Sexta-feira, 3 de Abril de 2009

Alter Orbe (II)

 

“– A hora é de desassossego; está confirmada a inevitabilidade do êxodo (…)”

 
“Ecos de épocas distantes ressoavam no meu córtex auditivo à medida que as imagens tridimensionais desfilavam mudas em frente aos meus olhos esbugalhados por um assombro tão grande quanto o próprio Universo. Testemunhava os hologramas milenares, relíquias de um glorioso passado alienígena, insondado até então e, contudo, intuído desde sempre. Durante minutos ou horas, já nem sei, as paredes de pedra transformaram-se num horizonte ocre, o tecto numa rarefeita atmosfera de tinta inenarrável, o luzeiro adquirindo a deslumbrante incandescência de uma estrela uma vez e meia mais distante. Vi as paredes alcantiladas do canyon longo de milhares de quilómetros, senti no meu imo a imponência da maior elevação do sistema solar, a minha mente de criança embasbacando-se perante a magnificência desértica dos continentes, o espanto avassalando-me ante a visão de uma cidade esplendorosa e intacta, as tempestades de poeira não havendo ainda exercido a acção erosiva dos séculos posteriores. E a face, aquela face… A mesma face que a imprensa colocaria em destaque poucos dias mais tarde e que iria certamente atrair atenções sobre um planeta agora morto…”
V.A.D. em Alter Orbe

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Segunda-feira, 23 de Março de 2009

Alter Orbe (I)

 

“E o governante supremo dirigiu-se-me, a inquietude que lhe fervilhava nas artérias sendo notavelmente disfarçada pela brandura da voz (…)”
 
“Devo começar por afirmar que não é meu hábito fazer revelações acerca de assuntos tabu. Contudo, faço-o agora na esperança de trazer até vós o fascínio de uma realidade que vos tem sido propositadamente sonegada. Recuo àquela tarde quente de fins de Julho, quando se estabeleceu abruptamente uma sorte de pânico silencioso na casa onde havia nascido oito anos antes. Lembro-me, com uma extraordinária clareza, da preocupação estampada no rosto do meu pai, a tensão convertida em rugas profundas, os cabelos eriçados parecendo ainda mais alvos à fulgurante luz do sol, já para lá do zénite mas ainda pendurado bem alto no azul de um céu que sempre sentira não ser o meu. Recordo-me da gravidade das palavras proferidas pelo meu avô materno, a ansiedade transparecendo no tom da convocatória, e está bem presente na minha memória a prontidão com que foi seguido até à cave centenária, a entrada oculta sobre a pesada carpete da salinha que lhe servia de escritório, o alçapão escondendo um mundo ao qual eu e o meu irmão nunca havíamos acedido e do qual nunca tínhamos tido a mais remota suspeita…”
V.A.D. em Alter Orbe

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Sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

Ergosfera (V)

“Arranco violentamente as conexões neurais que me aliam à I.A., os eléctrodos ligados ao transceptor de arsieneto de gálio implantado na nuca ficando irremediavelmente danificados, uma definitiva cessação das esparsas e inconsequentes comunicações parecendo-me a melhor forma de readquirir o domínio completo de mim próprio e da cápsula que me ampara. Revejo mentalmente o plano que decorre das conclusões matematicamente encontradas, reassumo o lugar de piloto que me pertence por direito e traço o rumo no ecrã táctil. Incontáveis qubits flúem do computador de navegação para cada um dos processadores quânticos associados aos inúmeros propulsores direccionais. Lenta mas inexoravelmente, o veículo alinha-se no sentido de rotação da ergosfera, o motor de antimatéria levado nessa altura à potência máxima em escassos vinte e três nanossegundos, um impulso milhares de vezes superior à massa da nave sendo desenvolvido quase instantaneamente. Parece paradoxal, eu sei, mas neste preciso momento atravesso a linha temporal no sentido antagónico ao percorrido por incontáveis googois de seres viventes…”
V.A.D. em Ergosfera
Vídeo: Time (Pink Floyd) (http://www.youtube.com/watch?v=nSLqbl2Xshs)

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Segunda-feira, 24 de Novembro de 2008

Ergosfera (IV)

“Durante aqueles revoltos dias subsequentes, senti inúmeras vezes o perfume acidulado da velha Dama da Gadanha, aquela que anda de mão dada com o Tempo desde os primórdios da vida. Quis inalá-lo, quis tornar-me poalha inerte, quis regressar à quietude desapossada da não existência; talvez assim as cordas de mim mesmo se reintegrassem serenamente na grande sinfonia universal… Depois instalou-se um entorpecimento resignado, pútrido vómito daquilo que fui (e que hei-de voltar a ser, não sei quando nem como), a alma peganhenta escorrendo, viscosa, para uma poça de letargo. E sobreveio uma pirexia avassaladora, o corpo cedendo por fim ao cansaço dos longos dias de uma vigília inquieta, o sono decrescentemente delirante aliando-se à mente para que a lucidez fosse recuperada. Busquei o equilíbrio extraviado por entre as memórias pretéritas e as perspectivas futuras, tentando abstrair-me do presente através de uma intensa pesquisa na vasta base de dados da cápsula, regressei aos cálculos num esforço solitário, desistindo de conferenciar com a I.A. cuja conduta se assemelha a uma obstinada e contraditória teimosia. Por fim, num lampejo fortuito, é-me desvelada a forma de escapar ao aprisionamento neste lugar ermo e ultrajante, numa fórmula tão inusitadamente simples quanto fascinantemente eficaz…”

