comentário que lhe dê seguimento. Eis a minha colaboração:

 

“(…) O olhar fixo na infinitude de nada, a mente ocupada em lascivas deambulações isolando-o da intempérie. Abanou a cabeça, como que para afastar a imagem que persistia no córtex visual e respirou fundo, o ar frio daquela tarde de Janeiro, penetrando nos pulmões, fê-lo regressar à realidade. Era hora de cumprir os deveres e deixar que a imaginação serenasse. Provavelmente nunca mais a veria e não se podia deixar levar pela ilusão de um amor à primeira vista, ideia que tantas vezes havia ridicularizado. Atravessou apressadamente o jardim agora deserto, os ramos nus das árvores largando grossos e sonoros pingos sobre o pano esticado do pára-águas pareciam marcar um desordenado compasso, imitação do ritmo caótico da sua vida…”

Imagem: Livro Aberto (www.classcaster.org/resserver.php?blogId=143&resource=openbook.jpg&mode=medium)


publicado por V.A.D. às 03:00
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Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2008

Magias

Quis fechar o livro, mas mantive-me fascinado, a leitura prendendo-me como jamais supus ser possível, os olhos correndo pelas letras que se arranjavam em palavras, as palavras fazendo sentido e contando a história inventada de um mundo diferente. Via-me apanhado numa armadilha de estranha e dominadora beleza, a eloquência da escrita e a plausibilidade do enredo arrastando-me para as profundidades de um oceano assente no leito de uma lógica em completo dissentimento daquilo que é humano mas tendo, contudo, uma chocante enunciação de verdade, a universalidade das leis primevas a ser respeitada na íntegra, trazendo à expressão escrita a obsessão de um rigor hipnótico. Isolamento… Afastado de tudo, até da música que soava baixinho, enredava-me na fluidez da acção e vivia na sob a pele do protagonista, a minha mente gerando imagens de lugares engendrados, a semente da imaginação criando raízes e frutificando. Quis fechar o livro mas hesitei, como se houvesse uma razão pela qual o não devesse fechar, até que a voz dela soou novamente, suave e num tom de desejo prometido: “Vem, vamos para a cama…” Quebrou-se um encanto e fechou-se o livro; há magias indiscutivelmente mais poderosas…

música: Problema de Expressão (Clã)

publicado por V.A.D. às 03:01
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Domingo, 6 de Janeiro de 2008

Tarde

E a chuva havia parado. À esquerda, a terra macia, lavrada de castanho-escuro, parecia exalar o cheiro de mil manhãs de orvalho, mas era numa tarde do princípio de um Janeiro qualquer, quando as nuvens plúmbeas encobriam o sol e o vento frio soprava, arisco, sobre os ramos nus das árvores do jardim, que a minha consciência assegurava estar. À minha frente, a extensão verde da relva era delimitada por um canteiro de rosas por desabrochar, encostado ao muro de tijolo rebocado, para lá do qual o marulhar da água, em corredura pela valeta, trazia à lembrança outros Invernos e o agradável barulho da regueira cheia, no cavado do pequeno vale adjacente à velha casa da minha meninice, a grossa porta de madeira, adjacente ao pátio encharcado, servindo de acesso ao palheiro desnivelado, onde os voos em queda livre se faziam a partir do lintel, um ou dois metros acima do nível da palha solta que amortecia a queda e fazia sonhar com aventuras aéreas, um batalhão de pára-quedistas saltando para um território inventado. Indeclinável, o recuo a um tempo em que as tardes depois da escola eram passadas em brincadeiras soltas, o irmão e os primos como camaradas, o aguaceiro caindo lá fora ressoando nas telhas sobre os barrotes assentes na espessa viga mestra, contradizendo a sequidão da forragem enxuta…

Imagem: Chuva (http://tn3-2.deviantart.com/fs6/300W/i/2005/071/2/f/Rain_by_silent_reverie.jpg)


publicado por V.A.D. às 02:52
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