Sexta-feira, 4 de Abril de 2008

Antiquitera (Epílogo)

“Brinco com o anel rodando-o no anelar e adivinhando as inscrições que o breu não me deixa vislumbrar. O alinhamento dos planetas havia-me levado a Ta-netjeru, a “Terra dos Deuses”, fazendo-me embrenhar, a austral, nas águas do Nilo, quase até chegar a margens núbias. Num acto de requintada ironia, os astros haviam eleito uma noite em que a abóbada celeste se velara com um manto de densa bruma, passando num passo cuidadoso pelo Nectanebo, a sul do Templo de Ísis, e pelos dois enormes pórticos em “V” na semi-obscuridade. A primeira das seis cascatas lembrava a sua proximidade, com um ruído constante que criava a sensação de, mesmo aqui na ilha de Filae, as minúsculas gotinhas de humidade se fazerem sentir na pele, gelando-me. Dois pesados archotes assinalavam o primeiro pilone, iluminando em conjunto o imenso espelho de água que acrescentava no seu reflexo um pouco de magia à desértica fachada do templo.

Abeirei-me da sua superfície, mirando-me. Uma vida havia passado – havíamos percorrido o mundo, mostrando nos mais restritos círculos o engenho que havia ficado sem outro nome senão esse, envolvendo-nos em demandas científicas, conhecendo gentes em cada porto; tínhamos sofrido um pouco, sorrido um tanto e, sobretudo, havíamo-nos amado demais; fôramos companheiros, cúmplices e amantes até à sua morte – mas a minha face mal tinha sido tocada pelo tempo. Aparentemente partia como tinha conhecido Hiparco naquela noite em Alexandria, levando o mesmo anel no dedo, o astrolábio, aperfeiçoado, dentro da bolsa e o cabelo claro preso num gancho de âmbar e prata. Não havia sequer trazido o mecanismo, tinha-o doado aos sábios de Rhodes. Contudo, levava no olhar um novo sentimento que não deixaria jamais. Um familiar clarão iluminou a noite. Encaminhei-me vagarosamente para lá.

Teria saudades.”

Sophia

 

Pouco antes da Páscoa do ano de 1900, uma tempestade desviou de sua rota um barco grego de pescadores de esponjas, fazendo-o chegar à pequena ilha de Antiquitera, a meio caminho entre o Peloponeso e Creta. Quando mergulharam a sessenta e um metros de profundidade, encontraram os restos de um navio romano que havia naufragado por volta do ano 65 aC. Durante ano e meio, pioneiros da arqueologia submarina recuperaram esculturas de bronze e mármore, ânforas e uma miríade de pequenos objectos. Enquanto examinava os despojos em 1902, Valerios Stais, director do Museu Arqueológico de Atenas, descobriu a máquina, em elevado estado de degradação. O aparelho, sofisticadíssimo para a época em que foi construído, constitui uma das maiores maravilhas tecnológicas de toda a história da humanidade.

V.A.D.

 

V.A.D. e Sophia em Antiquitera

Imagem: Mecanismo (IV) (http://www.newyorker.com/images/2007/05/14/p465/070514_antikythera01_p465.jpg )

 

“Who dares to love forever?
When love must die

But touch my tears with your lips
Touch my world with your fingertips (…)

And we can love forever
Forever is our today (…)

 

Who waits forever anyway?”

 

Obrigado, Sophia!

música: Who Wants To Live Forever (Queen)

publicado por V.A.D. às 15:00
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14 comentários:
De Café com Natas a 8 de Abril de 2008 às 08:56
Olá V.A.D.,
não tenho comentado muito ultimamente, mas gostava de dizer-vos que segui o vosso "projecto" com atenção, um bocadinho aqui, um bocadinho no trabalho, sempre que tinha um tempo mais "morto". E sabes, dei bom uso a esse tempo. Gostei imenso de vos ler.
Por vezes, assim quase do nada surgem coisas que nos fazem bem ao ânimo, ao pensamento, à imaginação. Foi este o caso.
Vocês estão de parabéns! Ficou muito bom mesmo.
Beijinhos aos dois


De V.A.D. a 9 de Abril de 2008 às 01:55
Olá, amiga. Sei que nem sempre há disposição ou tempo para se fazer tudo aquilo que se gostaria. Fico, obviamente, contentíssimo por perceber que este projecto, que me deu tanto prazer, pôde ser considerado digno de apreço.
Não me canso de elogiar o empenho da Sophia, cuja escrita é poderosa e envolvente, nesta parceria tão agradável. Por isso, em meu nome e no dela, agradeço profundamente as tuas palavras e a amabilidade que sempre tens demonstrado, seja através de comentários, seja pelas tuas passagens, mesmo que silenciosas, por este espaço.

Um grande beijo e um enormeeeeeeeee sorriso... :-)


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