Sexta-feira, 11 de Maio de 2007

Momento

Às vezes, antes de adormecer na escuridão e no silêncio do meu quarto, tenho por breves momentos uma preciosa ilusão do passado e acho-me capaz de vislumbrar o futuro. Nesse ápice sei, sem margem para dúvidas, qual é o verdadeiro cento da minha vida, e todos os segredos do Universo me parecem ser sussurrados. Nesses momentos afortunados são-me dadas coisas que não se podem conquistar nem manter e que, muitas vezes, nem reconheço na altura: a alegria de existir e uma grata sensação de paz. O silêncio e a escuridão fazem de mim a sede do tempo e do espaço e à minha volta desfilam todas as ideias ainda não pensadas e todas as emoções ainda não vividas. O riso e o choro, o cansaço e o repouso, a imponderabilidade e o peso…, todas as dualidades intrínsecas confundem-se e esvaziam-se de sentido. A mente desliga-se do corpo e une-se ao Universo. O sono toma conta do meu ser…

Imagem: Dormindo (www.objectsandpixels.com/img/blog/crayon_asleep.jpg)

música: Asleep From Days (Mazzy Star)

publicado por V.A.D. às 02:38
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Quinta-feira, 10 de Maio de 2007

Estrela de Neutrões

Quando uma estrela com uma massa cerca de oito vezes maior que a do Sol atinge o fim da sua vida, esgotando o combustível usado na reacção termonuclear de fusão, a transformação de matéria em energia cessa abruptamente. O astro deixa de poder manter o precário equilíbrio entre a força expansiva dos fotões e a acção gravidade. A estrela entra subitamente em colapso e, durante esse processo, a energia cinética de biliões de átomos é transformada em energia térmica, provocando uma imensa explosão. Durante algumas semanas, o brilho ofuscante de uma supernova pode ser tão intenso quanto o de mil milhões de estrelas. Neste estertor de morte, grande parte da massa original é expulsa para o espaço, originando uma nebulosa; a matéria remanescente aglomera-se num núcleo com uma massa equivalente a uma vez e meia a do nosso Sol, e que se contrai pela força gravítica, suficientemente forte para que o colapso não seja detido pela pressão de degenerescência dos electrões. Os átomos deixam de ter nuvens electrónicas; os electrões são empurrados para o núcleo e obrigados a interagir com os protões, formando neutrões. Só nesta situação se atinge um novo equilíbrio, pois dois neutrões não podem ocupar o mesmo espaço. A estrela tem agora cerca de duas dezenas de quilómetros de diâmetro e é tão densa que uma colher de chá desta matéria, tão estranha ao senso comum, pesaria na Terra 100 milhões de toneladas. Quando o conceito de estrela de neutrões foi proposto por Subramanyan Chandrasekhar na década de 1930, a maioria dos astrónomos ridicularizou a ideia. Mas, com o advento de telescópios que podem detectar ondas de rádio, raios-X e infravermelhos, os nossos olhos abriram-se para o Universo invisível.

Imagem: Explosão (www.oal.ul.pt/astronovas/estrelas/explosao.jpg)

música: Time Is Running Out (Muse)

publicado por V.A.D. às 03:04
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Quarta-feira, 9 de Maio de 2007

Rede

“A sociedade em si é uma rede, entrançada e profunda, semelhante ao emaranhado dos ramos de uma floresta, ou às intermináveis ondulações da água que flúi num regato. Somos os fios dessa interminável rede, ligados uns aos outros, entrançados numa malha de relações sociais expandidas em todas as direcções, partilhando ideias, estendendo o conhecimento, interagindo em benefício de todos e de cada um. Havendo igualdade de oportunidades, privilegia-se a diversidade; o valor de cada indivíduo deve ser reconhecido e incentivado. A incompetência é motivo de vergonha; quem a demonstra reconhece de imediato as suas falhas e tenta colmatá-las. Caminha-se para uma meritocracia sem os erros inerentes a um pesado sistema burocrático e centralizador, responsável, num passado não muito distante, pelo colapso económico e social, do qual resultou uma breve mas terrível idade das trevas.”

