Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008

Telestesia (II)

                 

“Como a fragrância que se espalha ao sabor de um movimento etéreo, o aroma incorpóreo dos seus pensamentos atravessava os golfos da distância, o espírito reivindicando a plenitude de tudo tocar, o seu intelecto exultando com o percebimento de outros numa imprevisível singularidade. Via com clareza aquilo que outros olhos viam, nenhum segredo se lhe ocultava, nenhum sabor lhe era estranho. E, contudo, ansiava descobrir, por entre a amplíssima mole, aquela que o complementaria, que daria sentido à invenção insuspeitamente exequível de conhecer sem ter de estar, de se dar a perceber sem desvendar a substância, a imaterialidade dos raciocínios exteriorizando-se bastamente e ainda assim tão bastamente falha de um diálogo ansiado numa premência muda. Era extensa, a agra semeada de perguntas, tão imensa quanto a safra de respostas que tinha armazenado cuidadosamente nos silos frescos da memória que ia sendo arquitectada… Num lugar absurdamente próximo e tão paradoxalmente remoto, uma mente debatia-se na impugnação da velha lei da humanidade, a determinação de se desagrilhoar aniquilando o derradeiro obstáculo, a libertação assentindo finalmente a unicidade, a fusão de dois entes predestinados erradicando decisivamente a sombra num flamejante encontro.”

V.A.D. em Telestesia

Vídeo: Destiny (Zero 7) (http://www.youtube.com/watch?v=ZncATpZre_w)


publicado por V.A.D. às 02:20
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8 comentários:
De JoãoSousa a 15 de Fevereiro de 2008 às 22:04
Só para dizer que por aqui passei! quanto ao texto, desculpa-me, mas nem sei o que comentar! volto a repetir que és demais! :D


De V.A.D. a 16 de Fevereiro de 2008 às 02:00
Amigo, quero sublinhar que me agrada muito saber que passaste por aqui, e que os pensamentos que vou transcrevendo são, de alguma forma, interessantes... :-)

Agradeço-te as palavras; aproveito para te desejar uma óptima noite e um excelente fim-de-semana!

Um abraço.


De Emanuela a 16 de Fevereiro de 2008 às 01:19
Vad, muito difícil comentar este teu post... A intensidade das palavras, das frases...Não parece ser um simples exercício de escrita. Há uma profundidade muito grande de sentir nelas. Maravilhoso!
Beijo.


De V.A.D. a 16 de Fevereiro de 2008 às 02:12
Amiga, tento emprestar, àquilo que escrevo e àquilo que faço, a profundidade que me é possível, menor em certas ocasiões que noutras, mas sempre aquela que se encerra nos pensamentos... Às vezes, esse exercício de me "ausentar" de mim próprio resulta razoavelmente bem, mas nada mais é que ficção, a ideia de a mente ter capacidades ainda desconhecidas arrastando-me para estas lucubrações... :-)

Desejo-te uma óptima noite e um excelente fim-de-semana!

Um beijo e um enormeeeeeeee sorriso... :-)



De **** a 16 de Fevereiro de 2008 às 15:15
“o espírito reivindicando a plenitude de tudo tocar” – Acho que todos acabamos por ter esse desejo, se bem que os pensamentos de uns tenham um perfume mais perene e o de outros não consiga atravessar “golfos” tão integramente.
Poder usar essa capacidade de telestesia para perscrutar o “percebimento dos outros” é algo estranho e maravilhoso como tal. “Via com clareza aquilo que outros olhos viam, nenhum segredo se lhe ocultava, nenhum sabor lhe era estranho.” – contudo há imagens que desejaríamos nunca ter visto, segredos que preferiríamos que se mantivessem assim e sabores que nos amargam o palato. Saber sempre o que os outros pensam e sentem a cada instante (sem que o consigamos evitar) pode ser prático por vezes, mas toda essa fluência de informação deve tornar-se insuportável e dolorosa em certo ponto. Tem um tanto de dom e outro tanto de maldição, resta saber para que lado tenderia a balança.

"a fusão de dois entes predestinados erradicando decisivamente a sombra num flamejante encontro" - Como é frequente, o final dos textos é simplesmente fantástico. Numa metáfora gasta, insípida e desinteressante - é a cereja no topo do bolo, uma cereja que causa um impacto inexplicável, incontestável, inabalável nas papilas gustativas.

Beijos
Boa agra e melhor safra

Sophia


De V.A.D. a 16 de Fevereiro de 2008 às 22:09
Tenho numa das minhas estantes, aguardando a oportunidade de ser lida, uma pequena mas creio que fantástica obra de Curt Siodmak (a sinopse que tive oportunidade de ler assim o indicando), chamada "O terceiro ouvido". O livro aborda essa temática: um bioquímico desenvolve uma poção capaz de induzir a percepção extra-sensorial e, obviamente, serve-se dele mesmo como cobaia. Até conseguir fazer uma filtragem adequada do incomensurável ruído que lhe chega a essa espécie de novo sentido, vê-se sufocado por uma dose maciça de palavras, de imagens, de sons, a quantidade de informação ao seu dispor ameaçando-lhe a sanidade. Não sei de que forma o protagonista aprendeu a lidar com esta inusitada situação, mas suspeito que se tenha arrependido muitas vezes de a ter criado.

Ainda assim, amiga, imaginar a possibilidade de podermos libertar a nossa mente e fazê-la viajar para além dos limites físicos é algo que me apaixona. Neste texto, nem contemplei a hipótese de que ela se pudesse ressentir das experiências menos favoráveis pelas quais teria certamente de passar. O enfoque estava, sobretudo, nesse fabuloso êxtase que seria a fusão de duas mentes que se complementariam, atingindo aquela sensação de plenitude que talvez seja conhecida como felicidade absoluta... :-)

Não há verdadeiramente metáforas gastas e insípidas, e gosto particularmente de cerejas, ehehehehe :-))
Fico satisfeitíssimo por saber que consegui causar um impacto assim. Agradeço, uma vez mais, a tua saborosa amabilidade e aproveito para te desejar um óptimo final de sábado, bem como um domingo cheio de doçura!

Um beijo e um enormeeeeeee sorriso... :-)


De mnike30 a 16 de Fevereiro de 2008 às 22:04
(lendo-te deliciada...)
Adoro as tuas gradações!
Keep going... eu estou atenta...

Beijinhos sempre sorridentes


De V.A.D. a 16 de Fevereiro de 2008 às 22:38
Escrevo essencialmente pelo prazer de o fazer, tendo a consciência plena de que o que "construo" pode ser pouco melhor que mau. Perceber, através dos comentários aqui deixados por quem muito amavelmente me lê, que consigo transcrever razoavelmente a intensidade de alguns pensamentos que me cruzam a mente, constitui motivo de grande satisfação, para além de representar um impagável incentivo.
Por isso, amiga, I'll keep on going, thanking you for being so kind! :-)*

Desejo-te um excelente final de sábado, e um magnífico domingo!

Um beijo e um enormeeeeeeee sorriso... :-)


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