Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2008

Insectos (IV)

“A primeira das muitas dezenas de naves-colónia interceptava agora a órbita do décimo e último dos planetas que compõem o sistema de Mizar. Dentro de algumas horas, os poderosos motores químicos funcionariam de novo para iniciar a travagem, a alteração de velocidade permitindo que a gravitação do corpo celeste prendesse a máquina com fios imaginários, o metabolismo dos seus passageiros sendo gradativamente acelerado pela energia recolhida dos sóis gémeos, o estado de dormência longo de alguns anos sendo substituído pela frenética actividade de apresto para a invasão. A eusocialidade dá a cada casta uma função específica, a rígida hierarquia traduzindo-se num funcionamento síncrono do numeroso grupo, as feromonas enchendo o ar pesado com ordens e comunicados. Diversos veículos de caça haviam sido já enviados para o alvo, os batedores tendo como legacia a averiguação de ameaças. Um contínuo fluxo de informação inundava a ponte de comando, o marechal-de-campo e os adjuntos analisando os dados fornecidos pelos aparelhos de entrelaçamento quântico que mimetizavam instantaneamente as moléculas orgânicas segregadas pelas glândulas comunicacionais dos guerreiros e dos dispositivos sensoriais incorporados nos próprios veículos. A certo ponto, algo definitivamente desigual diferenciou-se insidiosamente da regularidade expectável: um objecto voador não identificado acabava de ser abatido…”

V.A.D. em Insectos

Imagem: Insecto (http://piclib.nhm.ac.uk/piclib/webimages/0/30000/300/30302_med.jpg)

música: The Blinding Sun (Gustavo Santaolalla)

publicado por V.A.D. às 01:16
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10 comentários:
De **** a 6 de Fevereiro de 2008 às 08:19
"as feromonas enchendo o ar pesado com ordens e comunicados" - algo fascinante, mas muito difícil de imaginar. Uma sala de comandos devia estar cheia de ruídos, de vozes de diferentes timbres, de conversas, burburinhos e sussurros que misturados dão uma verdadeira vivência ao local. Uma sala assim seria estranha, só com o barulho das mandíbulas a baterem umas nas outras e talvez o ruído do arrastar das cadeiras (se é que estas estranhas personagens se necessitarão de sentar ou terão algo que remotamente tenha algumas parecenças com uma cadeira)
Quanto à “a rígida hierarquia traduzindo-se num funcionamento síncrono do numeroso grupo”, estão realmente em vantagem em relação a nós. Muitas vezes somos incapazes de dissolver o caos que nós mesmos criamos, não nos sendo completamente intrínseco esse seguimento de ordens de forma inquestionável – atrasa-nos, talvez, mas também tem impedido algumas atrocidades em prol da humanidade.
Boa continuação do conto que não tem desiludido em nada.

Beijos
e muito boa noite para ti, a mim está-me mesmo a apetecer ir ver o céu, não à procura de OVNI's (desta ou de outra galáxia) ou de naves-colónia, mas simplesmente de estrelas cintilantes

Sophia


De V.A.D. a 7 de Fevereiro de 2008 às 01:24
Qualquer forma de comunicação diferente daquela a que estamos habituados é-nos de difícil apreensão e causar-nos-á sempre estranheza. Tento utilizar, no conto, algumas das especificidades que tornam os insectos tão desconformes aos nossos olhos, baseando-me, para isso, nas informações disponíveis sobre a sua organização e comportamento. Quando era miúdo, gostava de observar as formigas e a forma como pareciam saber o que lhes competia fazer, maravilhava-me com os carreiros que, supunha eu, teriam de estar assinalados de alguma forma, pois os pequenos animais percorriam-nos sempre como se de uma auto-estrada se tratasse. Descobri, algum tempo depois, que usavam uma espécie de marcadores químicos, segregados por glândulas especializadas. E se as feromonas forem usadas de maneira a permitir uma comunicação bilateral, em vez de servirem como meros "marcos miliares"...?

A maioria das sociedades humanas estão, felizmente, longe dos padrões hierarquizados que tento mostrar na história, excepção feita, talvez, ao sistema de castas que vigora na Índia. Pobres daqueles que nascem pobres: dificilmente alcançarão o mínimo exigível para uma vida decente...
Enfim, não sou sociólogo, mas não deixo de pensar em todas estas questões e de concluir que, embora nos queixemos – somos eternos insatisfeitos – na verdade os nossos padrões de vida não são assim tão maus...

Agradecendo as tuas amáveis palavras, formulo o desejo de que a tua noite, amiga, possa estar repleta de estrelas cintilantes e de momentos agradáveis!

Um beijo... :-)


De S a 6 de Fevereiro de 2008 às 10:43
olá... parabéns. passei e apeteceu-me deixar a vénia


De V.A.D. a 7 de Fevereiro de 2008 às 01:29
Olá :-) Agradeço a tua visita, assim como a amabilidade das palavras que aqui deixaste.
Fico muito satisfeito por saber que este espaço é, de alguma forma, agradável... :-)
Esperando que as visitas se repitam, desejo-te uma excelente noite!

Um beijo... :-)


De Cöllyßry a 6 de Fevereiro de 2008 às 19:36
Insectos,terei que voltar e ler com muita atenção,como é dificil comentar!!!!

Meu doce beijo deixo


De V.A.D. a 7 de Fevereiro de 2008 às 01:32
É mais uma das minhas titubeantes aventuras no mundo da ficção científica... Sei que o tema nem sempre é gerador de interesse, mas espero que a história consiga agradar... :-)
Desejo-te uma excelente noite, amiga!

Um beijo... :-)


De Emanuela a 7 de Fevereiro de 2008 às 01:18
Bem, nestes momentos só nos resta mesmo as expectativas: de esperar a continuação do conto, descobrir se afinal o objeto voador foi identificado, o que será feitos dos tripulantes e quem são eles...Fico na espera!
Beijos...


De V.A.D. a 7 de Fevereiro de 2008 às 01:39
Amiga, o objecto voador era aquele em que seguia o humano, abatido no início do conto... Causou estranheza aos insectos, por representar algo de inesperado, no contexto de uma invasão eminente e supostamente planeada. O marechal-de-campo apercebeu-se da incongruência, mas é provável que não reaja adequadamente... Isso talvez se revele fatal para o propósito dos insectos... :-)
Desejo-te uma noite muito, muito agradável, amiga!

Um beijo... :-)


De dhyana a 9 de Fevereiro de 2008 às 14:14
Adorei a imagem e esta ideia de insectos entusiasmou-me ;)
...


De V.A.D. a 9 de Fevereiro de 2008 às 22:39
Também considero fantástica, esta imagem que encontrei na internet. As garras, aparentemente preênseis, dão a ideia de habilidade e reforçam a hipótese de inteligência...
Confesso-te que não gosto de insectos: acho-os repugnantes, sem que contudo me considere insectofóbico. No entanto, achei que a ideia de usar no conto seres com estas características tinha algum potencial. Espero que o resultado se tenha revelado interessante... :-)

Um beijo... :-)


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