Sábado, 22 de Março de 2008

Antiquitera (VI)

“Entre um anel marejado de inscrições, apertava, sob a mesa de pedra, o lenço perfumado com flor-de-lis, numa raiva mal contida por ter mostrado fragilidade, por ter violado a distância que deveria ter mantido com aquele homem de braços atordoantemente quentes. Fingindo uma insólita concentração na tâmara que levava à boca, observava-o. Vendo-o a olhar fixamente as linhas de carvão tentava não abrir uma janela para a sua alma, mas para a imagem que ele construía, engrenagem a engrenagem, na sua mente. Vendo-o a morder o lábio inferior rubro era fácil imaginar as mais de três dezenas de roldanas a girarem umas sobre as outras com um tinido metálico que ecoava pelo seu entendimento, os milhares de dentes a encaixarem numa perfeição talhada num imaterial bronze, o trabalhado desenho dos ponteiros a moverem-se no quarteto de mostradores a cadências matematicamente precisas. Vendo-o a criar uma expressiva ruga na testa adivinhava que tentava deslindar a função do engenho esboçado pelo meu pulso que havia intencionalmente omitido medições, legendas e pormenores. Transferi a minha atenção para a abobada celeste cujo brilho das estrelas não era nem perturbado pela ira do nórdico Thor, nem sequer ofuscado pelo usual astro nocturno do egípcio Thot que hoje mostrava o seu lado negro. Porquanto, o firmamento era o cúmplice que ali partilhava os segredos do maravilhoso mecanismo.

Hiparco continuava a passar os dedos pelas fibras do papel, deixando as pontas seguir os sulcos das delicadas curvas que eu havia traçado com o movimento demasiadamente carregado. Ela fazia-o com a lentidão de dama que borda um véu de linho, com a perícia de escultor que examina um alto-relevo dum túmulo de faraó, com o afecto de homem que afaga as harmoniosas curvas duma mulher. O pensamento das suas mãos numa carícia pela minha pele nua causou-me um arrepio por todo o corpo, reprimi-o e agarrei ainda com mais força o lenço por baixo da mesa. Só então, ainda sentido a textura suavemente adocicada da tâmara nos lábios húmidos, fiz a pergunta que me havia levado àquela quente noite egípcia...”

Sophia

V.A.D. e Sophia em Antiquitera

Imagem: Mecanismo (II) (www.bilbaoblogs.com/res/escepticos/Antiquitera.jpg)

 

“And the night came on
It was very calm
I wanted the night to go on and on

We were (…) in Egypt”

 

Fim da Primeira Parte

(Por ausência de um dos intervenientes na parceria, o conto será retomado assim que possível)

música: Night Come On (Leonard Cohen)

publicado por V.A.D. às 15:00
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12 comentários:
De Emanuela a 23 de Março de 2008 às 01:57
Mas Vad, a última escrita foi da Sophia... tu podias pelo menos publicar mais um capítulo escrito por ti e depois parar para esperar a volta dela...Putz. Magoamos...
Beijinhos


De V.A.D. a 23 de Março de 2008 às 02:15
Amiga, eu compreendo a tua sugestão. Embora não planeada, esta paragem é inevitável. Verás que faz todo o sentido, termos terminado a primeira parte com este capítulo, pois a segunda parte desenvolver-se-á num tempo e num lugar diferentes, embora os protagonistas sejam os mesmos.

Vou aproveitar este interregno para publicar mais uns excertos da "Clepsidra", que embora não seja propriamente um conto, tem também uma forte componente histórica, o antigo Egipto sendo o cenário... :-)

Desejo-te uma óptima noite e um domingo de Páscoa cheio de saúde e alegria!

Um beijo e um enormeeeeeeee sorriso... :-)


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