Terça-feira, 4 de Dezembro de 2007

Otztal (IV)

“O sol erguia-se a meio da abóbada celeste, os seus raios incapazes de abrandecer o frio, parecendo débeis e soturnos. Das neves lá no alto, ainda saíam riachos límpidos e pouco profundos que serpenteavam em direcção ao vale mas, em breve, um frígido manto branco cobriria tudo, até o bosque de pinheiros que estávamos prestes a alcançar. O Tatuado, coxeando cada vez mais e parecendo cansado, resmoneava entre dentes, talvez o peso de muitos Invernos a fazer-se notar na falta de paciência e constante irritabilidade. O sacerdote havia-lhe exigido silêncio por diversas vezes, tantas quantas havíamos avistado um cervídeo, sem que a ordem tivesse sido acatada, e adivinhava-se uma eminente querela. Estava a primeira refeição a ser tomada, o silêncio tenso embrulhando todos num manifesto mal-estar, quando de súbito o Tatuado pega no arco, retira uma flecha da aljava e dispara na direcção do bhelgh-men, que solta um grito, aterrorizado mas indemne. “Agora podes gritar; esta flecha devia ter sido para ti, que te andas a deitar com a minha mulher, mas quis apenas consumar a nossa legação.” Seguimos, com o nosso, o olhar do Tatuado: esperneando, um magnífico veado dava os últimos bafos…”

V.A.D. em Otztal

Imagem: Veado (www.guideschool.com/res/images/Whitetail10.jpg)

música: Sinnerman (Nina Simone)

publicado por V.A.D. às 02:50
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito
Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2007

Otztal (III)

“O Râjan estava sentado, as costas direitas, a boca cerrada e o olhar fixo num ponto não muito distante. Eu, o Vesgo e o Tatuado prostrámo-nos diante dele, a nossa vista pousada nos tufos de erva, a ansiedade tomando conta de cada um de nós. Calmo e seguro, o rei estendeu o braço e tocou-nos nos ombros, em sinal de outorgamento. De imediato, o bhelgh-men irrompeu numa litania repleta de gestos herméticos, enquanto nos erguíamos vagarosamente. Não é possível descrever a ventura que sentia: havia sido aceite no restrito grupo de homens cuja função era garantir por todos os meios a defesa da grei contra o caos. Era-nos confiada a maior das tarefas, o apaziguamento da sanha da Deusa-Mãe, através dos rituais procedentes da noite dos tempos. O falhanço levaria à desgraça, o sucesso representava a glória eterna. Havia começado o Yule; o carneiro cozido com as melhores verduras, o pão ázimo e a cerveja em abundância haveriam de encher os estômagos. As festividades na Casa Comunitária – tambores e flautas marcando o ritmo das danças – prolongar-se-iam durante todo o dia e toda a noite, uma torrente de ledice no monótono gotejar da existência. Para os escolhidos, carne de veado, bolos de farinha de trigo, uma dura caminhada e a impreterível necessidade de sucesso na caçada…”

V.A.D. em Otztal

Imagem: Casa Comunitária (www.islandlife.org/images/Lesvardes1.jpg)

música: Heroes (David Bowie)

publicado por V.A.D. às 01:18
link do post | comentar | ver comentários (14) | favorito
Domingo, 2 de Dezembro de 2007

Otztal (II)

“A noite do meu desassossego esquivava-se, com dificuldade, por entre um sono inquieto, abastecido de pesadelos, a imputação de tão distinta empreitada impedindo o repouso e inundando a pele de abundantes e frios suores. Já noite adentro aconcheguei-me a ela, o corpo quente e a tez macia dissolvendo o nervosismo que me perturbava, fazendo crescer o desejo que se tornou acto e me exauriu de receios, numa extasiante aquietação. O despertar foi sobressaltado e a ablução feita à pressa. Vesti as calças de couro e o gibão de lã, tecido especialmente para aquela ocasião distinta e calcei os largos sapatos de sola. Os dois potes de barro, um contendo leite de cabra e o outro cevada, haviam já sido tapados com pele de urso curtida, atada com corda de esparto, e estavam já na Casa Comunitária, aguardando o cervo que havíamos de atingir com as flechas benzidas pelo bhelgh-men. Sobre os ombros, a capa de grama apanhada no pântano; na cabeça, o gorro feito de pele de urso castanho. Respirando fundo, conferi as armas: um machado de cobre, um arco de teixo e a inseparável faca de sílex. A despeito da arrefecida tempérie, a manhã anunciava-se límpida e radiosa, augurando boa sorte na caça. Antes de enfrentar o destino, olhei para ela, ainda adormecida, e saí…”

V.A.D. em Otztal

Imagem: Machado de Cobre (www.archaeometallurgie.de/bilder/bilderk/hauslabk.jpg)

música: Can't Take My Eyes Off Of You (Andy Williams)

publicado por V.A.D. às 02:05
link do post | comentar | ver comentários (10) | favorito
Sábado, 1 de Dezembro de 2007

Otztal (I)

“Os dias tornaram-se noutros dias, as noites aumentaram de tamanho e o tempo em que o fogo brilhava no céu encolheu como uma peça de vestuário, urdida de lanugem de merino, sujeita à água. O manto castanho e dourado de um Outono serôdio desvanecia-se, fumarento, sobre a Terra, dando lugar à friagem branca das geadas e às alvoradas cinzentas e opacas de neblina. Três grupos de dez marcas, feitas num osso de bisonte com a afiada faca de sílex, serviam-me para a contagem do tempo. Em breve, mais um sinal seria gravado, mais um solstício de Inverno em rápido achegamento, anunciando a austeridade das próximas luas, fazendo conjecturar a morte de alguns anciãos, incapazes de resistir às chuvas geladas, espirros da Deusa-Mãe, agastada, trazendo o infortúnio ao clã. A roda do ano não podia terminar sem que a essa divindade tríplice fossem feitas oferendas: leite para a virgem, carne de veado para a mãe, cereais para a anciã. O conselho tribal havia-se reunido, aos primeiros raios de luz, na clareira entre as habitações, redondas e feitas de argila e madeira, em frente à Casa Comunitária, e decidira a quem pertenceria a honra de acompanhar o sacerdote, na subida à grande montanha dos gelos eternos…”

V.A.D. em Otztal

Imagem: Alpes de Otztal (www.alovelyworld.com/webautri/gimage/autri54.jpg)

música: Salsbury Hill (Peter Gabriel)

publicado por V.A.D. às 02:06
link do post | comentar | ver comentários (10) | favorito

.quem eu sou...


. ver perfil

. seguir perfil

. 34 seguidores

.pesquisar

 

.Agosto 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30
31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Mahabharata महाभारत

. Curvatura

. O horizonte de eventos e ...

. Subjectividade

. O "capacete de deus"

. Apontamento (II)

. Apontamento

. Alter Orbe (II)

. Alter Orbe (I)

. Marte

.arquivos

. Agosto 2019

. Abril 2013

. Fevereiro 2013

. Fevereiro 2012

. Junho 2011

. Janeiro 2011

. Março 2010

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

.tags

. todas as tags

.links

.Blog Nomeado Para:

.contador

SAPO Blogs

.subscrever feeds