Quarta-feira, 9 de Abril de 2008

Perceber

“Não quero ter pressa. Quero ser capaz de passar pelo tempo como se ele fosse minha propriedade, o andar decidido e a cabeça erguida assinalando aquilo que sou. Quero parar pelo caminho num reacender de memórias, a renovação de quem sou sendo feita pela condensação num momento inacabável daquilo que é intemporal. Quero olhar o futuro em todas as direcções, escolhendo, mesmo que o erro seja manifesto, um passo atrás não representando mais do que a consciência de que o desacerto é parte do inacabável processo de aperfeiçoamento. Quero saber da alegria de reencontrar velhos amigos, perdendo-me em conversas sem prazo delimitado, comprazendo-me com as vivências, assimilando as experiências, aprendendo que pouco sei. Quero admirar a subtileza de pequenos gestos, a gratidão interpretando a reciprocidade e não simulando o pagamento daquilo a que se não deve atribuir um preço. Quero partilhar-me, as minhas faces desiguais sendo mostradas sem dissimulações ambíguas e artificiais. Quero aperceber-me das peculiaridades de mim mesmo para almejar o entendimento dos outros. Preciso, para tudo isso, de me alienar do constante tiquetaque que me enche, ouvidos e mente, de uma ânsia abstrusa de chegar a lado nenhum…!“

V.A.D.                                 

Imagem: Espelho (http://img.photobucket.com/albums/v160/darkloud/MirrorHand2.jpg)


publicado por V.A.D. às 02:00
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10 comentários:
De **** a 10 de Abril de 2008 às 03:01
“Não quero ter pressa. Quero ser capaz de passar pelo tempo como se ele fosse minha propriedade...” – Também quero não ter pressa, mas tenho muita. Não tenho o tempo como pertence, mas tenho direito a, como todos, à ilusão da imortalidade.
Está um texto decidido, cheio de desejos, quereres e exigências... A repetição dá um efeito fantástico, parece que as palavras do texto saltam, atropelando-se na leitura. Quase que imagino um orador a lê-lo, numa crescente excitação e sentimento num texto que começa por apelar à calma.
“Quero saber da alegria de reencontrar velhos amigos, perdendo-me em conversas sem prazo delimitado, comprazendo-me com as vivências, assimilando as experiências, aprendendo que pouco sei.” – Perdemos tanto quando, no dia a dia, abdicamos disso... Quando as conversas acabam e paramos um pouco é que tomamos consciência.

“Preciso, para tudo isso, de me alienar do constante tiquetaque...” – É pena, mas “tempus fugit” e mesmo que me tenha, num lapso desculpável mas nada comum, esquecido de dar corda ao relógio e a sua companhia compassada não se faça sentir a meu lado, não pára por o ignorarmos.
Estou sempre a correr, mesmo que só em pensamentos, numa ânsia mais que abstrusa... porque corro? Não sei... Para onde quero ir? “... a lado nenhum” e a todo lado ao mesmo tempo.

muito Beijos
E uma noite calma
Hoje já não vou dar corda ao relógio...

Sophia

PS - "Quero partilhar-me..." - pelo menos acho que com o texto um dos quereres já está semi-preenchido... e optimamente preenchido!


De V.A.D. a 11 de Abril de 2008 às 02:02
"Tanto a fazer e tão pouco tempo...!" É assim que vejo a vida, curta mas potencialmente rica, a imensidão do que há a saber e a fazer esmagando-me às vezes, outras deixando-me ainda mais sedento de tudo... Conheço o tempo, sei que ele tem tanto de imparável quanto de indomável, sei que devemos aproveitá-lo da melhor forma que soubermos ou conseguirmos, mas sei que em certos momentos é fantástico sermos capazes de desistir de ter pressa, ainda que temporariamente... :-) Para certas coisas, devemos tomar o tempo necessário, mesmo que pareça excessivo; saberemos recuperá-lo, se não foi efectivamente perdido... :-)

Subscrevo inteiramente aquilo que tão bem sintetizaste na frase "mas tenho direito, como todos, à ilusão da imortalidade." Ao nos infundir a ideia de que o tempo não se vai esgotar de imediato, dá-nos a possibilidade de apreciar as coisas sem que tenhamos de passar por elas sem sequer as notar... :-)

Perdemos muito, quando a correria do dia-a-dia nos subtrai a hipótese de apreciar o que os outros têm para dizer. É por isso que organizo um almoço quinzenal com os amigos que me são realmente próximos. Posso dizer-te que, mesmo dando algum trabalho, o simples facto de poder passar umas horas com eles é algo que não tem preço!

Claro que o tiquetaque é uma metáfora... :-) (Sei muito bem que assim o entendeste...! eheheheh)
è preciso prescindirmos, uma vez por outra, do relógio que nos controla. Haveremos de chegar a algum lugar, mesmo que não seja àquele que almejamos. Haveremos de sentir sempre essa ânsia de que falas... Mas podemos aprender a controlá-la, para que ela não nos (des)controle... :-)

Obrigado, amiga, pelas tuas palavras, sempre gentis e cheias de entendimento.

Desejo-te uma magnífica noite!

Um beijo e um enormeeeeeeeee sorriso... :-)


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