Quinta-feira, 20 de Setembro de 2007

Percurso

As montanhas escarpadas destacavam-se contra as abertas azuis de um céu carregado, agrestes, sem que contudo fossem muito altas, os arbustos rasteiros a pontilhar de verde-escuro o castanho acinzentado da rocha. Por vezes, subindo desde um profundo vale até quase ao topo, uma povoação empoleirava as suas casas serra acima, desenhando um quadro pitoresco mas belíssimo, qual criação de um artista sem vertigens. A auto-estrada por onde seguia rasgava em diversos pontos os cumes mais elevados e, ocasionalmente, um túnel furava o granito, o engenho do Homem a fazer frente à Natureza. Uma ou outra arruinada fortaleza de antanho destacava-se à beira de um precipício, contrastando com as planícies verdes e extensas que eram avistadas a espaços, quando a orografia proporcionava um olhar sobre o terreno mais abaixo. A alguns quilómetros para leste, as margens do Mediterrâneo corriam paralelas ao percurso, prenunciando praias de areia dourada e de águas tépidas. Os quilómetros eram devorados velozmente e em breve chegaria ao destino…

Imagem: Percurso

música: Edge Hill (Groove Armada)

publicado por V.A.D. às 02:20
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Quarta-feira, 19 de Setembro de 2007

Lembrar

“Deixei-me envolver pela sonolência, e estendi-me sobre o colchão que, embora duro e pouco confortável, era melhor que a nua e fria pedra do chão do velho edifício, abandonado havia muito, de traços indiscutivelmente alienígenas. É engraçado como as pedras continuam a ser frias e como o cansaço nos afecta de igual forma, qualquer que seja o planeta em que nos encontremos. Chegava até mim o som abafado da areia, transportada pela permanente brisa, a fustigar, a roçar, a carcomer as paredes, a deixar-lhes a marca dos incontáveis séculos que haviam suportado. A monótona e fresca penumbra não tardou a dar a sua contribuição para que o sono tomasse conta de mim. Dormi profundamente e nem um sonho me perturbou, até que a sede se fez anunciar, despertando-me indolentemente e forçando-me a retirar da mochila a garrafa do precioso líquido da vida. Encosto-me à parede e volto a fechar os olhos. O meu corpo está sentado, os braços enroscados nas pernas, a cabeça curvada encostada aos joelhos erguidos, a mente a viver e a reviver as memórias dispersas que lhe acorrem como pedaços de papel soltos ao vento…”

V.A.D. em Algures.

Imagem: Lembrando (Original em http://images.jupiterimages.com/common/detail/09/27/23052709.jpg)

música: Dune - Desert Theme (Toto)

publicado por V.A.D. às 01:58
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Terça-feira, 18 de Setembro de 2007

Noite

“Assim que saí do carro que acabara de arrumar na garagem, senti na face a pungente bofetada da diferença de temperatura. Era uma noite gélida, o orvalho depositava-se na relva e as estrelas viam-se com a limpidez de um céu de Inverno. No pequeno bosque ao lado de minha casa, as folhas sussurrantes dos velhos carvalhos pareciam embrenhadas numa conversa sem fim, desfazendo alegremente o silêncio, animadas pela brisa suave que soprava de norte. A lua acabada de nascer, alaranjada sobre o horizonte plano das lezírias e ampliada pela lente atmosférica, parecia agigantar-se no céu escuro, criando sombras fantasmagóricas e impregnadas de movimentos cadenciados. Inspirei profundamente aquele ar ainda puro, prenhe de cheiros silvestres misturados com os aromas das flores bem cuidadas que cresciam nos vasos do alpendre. Detive-me por uns instantes, permitindo que o frio da noite se me entranhasse na pele, antecipando o suave e envolvente calor da lareira, que sabia acesa. Subi os três degraus, tirei a chave do bolso e abri a porta de casa…”

V.A.D. em Algures.

Imagem: Lua (www.gracemonkey.com/thunder.jpg)

 

música: Lost Cause (Beck)

publicado por V.A.D. às 02:04
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Domingo, 16 de Setembro de 2007

Trovoada

“A tempestade eléctrica desabou sobre mim sob a forma de trovão, com o ensurdecedor ruído de mil altifalantes num berro uníssono. É certo que a luz intensa e pulsante do relâmpago havia precedido a explosão sónica, mas a minha mente não se havia preparado para tal violência. Era o fim de uma tarde infernalmente quente; tinha visto a formação de cumuloninbus e sentira naquele ar, amarelado e doentio, o cheiro característico da humidade. Pressentira a trovoada e agora ela ali estava, manifestando todo o poder de uma Natureza indómita e proporcionando um espectáculo magnífico. Os primeiros pingos, grossos e pesados, caíam no chão como pequenas bombas, levantando poeira de um solo ressequido pelos meses estivais, para se desfazerem de imediato em pequenas esferas de lama ocre. Depois, pouco depois, enquanto os céus cediam ao peso de tanta água, a atmosfera enchia-se do barulho grave da chuva torrencial. Permaneci ali, desabrigado e encharcado, apreciando a arrebatadora sensação de ser parte integrante de um Universo tão rude quanto maravilhoso…”

V.A.D. em Algures.

