Quarta-feira, 7 de Maio de 2008

Sequência Principal

Nascença, a fragilidade do ser aconchegando-se no peito da progenitora, a dependência absoluta transformando-se paulatinamente na autonomia crescente dos anos que passam, plenos de novidade e prodígio, as descobertas sucedendo-se numa esfusiante cadência feita de brincadeiras e percepções, o mundo crescendo num permanente alargar de horizontes… Experimentação, as inúmeras possibilidades mostrando-se-lhe num caleidoscópio de simetrias multicolores e variáveis, a juventude avocando a natural irreverência de quem crê tudo poder... Emancipação, a dureza desafiadora das responsabilidades assumidas afigurando-se-lhe estimulante, as escolhas sendo feitas em impulsos, as emoções manifestando-se na indizível doçura de um amor consequente e prolífero… Domínio, o doce sabor do poder e dos feitos, a preciosa negação da insondabilidade dos mais profundos mistérios, a férrea vontade de caminhar no sentido da descoberta, a inacabada aprendizagem conferindo-lhe a convicção de pouco saber, o pouco que sabe parecendo-lhe insuficiente, a apressada procura de colmatar as lacunas fazendo-o sentir que o tempo escasseia… Decrepitude, a imponderabilidade das noções absurdas, a trémula incerteza do que há para vir, a irrealidade dos raciocínios impérvios assomando-se, estranha e incoerente, emaranhando a existência nos fios pegajosos da demência, ossos e músculos acusando o ónus das décadas… Decessa, nada mais que o vazio, a individualidade evolando-se em memórias que não passam de resíduos etéreos daquilo que fora, a identidade dissipando-se no irrevogável substrato do tempo, a espuma fantasmagórica da sua mente ficando somente registada nas palavras insistentemente grafadas em formato digital, até que o próprio suporte se desfaça…

Imagem: Mãos (www.europarl.europa.eu/eplive/expert/photo/20071107PHT12721/pict_20071107PHT12721.jpg )


publicado por V.A.D. às 03:00
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Quarta-feira, 9 de Abril de 2008

Perceber

“Não quero ter pressa. Quero ser capaz de passar pelo tempo como se ele fosse minha propriedade, o andar decidido e a cabeça erguida assinalando aquilo que sou. Quero parar pelo caminho num reacender de memórias, a renovação de quem sou sendo feita pela condensação num momento inacabável daquilo que é intemporal. Quero olhar o futuro em todas as direcções, escolhendo, mesmo que o erro seja manifesto, um passo atrás não representando mais do que a consciência de que o desacerto é parte do inacabável processo de aperfeiçoamento. Quero saber da alegria de reencontrar velhos amigos, perdendo-me em conversas sem prazo delimitado, comprazendo-me com as vivências, assimilando as experiências, aprendendo que pouco sei. Quero admirar a subtileza de pequenos gestos, a gratidão interpretando a reciprocidade e não simulando o pagamento daquilo a que se não deve atribuir um preço. Quero partilhar-me, as minhas faces desiguais sendo mostradas sem dissimulações ambíguas e artificiais. Quero aperceber-me das peculiaridades de mim mesmo para almejar o entendimento dos outros. Preciso, para tudo isso, de me alienar do constante tiquetaque que me enche, ouvidos e mente, de uma ânsia abstrusa de chegar a lado nenhum…!“

V.A.D.                                 

Imagem: Espelho (http://img.photobucket.com/albums/v160/darkloud/MirrorHand2.jpg)


publicado por V.A.D. às 02:00
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Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

O Velho

                  

Sobre a planura desértica, um halo de radiância avermelhada afundava-se no negrume frio do céu estrangeiro, poucos graus acima do horizonte longínquo. Curvado sob o peso da carga, um ente antropomórfico caminhava lentamente na penumbra, os pés arrancando torvelinhos de poeira da secura de um chão tão morto quanto o próprio mundo, a sua fantasmagórica sombra esboçando-se sobre o solo pedregoso em contornos esbatidos, desdizendo a quietude da paisagem numa efémera afirmação de vida, as roupas pesadas e puídas toldando-lhe os movimentos e conferindo-lhe uma aparência pouco humana. A intervalos regulares detinha-se, o tronco rodando, a cabeça enviesada perscrutando o trilho já percorrido em jeito de avaliação, o sopesar do esforço numa tentativa de perceber o resultado, a respiração ofegante traduzindo a fadiga de incontáveis dias. Houvera um tempo antes e ele fora dono da existência, nenhum caminho parecendo demasiado penoso, nenhuma energia querendo ser definitivamente exaurida num bafejo vazante de renúncia. Agora, o arrebatamento de outras épocas desaparecera, esmagado pelo inelutável escorrer das décadas, cada passo representando a aproximação do término. Deitou-se, deixando que por fim as trevas desencorajadoras o envolvessem num silêncio gritado em suspiros de resignação, a meditação sobre o que o trouxera à Terra enchendo de débeis pensamentos a mente prostrada. O velho, fechando os olhos lacrimejantes, deixou-se finalmente levar…

