Sábado, 3 de Novembro de 2007

Os Outros (VI)

“Penosamente, peguei nos pedaços desfeitos da minha congruência e juntei-os com extremo cuidado. A espuma e a lâmina de barbear encarregaram-se de sonegar as provas; a água, negra de sonhos lúcidos, sumiu-se pelo ralo abaixo. Rodopiando, levou consigo parte do meu cepticismo. Nesse dia, quis dormir até à exaustão.

Assisti ao gotejar das águas na clepsidra do tempo, as horas passando por mim como luzes vertiginosas, os anos sucedendo-se bonançosos, percebidos com a cadência própria de quem já viveu metade da vida. Sabia, de forma pertinente, que aquele episódio não passara de uma ilusão, que nada daquilo que sentira e experimentara havia sido real. E, no entanto, vívida e incisiva como um gume afiado, a esquizóide e obsessiva impressão de aquilo tinha sido mais do que uma simples manifestação de uma raridade neurofisiológica, teimava em atormentar-me. Tinha sido oneironauta por uma noite: a hiper-realidade, estranha e enganosa, apossara-se de mim, arrastando-me por lugares horríveis e fazendo-me refém de mim mesmo. Ah…! Nunca mais levei os dedos à nuca!”

V.A.D. em Os Outros.

Imagem: Sonho Lúcido (http://sprott.physics.wisc.edu/fractals/collect/2005/Lucid_Dream.jpg)


publicado por V.A.D. às 03:26
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Sexta-feira, 2 de Novembro de 2007

Os Outros (V)

“Acordei com o som irritante do velho despertador. Mesmo que viva mais cem anos, nunca me irei habituar àquele ruído esganiçado e intermitente, que me entra pelos ouvidos adentro, qual trombeta em desatino tocada por um músico alienado. Um agonizante cansaço, que me moía os ossos e oprimia as têmporas, não impediu que me levantasse de rompante: sabia ser a única forma de não voltar a cair num sono esvaziado e estupidificante. Ansiava por um duche que me arrancasse, da pele e da mente, a sujidade das lunáticas horas daquela noite cataléptica. Depois de satisfeita uma premente necessidade fisiológica, abri a torneira e, enquanto esperava que a água se fizesse quente, olhei-me no espelho. O choque foi avassaladoramente brutal e indescritível na sequela. A minha face, escanhoada escrupulosamente havia menos de um dia, apresentava-se coberta por uma longa barba cerrada. Os olhos, vermelhos de minúsculos mas incontáveis derrames, denunciavam uma fadiga impossível. Levei os dedos à nuca, e o tacto disse-me que lá estava a cicatriz dos meus medos, ainda por sarar. E o meu juízo, desfazendo-se numa geleia grumosa e peganhenta, desagregou-se do meu ser e escorreu por mim abaixo…”

V.A.D. em Os Outros.

Imagem: A Perda do Juízo (http://baltgames.lv/v2/usergalleries/46135.jpg)

música: Exchange (Massive Attack)

publicado por V.A.D. às 00:04
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Quinta-feira, 1 de Novembro de 2007

Os Outros (IV)

“Não consegui sequer completar o pensamento. Pois que o tempo efectivamente ludibriou-me, esquivando-se desabridamente, deixando-me inane de raciocínios e saciado de sensações. Tudo o que havia já experimentado, dor e êxtase, alegria e pesar, ódio e amor, raiva e tranquilidade, tudo se afunilou numa imensa torrente, barulhenta e embriagante. Toda a luz, toda a cegueira, todas as loucas delícias e todas as infaustas desilusões estavam condensadas naquele infernal instante sintético. A totalidade do que já havia conhecido parecia esfaquear a minha sanidade, a seiva da lucidez esvaindo-se a cada golpe… Parecia-me que balançava entre a vida e a morte, sem perceber a eternidade. Séculos de séculos, vidas depois, tive de novo consciência da minha natureza humana. Reconheci instantaneamente a semi-obscuridade tranquila do meu quarto e aquietei-me com um compassado e ténue som de respiração. Ainda com o coração a bater aceleradamente, virei-me para procurar o aconchego do corpo dela encostado ao meu. Abracei-a e adormeci, enquanto me tentava persuadir de que tudo aquilo não passara de um mero pesadelo. Teria sido apenas isso…?”

V.A.D. em Os Outros.

