Segunda-feira, 30 de Julho de 2007

Optimismo

“Metade dos passageiros enfraquecidos expirava das angústias inconcebíveis que o balanço de um barco causa aos nervos o outras partes do corpo agitadas em sentidos contrários, e nem sequer tinha forças para se inquietar com o perigo. A outra metade gritava e rezava. As velas batiam, rasgadas, os mastros estalavam e partiam-se, o barco metia água por todos os lados; trabalhava quem podia, ninguém se entendia e ninguém comandava. (…) O caridoso Jacques corre em socorro de um homem em perigo, ajuda-o a subir, e desses trabalhos resulta-lhe cair ao mar mesmo à vista do marinheiro, que o deixa morrer sem sequer o olhar. Cândido aproxima-se, vê reaparecer o seu benfeitor, e vê-o depois sumir-se para sempre. Quer deitar-se à água atrás dele, mas o filósofo Pangloss segura-o, provando-lhe que o porto de Lisboa tinha sido feito expressamente para nele se afogar esse anabaptista.”

Excerto de Cândido, ou o Optimismo, de Voltaire. Poeta, ensaísta, dramaturgo, filósofo e historiador iluminista francês, nascido em 1694, Voltaire foi um crítico severo de um mundo vivido entre as contradições do optimismo e do pessimismo, do bem e do mal, e atacou com veemência todos os abusos de poder. Esta obra é uma sátira que se ergue contra o fanatismo, a intolerância, a ignorância e a injustiça, males que infelizmente continuam a grassar nos nossos dias.

Imagem: Voltaire (www.ocidente.eu/img/voltaire2.jpg)


publicado por V.A.D. às 00:01
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Terça-feira, 24 de Abril de 2007

Criatividade

Nada pior para um artista do que uma página em branco a encará-lo. As possibilidades parecem infinitas, e a incerteza da escolha certa a fazer pode ser angustiante. Pois a crise de criatividade, sempre associada a escritores e a artistas plásticos, ataca igualmente outros espécimes humanos. O projecto a escolher, a linha de pesquisa a ser seguida, tudo isto pode ser paralisante para um cientista. Para o mais comum dos mortais, certas decisões, por mais insignificantes que possam parecer, podem-se revelar um autêntico quebra-cabeças. Que música ouvir, que livro ler, que filme ver, que canal de tv seleccionar? Certamente que isto nada tem a ver com criatividade... Ou terá? A criatividade é um conceito abrangente, que vai desde a criação de algo único ou original até ao método que envolve a tomada de consciência de problemas e lacunas no conhecimento, e a subsequente tomada de atitude para a resolução dessas falhas. O processo criativo representa a mudança e a evolução organizacional dos aspectos objectivos e subjectivos da vida. Pode-se exteriorizar a habilidade criativa ou usá-la apenas em benefício próprio, mas as escolhas que fazemos em certas áreas estão certamente relacionadas com a criatividade.

Imagem: Criatividade

música: Crier la Vie (Moby & Mylene Farmer)

publicado por V.A.D. às 02:06
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Sábado, 24 de Março de 2007

Esta Época

A ideia surgiu-me de uma conversa, assaz interessante, sobre alguns comportamentos humanos. De imediato, vieram-me à mente passagens de um livro que li há algum tempo, no qual uma das partes tem como título Esta Época Não Científica. Vivemos numa época em que o conhecimento é muito mais vasto e muito mais acessível do que aquele de há, por exemplo, um século atrás. Aquilo a que chamo conhecimento deve-se exclusivamente à ciência e às suas diversas vertentes, sejam elas de índole social, natural ou aplicada. A ciência não é dogmática; está em mudança permanente e em actualização constante, e não pretende responder a todas as questões. Nem mesmo a ciência pura pode produzir verdades absolutas e inquestionáveis. Mas só a ciência produz modelos úteis da realidade. É óbvio que o mundo é muito mais do que a realidade científica. Nas artes, nos prazeres humanos, nas brincadeiras, e em tantos outros aspectos da vida, não há necessidade nem razão para se ser científico. Mas, e afirmo-o sem rodeios, às vezes parece-me que estamos, enquanto sociedade, a regredir. Quando a astrologia é encarada por tantas pessoas como um guia a ser usado no dia-a-dia; quando o criacionismo ganha um peso inusitado além-mar; quando os fundamentalistas matam e matam-se em nome de um deus que só pode ser insensível e desumano; quando nos deixamos iludir tão facilmente por publicidades enganosas, sejam elas de cariz político ou comercial; quando fazemos de questões, supostamente desportivas, guerras tribais; quando a violência é cada vez mais o método usado para impor doutrinas; quando procuramos refúgio na religião, mas descuramos completamente a ética, creio que a racionalidade e a maturidade, que seriam de esperar de uma espécie que se diz inteligente, estão longe de estar consolidadas. Parece-me até que as trevas estão a ameaçar, e isso assusta-me. E não me assusto facilmente.