Imagem: Electrical Storm (http://rolandvb.topcities.com/Weather/Electrical_Storm.jpg)

música: Electrical Storm (U2)

publicado por V.A.D. às 03:40
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Sábado, 15 de Setembro de 2007

Pátio

Vi-me novamente no pátio da casa da minha avó, um simples rectângulo cimentado, ligeiramente inclinado, delimitado em dois lados pelas centenárias e espessas paredes de pedra rebocada, impecavelmente caiadas, a pureza do branco reflectindo a intensa luz do sol do meio-dia. Numa das extremidades, o portão de ferro, pintado de vermelho escuro, servira muitas vezes de baliza nos improvisados jogos de bola, mais suados que verdadeiramente disputados, ou ainda como meta inultrapassável nas curtas corridas de carrinhos de rolamentos. A grande porta de madeira da antiga adega, já sem tonéis, era frequentemente usada em ferozes competições de pontaria. Com giz surripiado da escola primária da aldeia – hoje transformada num centro de dia para idosos – desenhávamos um alvo e atirávamos setas, nunca sem que bafejássemos a sua ponta aguçada, como se isso tornasse o arremesso mais certeiro. Revivia mentalmente alguns dos muitos momentos felizes da minha infância, quando a inconfundível voz, daquela senhora vestida de rugas e de luto, se fez ouvir:

- Olá, netinho! Que alegria ver-te…!

(Dedicado à minha avó, que esta semana completou 83 anos de idade)

Imagem: Porta Antiga (http://photographybydon.com/blog/uploaded_images/DSCF4862-758841.JPG)

música: Sweet Home Chicago (Blues Brothers)

publicado por V.A.D. às 02:15
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Sexta-feira, 14 de Setembro de 2007

Enxurrada

Agarrei-me desesperadamente ao tronco flutuante de uma enorme árvore, uma ilha de madeira que talvez me permitisse, ainda que por alguns segundos, recobrar o fôlego. Estava esgotado, prestes a desistir; a força da enxurrada havia-me arrastado por centenas de metros, talvez quilómetros, fazendo-me debater incessantemente com a necessidade de me manter à tona. Nem as roupas pesadas nem os fortes redemoinhos daquela massa de água em fúria facilitavam essa tarefa vital, e há limites para a resistência. Respirei profunda e rapidamente, grato por sentir que o coração se acalmava e que o latejar do sangue nas têmporas deixava de se assemelhar a um martelo a bater-me furiosamente na carne. Senti uma forte pancada na zona das costelas; durante alguns instantes, uma sensação de enorme confusão apoderou-se da minha mente. Estava encharcado, mas não havia aquele frio que me enregelava os ossos, nem a permanente desorientação provocada por um voltear contínuo, por uma permanente movimentação sobre aquele louco carrossel feito de água… Outra pancada arrancou-me definitivamente àquele estado indefinido:

- Estás outra vez a ressonar…!

Virei-me para o outro lado e voltei a adormecer. Desta vez, o sono revelou-se sereno: o pesadelo não regressou.

Imagem: Enxurrada (http://users.tinyonline.co.uk/gswithenbank/flood.gif)

música: Asleep (The Smiths)

publicado por V.A.D. às 01:46
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Quinta-feira, 13 de Setembro de 2007

Castelo

Vencido pela canícula que se fazia sentir, sentei-me num dos lados do antigo banco de pedra, velho de séculos, desejando que o vento que se fazia sentir fosse mais fresco. O sol estava prestes a esconder-se atrás dos elevados picos montanhosos que se erguiam a alguns quilómetros para o interior, mas a temperatura mantinha-se acima dos quarenta graus centígrados. A sombra daquele majestoso edifício era uma dádiva impagável e a vista verdadeiramente fabulosa. O azul do Mediterrâneo entrava-me pelos sentidos adentro, enquanto as cigarras enchiam o ar com o som metálico e contínuo do bater das suas asas, na tentativa de suavizar o calor. O estreito caminho que havia percorrido era visível, durante umas centenas de metros escarpa abaixo, ondulando através da montanha como uma serpente, até terminar na povoação de casinhas brancas que, àquela distância, pareciam de brincar. A costa, recortada por enseadas pequenas mas lindíssimas, parecia um cenário feito propositadamente para um filme. Levei aos lábios a garrafa de água ainda fresca e saciei a sede em goles generosos. Já recomposto, levantei-me e recomecei a subir, palmilhando com algum esforço o trilho que me levaria às ruínas do castelo…

