Sábado, 10 de Março de 2007

Linguagem - parte 1

De que forma teria a linguagem surgido? Imaginem um líder de um grupo de hominídeos numa reunião tribal a dizer: "Olhem todos; isto é uma banana. Agora repitam comigo: ba-na-na." É claro que esta hipótese é ridícula, mas pelo menos espero que tenha tido o mérito de vos fazer sorrir. Sem Dúvida, os nossos ancestrais apresentavam um conjunto de capacidades que preparou o terreno para a comunicação verbal sistemática. A facilidade de construir metáforas, pela percepção de ligações profundas entre coisas dissimilares e aparentemente não relacionadas deve ter contribuido de forma preponderante para a emergência da linguagem. Os humanos têm também uma propensão inata para associar certos sons a formas visuais específicas, importante factor para a criação de um vocabulário. Além disso, áreas específicas do cérebro, que processam as formas visuais dos objectos, letras, números e sons de palavras podem ser activadas entre si, levando as pessoas a achar, por exemplo, que formas pontiagudas pussuam nomes com rispidez sonora, da mesma forma que os sons produzidos por uma inflexão gradual dos lábios sugerem imagens com feitios arredondados.

Imagem: Quando questionados sobre qual das duas figuras é uma bouba e qual é uma kiki, 98% dos entrevistados escolhem o borrão como sendo a bouba e a outra como sendo a kiki.

Fonte: Sci-Am

música: Whenever I Say Your Name (Mary J. Blige ft Sting)

publicado por V.A.D. às 02:25
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Sexta-feira, 9 de Março de 2007

Híbridos?

Descobertas em 1952 na Roménia, e reexaminadas recentemente, ossadas de Homo Sapiens arcaicos, com cerca de 30000 anos, apresentam fortes semelhanças com os esqueletos de Homo Neanderthalensis, especialmente no que diz respeito ao crânio. A testa inclinada, a protuberância occipital e uma grande distância inter-orbital, são características marcantes da fisionomia dos nossos parentes extintos há cerca de 27000 anos. Segundo o paleontólogo norte-americano Erik Trinkaus, estas constatações reforçam a ideia de que houve um longo processo de contacto e miscigenação entre as duas espécies, durante os dez milénios de coabitação na Europa. Em Janeiro de 2003, Trinkaus, em parceria com João Zilhão, havia publicado em Lisboa uma monografia sobre o Menino do Lapedo, uma criança identificada como portadora de características típicas quer de homem moderno, quer  de neanderthal, e cujos restos mortais foram descobertos em 1998 no vale do Lapedo, perto de Leiria. Neste trabalho de 610 páginas, chamado Retrato do artista enquanto criança, é reafirmada uma posição polémica quem tem posto em polvorosa o mundo da antropologia, desde que foi exposta pela primeira vez em 1999. Para os autores, não há lugar a discussões: ao deixar África e colonizar a Europa, a humanidade moderna não exterminou os antigos habitantes do continente, mas, em maior ou menor grau, misturou os seus genes com os deles. E o esqueleto do menino pode ser a prova cabal disso mesmo.

Imagem: Neanderthal (www.frazettaartgallery.com/gallery/prints/8_neanderthal.jpeg)

Fontes: Science & Vie, Sci-Am

música: Somewhere I Belong (Linkin Park)

publicado por V.A.D. às 02:19
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Quarta-feira, 7 de Março de 2007

Respiração

Ofegamos de cansaço, suspiramos de alívio, suspendemos a respiração quando antecipamos algo. Sentimos falta de ar quando excitados ou inspirados por alguma idéia. Em cada caso, a forma como respiramos está directamente ligada àquilo que sentimos, física e emocionalmente. Há muito que estamos conscientes dessa ligação, como mostra a nossa linguagem, e, no entanto, ignoramo-la quase totalmente. Por alguma razão, sempre se considerou a respiração como já explicada pela ciência ocidental. Respire e viverá, pare de respirar e morrerá. Parece assim tão simples, mas será mesmo? As pesquisas demonstram que a respiração é, na verdade, uma actividade muito complexa, capaz de ter um efeito directo sobre muitas funções corporais. O padrão da nossa respiração - se respiramos rápida ou lentamente, profunda ou superficialmente - pode determinar a nossa susceptibilidade a certas doenças, a resistência do nosso organismo, e até a profundidade das nossas depressões. A respiração pode ser o elo perdido entre as funções voluntárias e involuntárias comandadas pelo nosso cérebro. Embora regulada pelo sistema nervoso, do mesmo modo que o ritmo cardíaco, o fluxo sanguíneo e outras funções autónomas, a respiração é a única que pode ser conscientemente alterada. E, ao aprender a controlar a respiração, podemos ser capazes de controlar outras funções importantes do nosso metabolismo: secreções, ondas cerebrais e até a resistência à dor.