música: Into Dust (Mazzy Star)

publicado por V.A.D. às 02:32
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Sexta-feira, 16 de Março de 2007

Metáforas

"Que uma pessoa tenha de falar acerca da mente em metáforas é lamentável, mas inevitável. Nem a linguagem comum nem a científica nos faculta um idioma no qual a Natureza e as obras do espírito possam ser descritas convenientemente. Quase não é possível dizer qualquer coisa sobre ela excepto por metáforas e símiles tirados do mundo material que podemos ver e tocar. (...) Como se os materiais psicológicos hereditariamente dados fossem uma porção de barro para o escultor lhe dar forma, uma porção de brita e alvenaria para ser transformada pelo arquitecto numa casa. E até onde este símile acentuou a crua natureza caótica do que é dado, e a importância no processo da sua conversão numa personalidade em qualquer coisa como tratamento artístico, serviu bastante bem. Mas a arquitectura e a escultura existem no espaço e são o mesmo nos diferentes momentos do tempo. Os seres humanos habitam o tempo, bem como o espaço, e variam de momento para momento. Os materiais de uma personalidade, hereditariamente dados, são caóticos no tempo, não no espaço. As pedras com as quais o arquitecto fará a sua casa jazem dispersas no espaço. Os materiais psicológicos com que o indivíduo tem de construir a sua personalidade são descontínuos no tempo. Para se criar uma personalidade, uma pessoa tem de descobrir algum princípio de continuidade, uma pessoa tem de planear uma estrutura ideal, onde os materiais naturalmente descontínuos possam encaixar-se harmoniosamente. Brechas temporais separam os elementos de uma personalidade; a estrutura deverá colmatar estes abismos do tempo. O princípio da continuidade deve actuar como uma espécie de cimento, no qual os elementos divididos pelo tempo estão assentes."

Excerto de Sobre a Democracia e Outros Estudos, de Aldous Huxley, ensaísta e romancista britânico. Na sua vasta obra escrita, debruça-se essencialmente sobre as humanidades,  e dá especial ênfase aos sistemas políticos baseados no autoritarismo. O seu romance mais conhecido, Admirável Mundo Novo, é uma contra-utopia pessimista, em que é usada a ficção científica para a descrição de um mundo organizado segundo uma estrita hierarquia e dominado por uma ditadura genética.

Imagem: Frame of Mind (www.abcdigitalart1.hpg.ig.com.br/deaddreamer/FrameOfMind1024.jpg)

música: Walk This World (Heather Nova)

publicado por V.A.D. às 01:29
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Quinta-feira, 11 de Janeiro de 2007

Serenidade

"Mas quando um homem, são de corpo e moderado, se entrega ao sono depois de ter despertado o elemento racional da sua alma e tê-lo alimentado de belos pensamentos e nobres especulações, meditando sobre si mesmo; quando evitou tanto reduzir à fome como saciar o elemento concupiscível, a fim de que se mantenha em repouso e não cause perturbações, pelas suas alegrias ou tristezas, ao princípio melhor, mas o deixe, só consigo mesmo e liberto, examinar e esforçar-se por apreender o que ignora do passado, do presente e do futuro; quando este homem amansou igualmente o elemento irascível e não adormece com o coração agitado de cólera contra alguém; quando acalmou estes dois elementos da alma e estimulou o terceiro, em que reside a sabedoria, e finalmente repousa, então, como sabes, toma contacto com a verdade, melhor do que nunca, e as visões dos seus sonhos não são de modo nenhum desregradas."

Excerto de A República de Platão

Imagem: Platão (www.cdcc.sc.usp.br/ciencia/artigos/art_26/proporcaoimagem/platao.jpg)

música: Vangelis - Mythodea - Movement 1

publicado por V.A.D. às 02:01
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