Quarta-feira, 18 de Junho de 2008

Ponto Zero

“Acordou a meio da noite, incapaz de conciliar o sono que o corpo pedia com a apreensão que teimava em insinuar-se a cada raciocínio, os pensamentos virando-se para estranhas especulações, uma aflitiva perturbação roubando-lhe a serenidade desejada, o esgotamento adensando-se, lodoso e negro. Abriu os olhos apenas para nada ver, a escuridão informe envolvendo-o num frio imaginário, o calor da noite estival negando-se a invadir-lhe o âmago gélido de espanto. Basto não lhe era o tempo, nenhum lugar se lhe afigurava adequado naquele limbo absurdo e caótico entre universos. Sentira-se capaz de atingir a mais absoluta das verdades, a solução última para as carências afigurara-se-lhe tão tangível quanto os pares de partículas em perpétua génese a partir do nada. E tudo se dissolvera num afastamento irremediável, como se um simulacro do efeito Casimir se tivesse insurgido contra esse contacto com a mais profunda e inextinguível das energias, o desencanto do descaminho abalando-o, a noção de insuprível falha fazendo-o sentir-se culposo. Cerrou as pálpebras, num deliberado esforço. A seu lado ela dormia, a cadência suave da sua respiração actuando como um soporífero, a placidez regressando paulatinamente até ao esquecimento das horas ausentes…”
V.A.D. em Ponto Zero
Imagem: Efeito Casimir (http://apod.nasa.gov/apod/image/0612/casimirsphere_mohideen.jpg)

publicado por V.A.D. às 03:00
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Quarta-feira, 30 de Abril de 2008

Luz (II)

“Luzes piscaram, frenéticas, a advertência de que o gerador iria ser colocado no ralenti, conforme preestabelecido, tomando a forma de indicação visual. Apercebeu-se do abrandamento, o zumbido que se lhe instalara em todas as fibras diminuindo até à cessação completa, o silêncio emudecendo o frenesi dos parsecs galgados sem tempo, novamente a invulgar noção de se separar de um corpo que se tornava indistinto, a névoa refulgente afigurando-se-lhe aliviada dos vinte e um gramas de si próprio. Curta foi a separação, a unicidade manifestando-se imperativa logo que no visor principal as décimas desciam abaixo de nove, a apneia transformando-se num suspiro, diafragma e músculos intercostais relaxando-se controlada e conscientemente para evitar a vertigem da fusão. Derivava agora no pélago estrelado da noite espacial. Deixara atrás de si o Sol reduzido a um pequeno círculo luminoso que prescindira de ferir a vista, os instrumentos de medida confirmando os cálculos efectuados meses antes, as mais de vinte e três mil Unidades Astronómicas transitadas podendo ser inequivocamente lidas no mostrador apropriado. Ligou os foguetes de manobra, a trajectória sendo corrigida até de novo ter a estrela à sua frente e quedou-se, deixando que alguns minutos passassem, deslumbrando-se com a solidão negra que o envolvia. Recompunha-se, assimilando a magnitude do engenho humano, preparando-se para o salto que o levaria de novo a casa, a estação espacial em órbita da Terra representando o lar que escolhera.

Regressou, duzentos e setenta dias mais tarde, a tempo de assistir ao nascimento do seu filho, concebido na noite antes da partida. Para ele, menos de uma hora havia transcorrido… Conquistara o futuro, a máquina provando o inequívoco mas paradoxal entrelaçamento entre velocidade, espaço e tempo.”