Vídeo: Old Man (Neil Young) (http://www.youtube.com/watch?v=Vef03k5i8VI)


publicado por V.A.D. às 01:26
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Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2008

Nascer

                 

Devia ter-me contentado com a permanência num lugar sem nome nem forma, as trevas densas e quentes aconchegando a mente entorpecida, a ausência de ser diluindo o senso e a memória, apenas uma arredada e imponderável sensação, vinda de qualquer parte incógnita, afirmando o existir? Devia ter-me deixado levar pelos difusos rendilhados do pensamento eterizado, a poalha de mim mesmo vogando nas cristas informes de sonhos desconexos, o sopro da eternidade adormentada espalhando ao vento a espuma da razão? Devia ter evitado a estranheza que retorce o espírito, o expressivo pressentimento de um Universo por apreender gerando espanto e curiosidade, a agitação da  demanda infindável corroendo e, simultaneamente, acoroçoando? Devia ter-me recusado a ver o céu que explode em azuis fulgurantes e a luz jorrando em caudais energéticos que tudo moldam, a epítome da vida sendo redigida perante os meus olhos? Devia ter-me demorado nesse local resguardado e protector, a voz calada e os ouvidos surdos acobertando-me da volubilidade do mundo, estas mesmas perguntas não podendo ser feitas, as respostas sendo desautorizadas pela falta de sentido? Não! Nasci porque tinha de nascer. Raciocino, sinto e maravilho-me!

Vídeo: Teardrop (Massive Attack & Liz Fraser) (http://www.youtube.com/watch?v=fG8eQBSp9Ao)


publicado por V.A.D. às 01:02
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Domingo, 6 de Janeiro de 2008

Tarde

E a chuva havia parado. À esquerda, a terra macia, lavrada de castanho-escuro, parecia exalar o cheiro de mil manhãs de orvalho, mas era numa tarde do princípio de um Janeiro qualquer, quando as nuvens plúmbeas encobriam o sol e o vento frio soprava, arisco, sobre os ramos nus das árvores do jardim, que a minha consciência assegurava estar. À minha frente, a extensão verde da relva era delimitada por um canteiro de rosas por desabrochar, encostado ao muro de tijolo rebocado, para lá do qual o marulhar da água, em corredura pela valeta, trazia à lembrança outros Invernos e o agradável barulho da regueira cheia, no cavado do pequeno vale adjacente à velha casa da minha meninice, a grossa porta de madeira, adjacente ao pátio encharcado, servindo de acesso ao palheiro desnivelado, onde os voos em queda livre se faziam a partir do lintel, um ou dois metros acima do nível da palha solta que amortecia a queda e fazia sonhar com aventuras aéreas, um batalhão de pára-quedistas saltando para um território inventado. Indeclinável, o recuo a um tempo em que as tardes depois da escola eram passadas em brincadeiras soltas, o irmão e os primos como camaradas, o aguaceiro caindo lá fora ressoando nas telhas sobre os barrotes assentes na espessa viga mestra, contradizendo a sequidão da forragem enxuta…

Imagem: Chuva (http://tn3-2.deviantart.com/fs6/300W/i/2005/071/2/f/Rain_by_silent_reverie.jpg)


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Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007

Lugar

                 

Há uma qualidade estranha nesse lugar, uma ambiência excepcional, uma beleza surreal, dificílima de conceber e impossível de explicar. Podia ser um sítio vulgar, bom para se viver uma vida simples e normal. Lá, a vida sabe a sal, é amena e cheira a maresia. Tem um toque de magia e revela-se fabulosa. Lá, não há nenhum mal, nada pode ser fatal. Existência harmoniosa, plena de tudo, nada vazia. Nesse lugar de sentidos em orgia, passo parte do tempo que passa. Retiro a sufocante mordaça, faço do sonho, realidade. Dando largas à minha alegria, em assomos de rebeldia, refuto a fria verdade. Desfaço-me da carapaça, elevo-me como fumaça, demudo-me em energia, abandono a face sombria, desligo-me da matéria e olvido qualquer desgraça. Desatando o nó que embaraça, torno-me consciência etérea, no delírio da Utopia…

Vídeo: Utopia – Video Proposal (Jackson and His Computer Band) (www.youtube.com/watch?v=7PKRsKNpteM)


publicado por V.A.D. às 02:00
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Domingo, 9 de Dezembro de 2007