V.A.D. em Memórias do Futuro  

Imagem: Rede (http://mobblog.plannermob.com.br/wp-content/uploads/2006/08/rede.jpg)

música: Amanhã é Sempre Longe Demais (Rádio Macau)

publicado por V.A.D. às 02:48
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Terça-feira, 8 de Maio de 2007

Estrela-Hóspede

Há quase mil anos, durante a sua vigília na madrugada, uns poucos minutos antes do Sol nascer, o astrónomo imperial chinês Yang Wei-te viu algo surpreendente: um objecto celeste muito mais brilhante que Vénus ou qualquer outra estrela que ele jamais tivesse observado. Bastante familiarizado com as constelações, o astrónomo chinês imediatamente percebeu que naquela noite algo de extraordinário acontecera na Constelação do Touro. Ele registou cuidadosamente as suas observações e pensamentos: "Faço a minha reverência. Tive o privilégio de observar o fenómeno de uma estrela-hóspede. A sua cor é levemente iridescente.” Anotou também oficialmente a data do evento como sendo “o dia de Chih Chih na quinta lua do primeiro ano do período Shih-huo”. Para nós, esse foi o dia 4 de Julho de 1054. Hoje, sabemos que Yang testemunhou a criação de uma estrela de neutrões, uma das muitas estrelas desse tipo que estão agora a ajudar os cosmólogos a explicar um dos mais bizarros e espantosos objectos celestes. A estrela-hóspede era tão brilhante que pôde ser vista com facilidade em plena luz do dia durante o resto do mês de Julho. Após um ano, entretanto, “ela apagou-se e ficou invisível”. Se apontarmos um telescópio para o local do aparecimento desta luz brilhante no céu, encontraremos a magnífica nebulosa do Caranguejo, restos de uma supernova, uma estrela cuja vida terminou numa violenta explosão, seis milénios antes de Yang a ter visto: a sua luz esse tempo a chegar à Terra. No presente, a nebulosa do Caranguejo tem um diâmetro de 10 anos-luz; os gases expandiram-se consideravelmente durante os últimos nove séculos e meio.

Imagem: Nebulosa do Caranguejo (www.globalgeografia.com/satellite/m1.jpg)

música: New Star In The Sky (Air)

publicado por V.A.D. às 01:29
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Segunda-feira, 7 de Maio de 2007

Homeostase

A evolução sugere que o ser humano e outros animais são como que colónias de células altamente especializadas que vivem em cooperação mútua longe do seu habitat original: o oceano. A chave da nossa sobrevivência tem sido o desenvolvimento de sistemas internos de sustentação, independentes mas interligados, que garantem a manutenção de condições físicas e químicas bastante idênticas àquelas do mar primordial. Desta forma, o Homem é uma espécie de cápsula espacial que contém os elementos essenciais à vida, assim como as frágeis naves de metal em que ele se lança no espaço garantem as condições necessárias à continuidade existencial. A cápsula humana é capaz de mover-se, em poucos minutos, do ar para a água, do deserto escaldante para um duche frio, da fome e da sede à saciedade, de uma dieta de peixe e vinho a outra de leite e pudim. Através de todos estes choques e mudanças, o mundo dentro da nossa pele deve permanecer isolado, constante, raramente se afastando dos estreitos limites de tolerância impostos pela vida, no que se refere a temperatura, humidade e condições químicas. No final da década de 1920, o fisiologista americano Walter Bradford Cannon deu um nome oficial a esta estabilidade: homeostase, contracção de termos gregos, que significa permanecer igual. Em suma, é uma maravilha, a existência da vida. E a vida é, a um só tempo, rígida e flexível, delicada e robusta.