Imagem: Vórtice (www.robotpegasys.com/alienswfs/abcfiles/vortex.jpg)

música: Whenever There Is You (Koop)

publicado por V.A.D. às 03:21
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Quarta-feira, 31 de Outubro de 2007

Os outros (III)

“Soergui-me, um cotovelo apoiado no almadraque que de imediato se adaptou à pressão exercida. Um guincho inquietante, um uivo agudo pejado de surpresa meteu-se-me pelos ouvidos adentro, derrubando-me como se uma mão invisível me tivesse empurrado. Soube que qualquer coisa não estava certa; pareceu-me haver um novo odor na atmosfera, um fedor aflitivo a asco e repulsa, que me nauseou a ponto de vomitar o vácuo das minhas entranhas. E senti a dor, subtil mas incómoda. Não tive necessidade de levar a mão à nuca para saber que, enquanto inconsciente, aqueles cirurgiões diabólicos tinham estado a trabalhar, introduzindo condutores em centros do meu cérebro, micrometricamente localizados. Nessa massa de tecido hipertrofiado, com menos de quilo e meio de peso, feixes de nervos e tecido especializado dominam a disposição e as emoções, assim como o pensamento consciente e as actividades motoras. E então um medo estarrecido apoderou-se de mim, tolhendo-me irrevogavelmente. Apercebi-me que não era mais que um títere, estranhamente suspenso por fios condutores, indiscutivelmente manietado por impulsos eléctricos meticulosamente aplicados…”

V.A.D. em Os Outros.

Imagem: Implante Cerebral (www.motherjones.com/news/feature/2005/11/clicker_265x296.jpg)
música: I Put A Spell On You (Nina Simone)

publicado por V.A.D. às 02:36
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Terça-feira, 30 de Outubro de 2007

Os Outros (II)

“Um tremor incontrolável tomou conta de todos os músculos do meu corpo, como se o tivessem mergulhado nas águas geladas de um lago boreal. Uma luz azulada e difusa parecia amplificar a fantasmagoria atordoante de um cenário para o qual nada me podia ter preparado. Debruçada sobre mim, a vaga silhueta de um ser definitivamente alienígena focava nos meus os seus olhos, negros como as profundezas das fossas abissais, penetrantes e interrogativos como projécteis disparados pela arma da curiosidade. Através da visão periférica, conseguia discernir outros vultos, esguios e estáticos, rodeando a tarimba onde jazia indefeso. Para lá deles, naquilo que julgava serem paredes abobadadas, luzes suaves piscavam num frenesim multicolor de tinta salpicada. Um zumbido grave e quase imperceptível estremecia-me por dentro, contribuindo para aquela sensação de pânico, insidiosa como uma erva daninha, que sentia estar a formar-se dentro de minha mente. Julguei, por momentos, estar no meio de algum pesadelo aterrador. Era premente reagir de alguma forma…”

V.A.D. em Os Outros.

Imagem: Olhos Alienígenas (http://ufoundercover.homestead.com/Alien_Eyes_Green.jpg)

música: Don't Bring Me Down (Sia)

publicado por V.A.D. às 02:39
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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Os Outros (I)

“Acordei em sobressalto, no meio de uma sufocante desordem de pensamentos em tropelia, a consciência a ganhar forma rápida e titubeantemente, todavia ainda isolada do mundo por uma cegueira sensorial que abalava a minha placidez. Sentia-me protagonista de um filme sem conteúdo, projectado inexequivelmente depressa sobre uma tela defeituosa e ondulante. Um fosso de temores separava-me da vontade de abrir os olhos, o alarmante receio de que o corpo não obedecesse às ordens do cérebro impedia que me movesse. Pressentia a penumbra de um lugar frio e cinzento e um desconforme murmúrio de movimentos quase inaudíveis fazia-me crer que alguém se encontrava à espreita do meu despertar. Compreendi que devia virar os meus esforços para a necessidade de recordar o que me colocara naquela estranha situação, em que receava nem sequer ter a habilidade de me reconhecer. Percebi-me deitado de costas, nu sobre um catre duro mas de textura aveludada, os braços alinhados ao lado do corpo e as pernas estendidas. Cautelosamente, entreabri os olhos e sufoquei o grito que de imediato se formou na minha garganta…”

V.A.D. em Os Outros.

Imagem: Cegueira Sensorial (original em http://wado.podomatic.com/2007-04-02T11_03_15-07_00.jpg)

música: Sinkin' Soon (Norah Jones)

publicado por V.A.D. às 00:35
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