Segunda-feira, 5 de Maio de 2008

Estranha Estrela

“Incapaz de notar a indolência que se voltara a induzir, adormentei, flutuando na doçura serena da semi-obscuridade prenha de pensamentos gastos e renovados, tão absurdos e tão inconsequentes como os sonhos que iam nascendo, esmaecidos pela luz suave que penetrava pela janela, o estore ligeiramente subido negando as trevas e contrariando a espessura do sono vagaroso que insistia em apossar-se de mim…

O mundo orbitava em torno de uma estrela amarela do tipo G, a poucos anos-luz da periferia da Via Láctea, os crepúsculos tingidos a cores quentes gerando uma beleza indizível, a noite afigurando-se rara de estrelas, o profundo negrume do céu manchado apenas pela nitescência das nuvens de Magalhães e do distante braço da espiral, curvado como uma cimitarra sobre o núcleo galáctico. Apesar da nudez e do vento que sabia frio, sentia-me singularmente aconchegado, a noção de que havia retornado a casa insinuando-se-me intensa e segura como uma verdade intuída, da minha boca saindo frases que sabia conhecer mas de que não recordava o significado…

Despertei abruptamente, o sussurro suplicante da voz dela no meu ouvido implorando que acordasse, que a estava a amedrontar com as palavras pronunciadas numa língua desconhecida, que devia estar a ter um pesadelo estranho, pois sorria enquanto tremores espasmódicos me atravessavam o corpo num desconforme símile de êxtase, que os olhos abertos e fixos no nenhures a faziam julgar-me em algum delírio patológico. Virei-me para ela e beijei-a. Assegurei-lhe que tinha sido só um sonho sem nexo. Mas, teria sido apenas isso…?”

V.A.D. em Estranha Estrela

Imagem: Nuvens de Magalhães (www.astrosurf.com/antilhue/LMC55mmLRGB.jpg)


publicado por V.A.D. às 03:00
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Domingo, 27 de Abril de 2008

Sonhos

                  

"Considerei fechar definitivamente o baú dos sonhos, mas quedei-me, hesitante... Faria assim algum sentido, a vida...?"

V.A.D. em Sonhos

 

“Do Androids Dream of Electric Sheep?”

Philip K. Dick

 

Vídeo: Love Theme – Blade Runner   (www.youtube.com/watch?v=C9KAqhbIZ7o)


publicado por V.A.D. às 15:00
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Segunda-feira, 7 de Abril de 2008

Encosta-te a mim...!

                   

“O vento assobiava, incansável, o beirado com as suas saliências e reentrâncias fazendo vibrar o ar em movimento, os pequenos e invisíveis vórtices produzindo aquele som agoirento que antecipava a noite tempestuosa. A casa estava confortavelmente aquecida; a lenha, crepitando na lareira, ia-se desfazendo na quentura que enchia de placidez o ambiente, numa contradição artificiosa da natureza climática e do frio que instalara no seu âmago, o abismo negro da solidão envolvendo-o como se não mais pudesse regressar à companhia dela. Pousou o livro que não conseguia ler, as letras iludindo-o no tremeluzir das lágrimas que lhe inundavam os olhos, acendeu mais um cigarro e fixou-se no vazio que se lhe entranhava por todos os poros, num vão tentame de o desmentir.

Despertou subitamente, a frescura da água salgada caindo em pingos grossos sobre o corpo, o riso malicioso e brincalhão entrando-lhe pelos ouvidos adentro, as pálpebras semicerradas filtrando a intensidade do sol e ainda assim autorizando que o rosto dela se formasse na retina, a imagem dos cabelos húmidos e dos olhos sorridentes devolvendo-o à maravilha daquele dia de praia.

– Estavas a dormir?

Apercebendo-se do calor que sentia e do logro em que a sua mente o havia induzido, respondeu-lhe, antecipando o toque macio e refrescante da pele molhada de encontro à sua.

– Estava a ter um pesadelo. Deita-te, encosta-te a mim…!”

V.A.D. em Encosta-te a mim…!