Imagem: Saco Amniótico (www.scb.org.br/pergresp/imagens/bebe.jpg)

música: At The River (Groove Armada)

publicado por V.A.D. às 00:44
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Domingo, 6 de Maio de 2007

Traiçoeiras

Nenhum ser humano é uma ilha completamente inacessível. De facto, as pessoas são menos felizes e saudáveis na solidão do que quando inseridas num grupo, seja este de cariz familiar,   formado por compatriotas ou, inclusivamente, constituído por indivíduos com os quais existe um qualquer grau de identificação, mesmo que efémero. Mas as tribos podem ser traiçoeiras; num momento tão sólidas e no seguinte tão evanescentes. Na Alemanha, a fidelidade ao Reich de Mil Anos caiu de um dia para o outro, bastando para isso o sabor amargo da derrota. Em Julho de 2005, bombistas suicidas fizeram-se explodir no metro londrino, causando a morte a dezenas de inocentes, em nome do radicalismo islâmico. O que mais horroriza é o facto de estes homens não serem intrusos estrangeiros, mas sim ingleses, nascidos e criados no país que acolheu os pais, e que lhes proporcionou uma vida com uma qualidade que nem sequer podia ser almejada na terra dos antepassados. Como disse um antigo demagogo, o nosso vizinho simpático pode tornar-se num inimigo mortal. Estes são meros exemplos do quão mutáveis são as novas tribos, entidades em constante transformação em relação umas às outras, exibindo fronteiras muito pouco claras e cuja definição é, também ela, muito subjectiva.

Imagem: Nazismo (www.anairhoads.org/graphics/nazi.jpg)

música: Islands (Cat Power)

publicado por V.A.D. às 03:10
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Sábado, 5 de Maio de 2007

Histórias Sobrenaturais

“De cada vez que a colher tornava a cair no cálice repleto de licor incendiado, os objectos desenhavam-se nas paredes com formas desconhecidas, com tonalidades inauditas, desde os velhos profetas de barba branca, até às caricaturas que povoam as paredes das oficinas, e que pareciam um exército de demónios como se vêem nos sonhos, ou como os agrupava Goya. Enfim, a calma brumosa e fresca do exterior contemplava o fantástico do interior. Acrescentai a isto que de cada vez que nos fitávamos, aparecíamos uns aos outros com rostos de um verde acinzentado, olhos fixos e brilhantes como carbúnculos, lábios pálidos e faces encovadas. (…) Toda a gente sofreu como nós a influência das salas vastas e tenebrosas, como as descreve Hoffman, como as pinta Rembrandt, toda a gente sentiu, pelo menos uma vez, estes temores sem causa, estas febres espontâneas ao avistar objectos a que o raio pálido da Lua ou a luz incerta de um candeeiro emprestam uma forma misteriosa; toda a gente se encontrou num quarto grande e sombrio, ao lado de um amigo, a escutar um conto inverosímil, sentindo aquele terror secreto que podemos fazer cessar num ápice acendendo um candeeiro ou conversando sobre outra coisa: o que fugimos de fazer, tanto o nosso pobre coração precisa de emoções, sejam elas verdadeiras ou falsas.”

Excerto de História de um Morto, Contada por Ele Próprio, inserida na colectânea Histórias Sobrenaturais, de Alexandre Dumas (pai). Nome importante da literatura de todos os tempos, foi autor de obras sobejamente conhecidas, como Os Três Mosqueteiros, ou O Conde de Monte Cristo. Após ter escrito os seus mais célebres dramas e romances históricos, inicia-se na literatura do fantástico e do sobrenatural, aí reflectindo sobre o bem e o mal, e interrogando-se sobre as forças obscuras que podem actuar e residir no ser humano.

música: Fade To Grey (Nouvelle Vague)

publicado por V.A.D. às 03:22
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Sexta-feira, 4 de Maio de 2007