V.A.D. em Luz

Imagem: Estação Espacial (http://www-cache.daz3d.com/store/item_file/3564/image_medium.jpg)


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Segunda-feira, 28 de Abril de 2008

Luz (I)

“Primeiro, um tremendo bramido fez-se sentir, o corpo estremecendo mais que os ouvidos percebendo o som, a liga metálica da nave insurgindo-se contra a violência a que as leis relativíssimas a submetiam, uma chispa estonteante desfazendo a escuridão do vazio, enchendo de uma fantasmagórica claridade azulada a exígua cabine onde se encontrava, a radiação fria unindo-se à lividez do seu rosto marcado pela temerosa estupefacção. Depois, a incompreensível sensação de se descorporizar, a matéria de que ele também era feito transfigurando-se numa incongruente sombra estendida atrás de si, cada átomo isolando-se dos outros, as moléculas desagregando-se num fulgor que parecia conter a luz das estrelas. Lentamente, à medida que a aceleração abrandava, a mente reuniu-se ao corpo, a integridade enquanto organismo manifestando-se num arquejo incontido, o oxigénio puro a metade da pressão à superfície da Terra sendo inspirado profunda e demoradamente num fôlego de vida reencenada. Olhou o ecrã de organic-led, 1c agigantando-se a vermelho sobre o fundo negro…! Por um instante construído de eternidade, todo o espaço condensou-se num só ponto, os mostradores do painel enlouquecendo, os dígitos sucedendo-se numa inacreditável cadência, a distância percorrida superando os limites da imaginação humana, o Universo contorcendo-se sobre si próprio para acomodar o trânsito da cápsula que nada mais era agora que energia…”

V.A.D. em Luz

Imagem: Luz (original em http://orbitingfrog.com/blog/wp-content/uploads/2007/07/opo9603a.thumbnail.jpg)


publicado por V.A.D. às 15:00
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Domingo, 17 de Fevereiro de 2008

O Caos, O Acaso e A Borboleta

                   

Aquilo a que comummente se chama de acaso não passa de uma medida da ignorância, a disfarçada incapacidade de apreensão de todos os pormenores obrigando ao uso de um termo inadequado, a inabilidade de descortinar todas as cenas da peça levando à inadmissível exclusão do princípio de causalidade, a impossibilidade de reter cada um dos incontáveis eventos tornando indefinido cada um dos futuros possíveis, a mente sendo incapaz de abranger as infinitas variáveis de um Universo em permanente mutação. Algures, no mundo que partilhamos com Edward Lorenz, uma borboleta abandona uma flor, os subtis vórtices sob as suas frágeis asas gerando imperceptíveis correntes de ar, um pequeníssimo distúrbio da condição inicial trazendo consequências insólitas a milhares de quilómetros e duas semanas de espaço-tempo, o sistema físico onde vivemos apresentando-se-nos definitivamente como não-linear. Existem causas para tudo mas, quando multiplicadas numa figuração ainda que apenas aproximada à realidade, obtém-se uma caótica complexidade da qual será difícil extrair sentido aparente… Será mesmo assim? O caos pode ser assimilado e compreendido, a matemática revelando-se a derradeira ferramenta do conhecimento, a ciência da desordem estudando o comportamento aleatório, modelando-o e afirmando que, embora ocorram anomalias intrincadas, nem a casualidade escapa cabalmente às leis da Natureza…

Vídeo: Atractores Estranhos: Ordem no Caos (www.youtube.com/watch?v=SGWgCffiW4c)

Música: Mira Verra Qui a Virtus – Vision Leads to Virtue (Whisper Of The Garden)


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Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

A Vida (II)

                  

A recente descoberta de aminoácidos nas nuvens de poeira das profundidades do espaço é um sinal de que a prodigiosa química da vida pode não ser tão rara quanto pensávamos, os seus tijolos básicos estando disponíveis em lugares inusitados, sementes aguardando um local propício ao desenvolvimento, órbitas descentradas, cometas ou meteoritos caindo sobre planetas hospitaleiros arremedando a mão do semeador. Começámos ainda agora a procura de vida noutros planetas. Descartando o projecto SETI, cujo intuito é a busca de inteligência extraterrestre, só há muito pouco tempo foram lançadas missões, a planetas do nosso sistema solar, com verdadeiras hipóteses de fornecer resultados esclarecedores. A odisseia espacial está a dar os primeiros passos; exige-se paciência e fundos. A recente descoberta de inúmeros exoplanetas representa a certeza de que outros sistemas planetários são uma realidade, dando-nos a esperança de que algum deles abrigue vida. As probabilidades de a encontrarmos são pequenas mas, sob o meu ponto de vista, não podem nem devem ser postas de parte. Porque acredito que, tal como o sonho, a busca deve ser uma constante da vida…