Vídeo: Encosta-te a mim (Jorge Palma) (www.youtube.com/watch?v=Tu9HPz__3ys)


publicado por V.A.D. às 02:30
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Sábado, 26 de Janeiro de 2008

Pirexia

"Em sonos inquietos, na escuridão nocturna do quarto, falou em voz alta por diversas vezes, o delírio febril manifestando-se em palavras desconexas, os suores febricitantes encharcando-lhe o cabelo, o coração batendo violenta e desconformemente num surdo matraquear de aflição, o centro de controlo de temperatura do hipotálamo reagindo aos agentes pirógenos segregados pelas células numa resposta à agressão de minúsculos atacantes. A sua mente clamava por algo ou por alguém, estendendo-se, informe e sofrida, através de abismos hadeanos, os bafejos ardentes da pirexia calcinando a fina crosta da congruência num frenesi absurdo e desarmonizado, a agitação e os tremores fatigando até que a quietude estática do esgotamento se sobrepôs num definitivo sossego. A manhã chegou cedo, o sol refulgente entrando pela persiana entreaberta, iluminava metade da divisão, a suavidade morna da luz tirando-lhe a vontade de sair daquele estado letárgico. Por diversas vezes deixou-se escorregar para a tepidez do sono, até a luminosidade exercer sobre si a obrigatória instância do despertar. Entreabriu os olhos e deixou-se ficar imóvel por um momento, contemplando a alvura do tecto e a faixa de claridade que invadia a sua vida…"

V.A.D. em Febre


publicado por V.A.D. às 03:15
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Domingo, 9 de Dezembro de 2007

Sonho Surreal

Sei os símbolos e o que eles significam, mas não conheço os sons que lhes correspondem. Vejo imagens gerando-se na minha mente, a cada ideograma que se forma na retina, sem que perceba o que representam. Sinto na pele o toque frio do metal, sem que esteja cônscio da sua dureza. Ouço a música que baila nos meus ouvidos e não entendo a sua cadência. A mão insubstancial desenha espirais no ar, quais vórtices de excelsas maravilhas, e nada conheço de geometria, embora diferencie facilmente o tempo das restantes coordenadas. Não me importo de estar ausente de mim, as dimensões estendendo-se até ao infinito de uma singularidade, a multiplicidade resumindo-se a tudo e a coisa alguma, num absurdo e risível paradoxo. Desejo-me revérbero de um simples pensamento, eco da profusa energia contida em um grama de matéria, fluxo de neutrinos gerados em decaimentos beta no coração das estrelas, o negrume da noite pousando na escuridão do sono, o sonho administrando uma realidade que não sei bem o que significa. Quero-me acordado, mas não me apetece acordar. A felicidade não é mais que o ajuste perfeito à ambiência singular em que se vive…

Imagem: Sonho Surreal (www.art.eonworks.com/gallery/surreal/dream_image-200203-SM.jpg)

música: Was It A Dream (30 Seconds To Mars)

publicado por V.A.D. às 01:50
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Sexta-feira, 14 de Setembro de 2007

Enxurrada

Agarrei-me desesperadamente ao tronco flutuante de uma enorme árvore, uma ilha de madeira que talvez me permitisse, ainda que por alguns segundos, recobrar o fôlego. Estava esgotado, prestes a desistir; a força da enxurrada havia-me arrastado por centenas de metros, talvez quilómetros, fazendo-me debater incessantemente com a necessidade de me manter à tona. Nem as roupas pesadas nem os fortes redemoinhos daquela massa de água em fúria facilitavam essa tarefa vital, e há limites para a resistência. Respirei profunda e rapidamente, grato por sentir que o coração se acalmava e que o latejar do sangue nas têmporas deixava de se assemelhar a um martelo a bater-me furiosamente na carne. Senti uma forte pancada na zona das costelas; durante alguns instantes, uma sensação de enorme confusão apoderou-se da minha mente. Estava encharcado, mas não havia aquele frio que me enregelava os ossos, nem a permanente desorientação provocada por um voltear contínuo, por uma permanente movimentação sobre aquele louco carrossel feito de água… Outra pancada arrancou-me definitivamente àquele estado indefinido:

- Estás outra vez a ressonar…!

Virei-me para o outro lado e voltei a adormecer. Desta vez, o sono revelou-se sereno: o pesadelo não regressou.