O Cérebro Maternal - parte 2

Os melhoramentos cognitivos, induzidos pelas hormonas durante os períodos de gravidez e lactação, aparentam ser duradouros, persistindo até uma idade avançada. Embora os estudos deste fenómeno tenham sido centrados sobretudo em roedores, é verosímil que as mães humanas também beneficiem a longo prazo com a maternidade, dado que a maioria dos mamíferos apresentam comportamentos maternais muito semelhantes, provavelmente controlados pelas mesmas regiões cerebrais. Alguns pesquisadores sugerem que o desenvolvimento deste comportamento teve um papel fulcral na evolução cerebral. À medida que os mamíferos se distanciavam dos seus antepassados reptilianos, a estratégia reprodutiva alterou-se significativamente; deixou de ser pôr os ovos e seguir, e tornou-se parir e defender o ninho. As vantagens selectivas desta nova abordagem podem ter favorecido a emergência das mudanças comportamentais induzidas pela acção das hormonas.

Conhecemos e veneramos a nossa mãe. A mão que embala o berço realmente domina o mundo.

Imagem: Mãe e Filho (http://i1.trekearth.com/photos/22036/madre_e_hijo_escultura.jpg)

Fonte: Sci-Am

música: Grace (Jeff Buckley)

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Quinta-feira, 3 de Maio de 2007

Fúria

Toda a fúria é insana e não há fúria limpa; é uma coisa suja, nascida nas partes mais profundas e arcaicas do nosso ser, feita de rugidos surdos a raspar a garganta, e de raciocínios toldados pela incoerência das emoções reptilianas, vindas de uma época em que os corpos chafurdavam na lama imunda dos pântanos devonianos. A fúria rasga a mente com a explosão cegante da adrenalina, e a invencibilidade, ilusória, encontra apoio na pontual resistência à dor e na insensatamente descomunal força física. Os impulsos mais básicos assumem o controle; a autoconsciência desvanece-se e importa somente a destruição do objecto que acendeu o rastilho deste estado de loucura violenta, desta doença repentina, que consome e atormenta. Pode ser que assim o mundo, subitamente incompreensível e injusto, se desfaça numa miríade de pedaços...!

Mas, no centro do mecanismo humano, vive também a racionalidade. Há que respirar pausadamente. Há que pensar, há que serenar…

Imagem: Fúria (www.phirebrush.com/issues/38/artwork/mysnapz%20-%20rage.jpg)

música: Creep (Radiohead)

publicado por V.A.D. às 02:30
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Quarta-feira, 2 de Maio de 2007

O Cérebro Maternal - parte 1

As mães não nascem mães, fazem-se mães. Nos mamíferos, desde os ratos aos humanos, todas as fêmeas passam por um profundo processo de alteração comportamental durante a gravidez e a maternidade. Dantes devotadas às suas necessidades e conveniências, as mães tornam-se criaturas muito mais focadas nos cuidados e no bem-estar da sua descendência. Embora os cientistas se tenham apercebido há muito desta transição, só agora começam a compreender o que a causa. Novas pesquisas indicam que as dramáticas flutuações hormonais que ocorrem durante a gravidez, o parto e a lactação podem remodelar o cérebro feminino, aumentando o tamanho dos neurónios em algumas áreas e produzindo alterações estruturais noutras. Algumas das zonas onde estas modificações se dão estão relacionadas com a regulação dos comportamentos maternais, o que é perfeitamente lógico. Contudo, áreas relacionadas com a memória, com a aprendizagem e com as respostas ao medo e à tensão, são igualmente afectadas positivamente. Experiências recentes com roedores mostraram que fêmeas que já deram à luz superam fêmeas virgens em desafios como a navegação em labirintos ou a captura de presas. O incremento qualitativo de certas capacidades aumenta as hipóteses de sobrevivência da prole.

Imagem: Progesterona (www.3dchem.com/imagesofmolecules/Progesterone.jpg)

Fonte: Sci-Am

música: Fragile (Sting)

publicado por V.A.D. às 00:02
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