Sonho Surreal

Sei os símbolos e o que eles significam, mas não conheço os sons que lhes correspondem. Vejo imagens gerando-se na minha mente, a cada ideograma que se forma na retina, sem que perceba o que representam. Sinto na pele o toque frio do metal, sem que esteja cônscio da sua dureza. Ouço a música que baila nos meus ouvidos e não entendo a sua cadência. A mão insubstancial desenha espirais no ar, quais vórtices de excelsas maravilhas, e nada conheço de geometria, embora diferencie facilmente o tempo das restantes coordenadas. Não me importo de estar ausente de mim, as dimensões estendendo-se até ao infinito de uma singularidade, a multiplicidade resumindo-se a tudo e a coisa alguma, num absurdo e risível paradoxo. Desejo-me revérbero de um simples pensamento, eco da profusa energia contida em um grama de matéria, fluxo de neutrinos gerados em decaimentos beta no coração das estrelas, o negrume da noite pousando na escuridão do sono, o sonho administrando uma realidade que não sei bem o que significa. Quero-me acordado, mas não me apetece acordar. A felicidade não é mais que o ajuste perfeito à ambiência singular em que se vive…

Imagem: Sonho Surreal (www.art.eonworks.com/gallery/surreal/dream_image-200203-SM.jpg)

música: Was It A Dream (30 Seconds To Mars)

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Segunda-feira, 16 de Julho de 2007

Biologia Transcendental (III)

Façamos uma breve consideração sobre o sistema límbico. Antigamente, pensava-se que esta área do cérebro relacionava-se exclusivamente com o sentido do olfacto; hoje, porém, sabe-se que ela está na base dos impulsos da alegria, da raiva, do sexo e da fome. Mal nos começámos a dar conta da extensão e da subtileza com que as nossas emoções, controladas pelo sistema límbico, permeiam cada aspecto do nosso comportamento. Não é de excluir a hipótese que os estados alterados de consciência sejam provocados por uma interacção perfeitamente sincronizada entre este sistema e o lóbulo parietal inferior do cérebro direito. Em situações assim, quando este hemisfério revela à consciência certas percepções transcendentes, o despertar emocional é tão intenso que o cérebro esquerdo acaba por se convencer que elas têm validade, originando-se uma sensação de total comunhão entre o Eu e o Cosmos, aquilo que é chamado de Unidade Absoluta do Ser

Imagem: Sistema Límbico (www.geocities.com/alexeiplatypus/sistema_limbico_icon.jpg)

música: Secret Smile (Semisonic)

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Quinta-feira, 5 de Julho de 2007

Biologia Transcendental (II)

Normalmente, no nosso cérebro, as informações são transmitidas do hemisfério direito para o esquerdo através de uma espessa faixa de fibras nervosas, o corpo caloso. Contudo, nos casos alterados de consciência, existe uma espécie de desvio espiritual: os dados são encaminhados através do lóbulo parietal inferior do hemisfério direito, passando pelo sistema límbico, que pode, de certa forma, ser comparado a um centro de controlo das emoções. A maioria das mensagens enviadas pelo hemisfério cerebral direito é descodificada pelo hemisfério esquerdo e reinterpretada na sua própria linguagem analítica. Cabe lembrar que a comunicação verbal é função do cérebro esquerdo e que a forma como este processa os dados é tão-somente uma aproximação à mensagem original emitida pelo direito. Desta forma, por exemplo, a maior parte daqueles pensamentos desencadeados pela observação de uma paisagem majestosa ou de um pôr-do-sol esplendoroso, que poderiam despoletar sensações demasiado vagas e metafísicas para o hemisfério esquerdo, jamais penetram no domínio da mente consciente. Em circunstâncias vulgares, o máximo que se faz é um comentário, um chavão, a respeito da beleza da vista ou das cores do crepúsculo. (Continua)

Imagem: Corpo Caloso (www.brainexplorer.org/brain-images/corpus_callosum.jpg)

música: Karma Police (Radiohead)

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Terça-feira, 3 de Julho de 2007

Biologia Transcendental (I)

Os processos neurológicos subjacentes àqueles episódios de regozijo que acompanham o acto de resolver um problema difícil, ou àquela sensação de júbilo que nos inunda quando observamos um crepúsculo particularmente belo, ou ainda àqueles lampejos de inspiração que por vezes nos conduzem a um estado alterado de consciência, em que nos sentimos uma parte pequena mas importante do Universo, talvez expliquem como o cérebro interage com a impalpável realidade da mente. As alterações espontâneas dos estados de consciência podem ser entendidas através de modelos neurológicos propostos por alguns pesquisadores. Cada um dos hemisférios cerebrais tem o seu conjunto de funções específicas, sendo o esquerdo o responsável pelo pensamento lógico e analítico, enquanto o direito controla as aptidões artísticas, musicais e estéticas. Ou seja, o cérebro direito está associado a uma apreensão mais imediata da totalidade, enquanto que o esquerdo precisa de tempo para assimilar partes mais ou menos compartimentadas do mundo que os sentidos lhe fazem chegar. (Continua)

Imagem: Actividade Neurológica (www.theodynamics.com/boss/BOSSsymbol1.jpg)

música: Moody (Nouvelle Vague)

publicado por V.A.D. às 02:40
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