Vídeo: Exoplaneta em Zona Habitável (www.youtube.com/watch?v=5w7NUsBcgyw&NR=1)


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Segunda-feira, 31 de Dezembro de 2007

Breve História de Tudo (III)

                 

Inscritas em seis milhões e meio de anos, as marcas da inteligência vêm-se aprofundando, desde que, nas savanas do Sahel, os antepassados de nós próprios se ergueram, o Chade apadrinhando o mais antigo hominídeo conhecido, a evolução trazendo habilidade e sofisticação crescentes, a comunicação verbal e a expressão artística afirmando uma auto consciência cada vez mais firme, a capacidade de adaptação determinando a sobrevivência. Cento e setenta mil anos foram dissolvidos no rio da humanidade; descendemos de uma Eva negra, a migração de há cinquenta mil anos levando o homo sapiens para fora de África num imparável preencher de continentes com a espécie à qual pertencemos. Alguns membros da família humana desapareceram nas brumas de passados longínquos, outros ainda foram contemporâneos do Homem, a inaptidão ou a miscigenação levando a um fim de modo algum inglório. A árvore da vida é feita de incontáveis ramificações, o tronco assente sobre as raízes das primeiras moléculas capazes de se auto-copiar, cada ser à face do planeta descendendo de um antepassado comum, quatro mil milhões de anos de evolução contínua gerando a indescritível e maravilhosa miríade de organismos. Um novo ano acerca-se rapidamente. Que em 2008 sejamos capazes de enaltecer o prodígio da vida!

Vídeo: Evolução Humana (www.youtube.com/watch?v=ZQrkJchlldA)

 

Feliz Ano Novo!


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Domingo, 30 de Dezembro de 2007

Breve História de Tudo (II)

                  

A vida está em todo o lado, desde os mais profundos abismos até às altitudes elevadas, desde os vales mais secos até às montanhas geladas, desde a temperada superfície continental até aos mananciais ferventes do leito oceânico. Começou com uma simples molécula de RNA, capaz de criar réplicas dela própria, a energia e os aminoácidos em profusão proporcionando o assombro. Adaptou-se, evoluiu e conquistou o planeta. Diversificou-se no período Câmbrico, há mais de meio milhar de milhões de anos, como nunca havia sucedido, a invenção da reprodução sexuada facultando a explosão de novas espécies num intervalo de tempo absurdamente curto, a inovação permitindo a ocupação de novos nichos ecológicos, os organismos de complexidade cada vez maior saindo do oceano para avassalar terra firme. Incontáveis espécies floresceram e viram descer sobre elas as trevas da extinção, a competição ou os cataclismos determinando um fim abrupto. Outras tantas ainda hoje se mantêm à face do planeta, contendo ainda parte dos genes originais, mas dissemelhantes do que foram. Há sessenta e cinco milhões de anos, após o fim dos dinossáurios, um grupo de pequenos, nocturnos e arborícolas mamíferos insectívoros, chamados Euarchonta, inicia a especialização que irá resultar nas ordens dos escandentes, dos lémures voadores e dos primatas. Eram os primeiros esboços da humanidade.