Imagem: Respiração (http://artist.guire-vaka.com/pastels/respiration.jpg)

música: Breathe (Midge Ure)

publicado por V.A.D. às 02:11
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Terça-feira, 6 de Março de 2007

Os Paraísos Artificiais

"A cidade, esfumada pela bruma e pelas frouxas claridades da noite, representava a Terra, com os seus desgostos e os seus túmulos, situados lá para trás, mas não totalmente esquecidos, nem fora do alcance da minha vista. O Oceano, com a sua respiração eterna, mas alimentada por uma vasta calma, personificava o meu espírito e a influência que governava então. Parecia-me que pela primeira vez me mantinha à distância e fora do tumulto da vida, que o ruído, a febre e a luta estavam suspensos; que uma pausa fora concedida às secretas opressões do meu coração, um repouso feriado, uma libertação de todo o trabalho humano. A esperança que floresce nos caminhos da vida não contradizia já a paz que habita nos túmulos; as evoluções da minha inteligência pareciam-me tão infatigáveis como os céus, e contudo todas as inquietações estavam aplanadas por uma calma alciónica. Era uma tranquilidade que parecia o resultado, não da inércia, mas do antagonismo magestoso de forças iguais e poderosas: actividades infinitas, infinito repouso!"

Excerto de Os Paraísos Artificiais de Charles Baudelaire, poeta e crítico francês, por muitos considerado o precursor da poesia moderna, por ter concedido a toda a realidade o direito de ser submetida ao tratamento poético. Publicada em 1860, esta obra é uma viagem, também auto-biográfica, ao mundo do ópio e do haxixe, drogas  que tantas vezes lhe serviram para estimular a inspiração, mas onde o autor reconhece o perigo de tais hábitos.

Imagem: Cidade-Nevoeiro-Noite (www.charlescampbellgallery.com/gmo/images/full-City-Fog-Night-1A.jpg)

música: I Drove All Night (Roy Orbison)

publicado por V.A.D. às 01:39
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Segunda-feira, 5 de Março de 2007

Alzheimer

A mais comum de todas as demências é, sem dúvida, a doença de Alzheimer, cuja causa é incerta, havendo no entando alguns estudos a decorrer que apontam possíveis origens. As possibilidades passam por um vírus que actua muito lentamente na destruição dos neurónios, por substâncias tóxicas do meio ambiente, como o alumínio, por algum factor hereditário ainda por descobrir, ou ainda por uma anomalia no funcionamento do núcleo basal de Meynert, responsável pela produção de um neurotransmissor chamado acetilcolina. Um ponto importante a ter presente é que as alterações comportamentais dos doentes se devem a modificações orgânicas do cérebro e não a problemas do foro psicológico. Os sintomas da doença são, na verdade, terríveis; entre eles figuram a perda progressiva da memória, as alterações de humor, a perda da capacidade para aprender, para prestar atenção ao que se passa e para emitir juizos. Nos estágios mais avançados, os pacientes perdem totalmente a noção de lugar e de tempo, e deixam de ter consciência de si próprios. Esta doença degenerativa cerebral surge geralmente depois dos 45 anos de idade e é progressiva e incurável. Conduz à incapacidade total e eventualmente à morte.

Hoje é um dia triste para mim. Um familiar meu sucumbiu, após 12 anos de luta contra esta doença.