Imagem: Enxurrada (http://users.tinyonline.co.uk/gswithenbank/flood.gif)

música: Asleep (The Smiths)

publicado por V.A.D. às 01:46
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Quinta-feira, 19 de Julho de 2007

Sonhar

Estamos tão acostumados ao facto de os nossos sonhos serem acompanhados de imagens visuais que é difícil imaginá-los de outra maneira. Mas, e os cegos? Com que sonharão eles? Os relatos na primeira pessoa indicam que a capacidade de sonhar não depende da capacidade de ver, ou mesmo de ter visto algum dia. Sonham da mesma maneira que percebem o mundo, através de sons, de texturas, de cheiros e de paladares. Produzem-se sensações idênticas às dos sonhos visuais e os pesadelos são igualmente perturbadores. Os que não são cegos de nascença parecem ser capazes de se lembrar do sentido perdido e o seu cérebro introduz nos sonhos imagens inventadas, embora baseadas em pessoas ou paisagens já vistas. Os sonhos não são assim uma simples tradução nocturna daquilo que vemos. Eles são criações da mente de quem dorme, reciclando impressões registadas pelos sentidos disponíveis e formando, por vezes, uma narrativa tão, tão coerente…!

Imagem: Sonho

música: Daydream (Lupe Fiasco & Jill Scott)

publicado por V.A.D. às 02:32
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Quinta-feira, 26 de Abril de 2007

A Teia do Tempo

“Foi então que vi a jovem. Estava junto à porta, a não mais de três metros de distância, a falar com o gerente. Eu nunca a tinha visto. Tinha a certeza disso, mas o meu subconsciente disse-me que a conhecia. Ela tinha olhos grandes, escuros, bem colocados no tipo de rosto oval que os mestres flamengos punham somente nos anjos mais belos. Os cabelos dela eram escuros, de cor indeterminada sob a luz mortiça do café, dobravam-se suavemente sobre o pescoço e os ombros e desciam até rodear-lhe o fundo das costas. Estava vestida com uma espécie de túnica que tornava terrivelmente feminina a sua figura arrapazada. Ao fim de alguns minutos soube de onde a conhecia. Na minha juventude, durante um extenso período de leitura de literatura romântica, eu salvara aquela garota de tudo, desde cavaleiros maldosos até dragões terríveis em muitos sonhos meio recordados. Aquela era a rapariga que falava aos unicórnios; o símbolo da pureza e graça que eu jurara servir quando fizera os meus votos de lealdade e ficara de vigília com a minha espada durante uma longa noite. (…) Aquela era a rapariga dos meus sonhos.”

Excerto de A Teia do Tempo (The Unicorn Girl, no original), de Michael Kurland, escritor norte-americano nascido em 1938. Esta é uma obra invulgar no domínio da ficção científica, pelo seu humor e fina crítica social. Mas é também um dos trabalhos mais profundos que têm sido escritos sobre a possibilidade da existência de trilhos temporais alternativos.

Imagem: Ampulheta (www.oraculartree.com/spagnollo_Ampulheta.jpg)

música: Time (Allan Parson's Project)

publicado por V.A.D. às 00:02
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Quarta-feira, 4 de Abril de 2007

Sono - parte 1

A noite caiu. O fogo abre um mágico círculo no meio da escuridão que me cerca. Esforço-me por me manter alerta, mas o véu da sonolência descai sobre mim como uma sombra, diluindo os contornos da realidade. O cansaço afoga-me num poço de dormência; as forças abandonam-me e em breve a minha mente deixar-se-à levar pela silenciosa corrente de um rio negro e viscoso, até ao lugar inane do esquecimento.

O meu corpo repousa, vazio de sentidos, e cessam os movimentos voluntários. As partes mais profundas do meu cérebro vigiam as funções vitais e assumem o comando, enquanto vagueio à deriva num mar de pensamentos cada vez mais incertos e desconexos. Procuro agarrar-me às mioclonias, mas são tão esquivas...! Sonhos absurdos, que rapidamente se desvanecem, mostram-me pedaços quebrados do meu dia.

Escuridão total. A imensidão da eternidade condensa-se num átomo de tempo e do nada surgem novamente os sonhos, mais vívidos e claros, porém impregnados de um surrealismo estranhamente monocromático.

De novo a cerração... Podem passar evos ou segundos; estou desligado do mundo enquanto o meu corpo se restabelece.

música: Dream Within A Dream (Alan Parson's Project)

publicado por V.A.D. às 02:36
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