Vídeo: Vida na Terra (www.youtube.com/watch?v=Cghq8gA398s)

Música: Sìgur Ròs


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Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2007

Breve História de Tudo (I)

                   

E a matéria e o tempo nasceram com o Universo, cada um deles representando o papel que a Grande Arquitecta lhes conferiu, engendrando subtis e grandiosas coisas que a nossa mente e os nossos olhos, atentos, podem perceber. Emanámos do interior das estrelas, há milhares de milhões de anos, sob a forma de elementos nascidos da fusão nuclear, os tijolos antigos da nossa construção a serem agregados pelas forças originadas na grande explosão, a matéria diversificando-se em fantásticas transmutações energéticas, a tabela periódica ganhando conteúdo. No ilusório vazio das vastidões universais, a química pré-biótica gera as moléculas precursoras do prodígio da vida, o sortilégio dos aminoácidos resultando de ligações de átomos diversos ao carbono aglutinador, é como que semente a lançar à terra, as nuvens de poeira cósmica, os cometas e os asteróides disseminando a possibilidade biológica que vem a dimanar num pequeno planeta girando à volta de uma estrela comum, na periferia de uma galáxia como tantas mais, a panspermia garantindo a fecundação de um mundo até então inanimado. Nos mares da Terra, a agitação dos infindáveis ciclos de nascimento, reprodução e morte, substitui a esterilidade velha de três mil e quinhentos milhões de anos…

Vídeo: Origem da Vida - Panspermia (www.youtube.com/watch?v=x08ALWRar4E)


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Sexta-feira, 23 de Novembro de 2007

Mudança (VI)

                  

A mudança, tantas vezes repelida e indesejada pelos seres humanos, é indeclinável: está inscrita nos mais profundos níveis da realidade, desde os mais ínfimos e básicos tijolos da matéria, até às incomensuráveis estruturas cósmicas. O próprio tempo não é absoluto e varia, literalmente, numa relação inversamente proporcional à velocidade a que nos deslocamos. Se nada existe para além dos limites do Universo, a sua expansão implica geração do inerente espaço que, assim, deixa de ser, aos nossos olhos, uma entidade física estática e imudável. Se existe qualquer coisa, em vez do nada que antes existia, é porque a modificação é inelutável. A própria matéria não é eterna; até os quarks, existentes desde a alvorada da realidade,  desintegrar-se-ão, transformando-se em radiação, num futuro inconcebivelmente distante…

No plano filosófico, todas as verdades são permissíveis, mas o pragmatismo da ciência tem conseguido, nos últimos séculos, elaborar um modelo coerente e racional que, embora longe de decifrar tudo, possibilita um bom entendimento das coisas.

Vídeo: Excursão ao Espaço-Tempo (www.youtube.com/watch?v=PsG3qdKIKYE)

 


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Quinta-feira, 22 de Novembro de 2007

Mudança (V)

                  

Nascem astros em catadupa, uma vez mais a gravidade a ser protagonista, exercendo o seu efeito aglutinador, comprimindo a matéria abundante, elevando a temperatura até ao ponto em que os átomos de hidrogénio se fundem uns nos outros, ejaculando energia num nuclear êxtase de luz, gerando uma prole de novos elementos, parindo em tetania as peças elementares de que somos feitos. Discos de acreção, num remoinhante baile celeste, convertendo-se em minúsculas mas crescentes entidades, um cortejo protoplanetário em torno do luzeiro. Milhares de milhares de estrelas, aglomeradas em galáxias, vivendo até ao esgotamento do combustível, ruindo no final para dar lugar a uma nova geração, as ondas de choque dos estertores da morte servindo de rastilho à reorganização dos gases, um empurrão cinético que permitirá a ignição. Pélagos espaciais, milhões de anos-luz, preenchidos por longos e brilhantes fios galácticos, numa rede aparentemente homogénea e isotrópica, um universo finito mas ilimitado, expandindo-se eternamente ou, quem sabe, atingindo um ponto em que o retrocesso se tornará inevitável, até que, éons depois, a grande implosão tratará de devolver ao universo a singularidade. E o ciclo a repetir-se…

Vídeo: Nascimento, Vida e Morte de Uma Estrela (http://www.youtube.com/watch?v=za4KL0l89gw )

 


publicado por V.A.D. às 03:04
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