V.A.D. em Ergosfera
Vídeo: Comfortably Numb (Pink Floyd) (http://www.youtube.com/watch?v=_vOfrlpUhRY)

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Segunda-feira, 17 de Novembro de 2008

Ergosfera (III)

“O calendário diz-me que treze dias terrestres estão transcorridos e, contudo, a realidade apresenta-se obstinadamente discordante. O Tempo imobilizou-se num emaranhado de sentimentos antinómicos, o humor alternando entre a resignação apática e uma irascibilidade quase violenta, os raros momentos de serenidade sendo aproveitados em cômputos cujos resultados me parecem cada vez mais inverosímeis. A insónia tem-me atormentado sobremaneira, a mente ressentida da privação do repouso parecendo recusar-me a profundidade de reflexão tão necessária à superação da crise em que me vejo envolvido. Erro de trajectória ou insólita deformação do espaço-tempo, defeito nos sistemas de orientação ou incúria da I.A. na efectivação das imprescindíveis correcções para conservar a nave no plano de voo antecipadamente estabelecido? Talvez tenha sido uma conjugação de factores adversos e de circunstâncias invulgares a trair as expectativas, provavelmente elas próprias excessivas, a ousadia de acreditar em futuros risonhos fazendo-se pagar bem cara com decepcionantes reveses… E agora, um indeclinável conflito intestino agiganta-se por entre os meatos quase vegetativos da entidade em que me tenho vindo a tornar, ameaçando rasgar o que resta da inteireza…”

V.A.D. em Ergosfera
Imagem: Perímetro da Ergosfera

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Sexta-feira, 14 de Novembro de 2008

Ergosfera (II)

“Tremem-me as mãos, no meu semblante reconhecem-se esgares de um pânico que me esforço por controlar, o nó na garganta teimando em se não desfazer apesar de perceber agora o exótico lugar onde me vejo aprisionado, a dor instalada atrás dos globos oculares aturdindo-me, tolhendo-me numa apatia pestilenta que preciso de sacudir. Purgatório dantesco ou limbo kafkiano, este espaço em contínua revolução e desprovido de tempo desafia a loucura e corrói a sanidade, a singularidade para lá do horizonte de eventos parecendo rir-se sarcasticamente da imaturidade de quem queria a eternidade e agora não sabe o que lhe fazer. A própria I.A. demitiu-se da congruência que lhe era característica, num revérbero da consciência de que sei não ser despojada. Acha-se inábil para inverter a situação, diz-se incapaz de gerir competentemente as exigências a que se diz submetida, as contradições balbuciadas incrementando-me as dúvidas acerca da minha viabilidade enquanto ser equilibrado. Afinal, não reside nas minhas mãos o controlo efectivo do meu destino: na ergosfera o espaço-tempo é arrastado pelo campo gravitacional do buraco negro rotativo, a distorção assumindo contornos difíceis de analisar por um desprezível mortal…”
V.A.D. em Ergosfera
Imagem: Ergosfera (http://www.miqel.com/images_1/visionary_art/accretion-disk-black-white-.jpg )

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Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

Ergosfera (I)

“Os meus olhos vagueiam pelos campos cósmicos desprovidos de estrelas, um frio glacial enregelando-me o sangue, um pavor desmesurado dementando-me o raciocínio e incapacitando-me de assimilar a magnitude do que me havia sucedido. Demoro-me pelas amplidões sombrias de um nada aparentemente dominado pela mais absoluta entropia, exilado do meu próprio Universo por forças muito para além da compreensão, perdido num referencial descaracterizado e isotrópico. Das profundezas da mente vai emergindo a indubitável e tenebrosa sensação de que não há por onde fugir, a cápsula que me sustenta mal suportando o esforço de manter operativos os sistemas, os mostradores piscando em alarmantes vermelhos e amarelos e a escuridão completa do exterior contribuindo para a absoluta desorientação em que me vou naufragando. Respiro fundo, perseguindo a serenidade que se me afigura esquiva, faço por ordenar os pensamentos e peço à I.A. que me elucide. Revela-se parca em palavras, o profuso fluxo de dados provenientes dos sensores ocupando-a talvez em demasia para valorizar a pertinência das minhas questões…”
V.A.D. em Ergosfera
Imagem: Órbita (http://demonstrations.wolfram.com/OrbitsAroundASpinningBlackHole/HTMLImages/index.en/popup_2.jpg)

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Sexta-feira, 30 de Maio de 2008