Imagem: Demência 5

música: Hurt (Johnny Cash)

publicado por V.A.D. às 01:57
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Domingo, 4 de Março de 2007

Cognição

Sem passado não se antecipa o futuro. Não há futuro sem memória. A actividade cerebral que decorre quando especulamos sobre o futuro é muito similar àquela que decorre quando recordamos eventos passados. Para que possamos imaginar aquilo que irá acontecer, necessitamos de um contexto por nós conhecido. Tomemos como exemplo o nosso próximo aniversário. Só conseguimos ter uma ideia de como vai ser porque recordamos o evento do ano anterior. Assim, o cortex frontal, centro da antecipação, associa-se ao hipocampo, centro da memória, para conjecturar os acontecimentos que hão-de vir. Isto explica o motivo pelo qual as crianças com menos de 5 anos e as pessoas que sofrem de amnésia revelam tantas dificuldades nesta matéria. Os ontens ajudam a construir os nossos amanhãs...

"Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana"

Marguerite Yourcenar

Imagem: Mente (www.mirpod.com/IMG/arton2039.jpg)

Fonte: Science & Vie


publicado por V.A.D. às 03:22
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Sexta-feira, 2 de Março de 2007

O Outro Lado do Tempo

"O duende das traves observava o monge que se escondia e que espiava o estudioso. O duende odiava o monge e tinha razões para o odiar. O monge não odiava ninguém e não gostava de ninguém; era um homem pleno de preconceitos e ambições. (...) A hora era tardia e na biblioteca fizera-se silêncio. Em qualquer parte, um rato mordiscava furtivamente. A vela, pousada na secretária sobre a qual o estudioso dobrava as costas, pingava e ardia já no fim. O estudioso pegou no manuscrito e meteu-o dentro da camisa. Fechou o livro e colocou-o de novo na estante. Apagou a vela com os dedos. Um luar pálido, que passava através das altas janelas e quase alcançava as traves, iluminava o interior da biblioteca com uma radiação fantasmagórica."

Excerto de O Outro Lado do Tempo, de Clifford D. Simack, um dos autores de ficção científica mais traduzidos na nossa língua. As suas obras caracterizam-se por uma visão muito peculiar da sociedade, voltada menos para a ciência do que para o homem e para todas as criaturas. Por vezes parece enveredar pela fantasia, mas apenas para explorar melhor, de uma maneira profundamente filosófica, uma das teses clássicas da ficção científica: o mundo impossível tornado possível. É o que acontece nesta obra, com a criação de um mundo que todos dirão imaginário mas que bem podia ser paralelo ao nosso.

Imagem: Mosteiro de Sant Pere de Rhodes, Catalunha

música: The World Is Not Enough (Garbage)

publicado por V.A.D. às 02:05
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Quinta-feira, 1 de Março de 2007

Buracos Negros - parte 1

"E aqui, um homem tem poder para dizer: Eis-me...! As mandíbulas da escuridão devoram-no."

William Shakespeare, em Sonho de Uma Noite de Verão

Quando Wheeler forjou o nome "buraco negro" em 1967, não havia nenhuma evidência da astronomia observacional que levasse alguém a acreditar na existência desse fenómeno. De facto, antes de 1964, ainda não tinha havido uma sugestão séria acerca de que evidência procurar. Ocasionalmente em ciência, surge uma teoria que somos levados a considerar como correcta porque tem elegância e um elevado sentido matemático, mesmo que aindam não existam bases experimentais que a comprovem. No caso dos buracos negros, quanto mais os físicos e os matemáticos brincavam com a ideia, tanto mais bela e lógica ela parecia. Quanto mais a combatiam, mais inevitável ela se tornava. É certo que ninguém podia provar que não era verdadeira, mas ainda não passava de uma teoria. Em meados da década de 1960, as soluções que os físicos descobriram para as equações de Einstein tornaram difícil não admitir a existência de buracos negros, mas não deixava de ser intrigante especular sobre o que poderia acontecer a uma estrela demasiado maciça para se transformar numa anã branca ou numa estrela de neutrões...

Imagem: Buraco Negro e Ondas Gravitacionais (http://www.physorg.com/newman/gfx/news/spacetime.jpg

música: The Blinding Sun (Gustavo Santaolalla)

publicado por V.A.D. às 01:43
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