Imagem: Llançá (www.espacecasa.com/images/llanca/llanca-10.jpg)

música: Entre Mis Recuerdos (Luz Casal)

publicado por V.A.D. às 02:02
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Quarta-feira, 12 de Setembro de 2007

Instante

“O Agora é este instante, um bebé recém-nascido, um velho moribundo, a sede de todas as esperanças, um átomo de tempo sem preparação, um ramo da árvore da existência, um fotograma do filme em que somos os protagonistas, a palavra que neste indefinível momento é lida no Grande Livro. É a materialização de todos os passados, indestrutíveis e preciosos, contudo esfumados e difusos, assente sobre a inacabável sucessão de momentos. É a condensação de todas as alternativas possíveis num ponto temporal tão concreto como insubstancial, instantaneamente posto de parte, relegado para o amontoado de momentos pretéritos, para que um novo e mais actual ponto existencial se forme. O Agora é algo que se experimenta, é um toque, um cheiro, um som, um olhar, um sabor, um pensamento fugaz, um raciocínio ilusório, ou talvez um inane e onírico tempo, destituído de forma, envolto na bruma fantasmagórica de um sono sem sonhos. Pode ser um vislumbre daquilo que se é, uma memória daquilo que se foi, ou a invenção do que se poderá ser…”

V.A.D. em Algures.

Imagem: Instante (http://infinitezoom.com/gallery5/instant.jpg)

música: Encosta-te a Mim (Jorge Palma)

publicado por V.A.D. às 02:07
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Terça-feira, 11 de Setembro de 2007

Água

“A água fria tocou-me a pele e, instintivamente, inspirei profundamente, enquanto esfregava vigorosamente o tronco. Ao fim de alguns segundos, o meu corpo habituou-se à temperatura, e a respiração regressou à normalidade. De olhos fechados, comecei a saborear aquela sensação de frescura que se apossava de mim, revigorante e tão necessária. Durante vários dias havia vagueado por aquele estranho e seco deserto, uma planura imensa de pedras irregulares que tornavam a caminhada ainda mais penosa. Julgava-me irremediavelmente perdido naquela vastidão sem fim e, embora continuasse sem saber o que procurava, aquela queda de água, que trazia a fresquidão das elevadas altitudes da cadeia montanhosa que se erguia à minha frente, representava uma espécie de bálsamo que curava algumas feridas da mente. Recomposto, sentei-me sobre uma grande laje e deixei que os raios avermelhados do Sol Menor me afagassem, enquanto secavam a minha roupa puída. Em breve continuaria a minha busca, que desconfiava ser infindável…”

V.A.D. em Algures.

Imagem: Queda de Água (Original em www.dallasnews.com/s/dws/img/09-05/0914waterfall.jpg)

música: I'm Only Happy When It Rains (Garbage)

publicado por V.A.D. às 01:44
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Domingo, 9 de Setembro de 2007

Sem Ruído

Mergulhei nas distâncias de quilómetros infindos e nas cálidas águas, que não as do nosso Atlântico. Sorvi por todos os poros a luz quente de um sol mais a leste e degustei pratos novos, plenos de sabores diferentes. Senti na pele outras brisas e caminhei por trilhos diferentes. Embrenhei-me em leituras há muito prometidas e falei outras línguas. Deliciei-me com um tempo sem horas; apenas continuou activo o velho relógio biológico, qual maestro da orquestra de mim mesmo. Voei ao sabor dos pensamentos e contemplei obras magníficas. Maravilhei-me com outras músicas e silenciei ruídos; escutei-me. Escrevi para mim algumas das coisas que a minha mente construiu; partilhá-las-ei. Vi rostos novos e até encontrei velhos amigos. Reencontrei-me. Comprei recordações, mas nenhuma se iguala àquilo que trago na memória. Eis-me, depois de alguns dias de ausência… De volta à rotina, à permanente pressa de quem chega a nenhures, olhando para trás e ansiando pelo que há-de vir, correndo em busca nem sei de quê…

Imagem: Som do Silêncio (www.angelrat.altervista.org/images/Sound-of-silence.jpg)


publicado por V.A.D. às 23:32
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