Eternidade

“E ali estava ele, sozinho e incapaz de se maravilhar com a beleza assustadoramente poderosa daquele simples crepúsculo, a vermelhidão do céu tornando-se violeta à medida que o sol se refugiava para lá do horizonte longínquo, as sombras tingindo o solo verde de relva em tons de negro, a suave brisa afagando-lhe o rosto agora sem rugas. Olhava em frente mas deixara de contemplar, perdera a habilidade de vislumbrar um futuro que se lhe oferecia insípido, as razões da sua existência confundindo-se com a desilusão da monotonia. Os pensamentos velhos e longos de séculos atropelavam-se na sua mente, definhando na exuberância da carne, a contínua e perfeita renovação dos músculos e das glândulas afundando-o numa atmosfera de futilidade, os dias infinitos impacientando-o, a eternidade há muito conquistada afigurando-se-lhe demasiadamente inane para merecer ser vivida. A sabedoria adquirida com o embranquecimento dos cabelos havia sido lentamente dissipada pelo desengano de um milhão de manhãs sempre iguais, o desapontamento levando-o a uma apatia cada vez maior, o cansaço das tarefas repetidas tornando-o pouco mais que um mero autómato, o algoritmo de si próprio revelando-se desatinadamente fastidioso…”
V.A.D. em Eternidade
Imagem: Eternidade (http://kabbalah4women.typepad.com/photos/uncategorized/2007/03/19/eternity.jpg)

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Terça-feira, 20 de Maio de 2008

Tarde Demais (V)

“A nave corria através dos limites superiores da estratosfera, apunhalando o ar frio, um rasto incandescente cruzando os céus como um cometa. De súbito, um insistente piscar despertou-o das lucubrações que lhe atravessavam a mente. Trinta e oito graus acima do equador, numa enorme ilha entre duas massas continentais, um transponder de IFF emitia o código que assomava agora perante si, o visor holográfico anunciando o possível fim da sua própria solidão. Conteve com dificuldade a satisfação transbordante, as lágrimas marejando-lhe os olhos, o coração acelerando numa reacção instintiva de felicidade, a certeza de que encontrara os seus anunciando-se pela confirmação via rádio, o longo silêncio sendo quebrado numa manifestação feita do júbilo que transparecia na sua voz. Tantas perguntas, tantas respostas, eram tantas, as saudades…! Inseriu as coordenadas que o levariam ao local de pouso e conversou até à supressão das comunicações, os gases ionizados pelo atrito dispersando as ondas, a entrada na atmosfera elevando a temperatura até valores infernais e isolando o veículo por doze minutos que se assemelharam a séculos. A turbulência deu lugar à quietude do voo planado, a trajectória sinuosa reduzindo a velocidade e permitindo-lhe vislumbrar os contornos difusos das falésias alcantiladas brotando das águas de um azul profundo e os grandiosos edifícios reflectindo em tons metálicos o sol daquela manhã estival. Aterrou num imenso planalto, a longa pista pavimentada encurtando-se até os freios aerodinâmicos contrariarem em definitivo a inércia. Foi recebido por uma pequena delegação, as altas individualidades e os esculápios assegurando-se do seu bem-estar, cientificando-o de minudências circunstanciais e de informações pertinentes. Achava-se em Atlantis; duas gerações haviam tornado aquela terra estranha num novo lar, a ilha passando de despovoada a exílio de inteligências. Não, não iria encontrar contemporâneos: chegara tarde demais.”

V.A.D. em Tarde Demais
Imagem: Atlantis (original em http://atlantis.csillagkapu.hu/kep/atlantis.jpg)

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Sábado, 17 de Maio de 2008

Tarde Demais (IV)

“Queria lavar-se; sentia-se atormentado pelo profundo desejo de ser acariciado pela água corrente, mas só podia perceber o formigueiro das inaudíveis ondas sonoras massajando-lhe a pele, o duche ultrassónico expurgando-o dos resíduos acumulados na cútis durante as décadas de total imobilidade. Vestiu-se e permaneceu quedo durante alguns minutos, apreciando a extraordinária sensação de calor a invadir-lhe o corpo, o fato de voo aconchegando-o, o sangue voltando a fluir-lhe nas veias na cadência determinada pela natureza. Lá em baixo, um mundo novo aguardava-o, as incertezas emboscando-se pelos cantos escuros dos seus raciocínios, a esperança temerária asseverando-lhe que haveria de ser bem sucedido. Inspirou profundamente e olhou os monitores, concentrando-se na imperiosa tarefa de verificar as condições da nave, o longo voo exigindo-lhe redobrada atenção antes de accionar os retrofoguetes, uma órbita baixa afigurando-se-lhe apropriada à investigação de quaisquer sinais reveladores da presença de congéneres naquele planeta tão análogo ao seu. A trajectória marcada na mesa de navegação fez o veículo desacelerar momentaneamente, a gravidade obrigando-o cair, os pormenores da superfície tornando-se cada vez mais distintos, o computador sendo chamado a calcular as contínuas e indispensáveis correcções para que um ângulo de seis graus fosse mantido…”
V.A.D. em Tarde Demais
Imagem: Mesa de Navegação (original em http://a.abcnews.com/images/Technology/ht_nasa_path3_071105_ms.jpg)

publicado por V.A.D. às 23:30
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