Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008

Insectos (III)

“Acordo entre a pureza de paredes abobadadas e imaculadamente brancas, brilhando com a luminosidade própria das moléculas orgânicas desenvolvidas pelos autóctones, a bioengenharia constituindo a expressão máxima da tecnologia dos aliados. Não sinto dores e a perna parece responder na perfeição às ordens que o meu cérebro emite. Instintivamente, percebo estar num nosocómio, o gel translúcido onde o meu corpo está mergulhado fazendo o trabalho de reconstrução dos tecidos danificados pela queda da nave, abatida por uma patrulha de insectos, o cerco fechando-se inexoravelmente sobre o quarto planeta do sistema mizariano. Acompanhado de um intérprete, o Kriegsherr planetário entra na divisão e o seu corpo esguio e cinzento inclina-se numa vénia, ao mesmo tempo que a bolha que me envolve se esvazia, nove décimos da gravidade terrestre fazendo assentar os meus pés descalços num chão que parece veludo. Depois de um duche ultra-sónico, cubro a minha nudez com o fato de voo cuidadosamente reparado por engenhosas mãos e sigo-os até à brisa morna do exterior. Aguarda-nos um veículo automático que nos transportará até à sede do governo, os planos de retaliação cuidadosamente preparados e contidos na minha cabeça havendo de ser apresentados e discutidos, o poder de uma aliança improvável proporcionando a única esperança contra os ventos de destruição soprados pelos enxames desapiedados…”

V.A.D. em Insectos

Imagem: Homem numa Bolha (original em www.rps.psu.edu/0101/graphics/BubbleMan.jpg)
música: War (Bruce Springsteen)

publicado por V.A.D. às 01:56
link do post | comentar | favorito
|
6 comentários:
De dhiana a 5 de Fevereiro de 2008 às 14:38
Acabo de acordar de péssimo humor! Pior do que se tivesse acordado num "nasocómio" como tu dizes... Decidi ler-te.
Gostei do intérprete, o Kriegsherr, e do seu corpo esguio... agora a ideia de ir à sede do governo... vou esperar. Ansiosa.
... Estou a ver o Asterix...
Sendo assim, um abraço do tamanho de um Menir.


De V.A.D. a 6 de Fevereiro de 2008 às 01:49
Em geral, o meu humor ao acordar não é dos melhores mas, ao fim de um bocadito, alegra-se-me a face e desvanece-se a indisposição... Hoje acordei tarde, o sono posto em dia evitando cenhos franzidos... :-)
O estado, tal como o conhecemos, não é uma instituição que nos deva merecer total respeito, pois os personagens que o representam padecem de diversos vícios... Contudo, este governo que aqui idealizo tende a representar os interesses dos seus representados...
Espero que a tua espera venha a valer a pena, amiga. Como sabes, tento construir algo que se revele interessante, mas sei que nem sempre atinjo esse objectivo.

Desejando-te uma excelente noite, retribuo o teu abraço e acrescento um enormeeeeee beijo... :-)


De Emanuela a 6 de Fevereiro de 2008 às 01:24
Bem, hoje um tanto "ouriçada", e com foto desnuda mais a tua nudez( depois coberta com o fato de voo, mas aí o pensamento já havia voado)... Ficou difícil a concentração na leitura. Mas, voltemos à ela e aguardemos para ver no que darão os planos tão cuidadosamente preparados... (desculpe as gracinhas, tá?)
Um beijinho, e que a tua semana possa ser livre de insetos!


De V.A.D. a 6 de Fevereiro de 2008 às 01:58
Ehehehe, até parece que o meu texto é assim, provocador e gerador de inusitadas desconcentrações...! Ora, sabes que não há nada a desculpar! As brincadeiras são sempre salutares, amiga!
Ainda não sei bem como vai ser o desenrolar da história, embora no final que tenho delineado na minha mente, a aliança vença esta batalha, sem que contido ganhe definitivamente a guerra...
Desejo-te uma óptima noite e um resto de semana sem confrontos de espécie alguma!

Um beijo... :-)


De **** a 6 de Fevereiro de 2008 às 01:48
O "poder de uma aliança improvável proporcionando a única esperança contra os ventos de destruição" - Acaba por ser algo do qual não nos deviamos orgulhar muito, mas as mais alianças, as mais improváveis, sólidas , necessárias são aquelas que se formam em tempo de crise e que se conseguem manter sem qualquer dúvida até que ela desapareça. Falo tanto a nível bélico, como mesmo a nível pessoal quando nos aliamos às últimas pessoas com quem nos dariamos simplesmente porque temos interesses em comum.

Esta parte parece também ela estar a enxames de galáxia de distância da realidade que narraste na 1ª. Presumindo que é a mesma personagem é fantástica a forma como o conforto físico nos pode devolver toda a racionalidade, como podemos ser tão instintivos por vezes e tão friamente racionais no momento a seguir. Somos moldados pelas situações...

Espero que o conto continue tão envolvente como até aqui, e que agora a personagem vestida com o reparado fato de voo e o seu acizentado companeiro consigam os seus intuitos.

Beijos
e que, por hoje, o céu estrelado seja apenas fontes de beleza para os olhos e enigmas para a mente

Sophia


De V.A.D. a 6 de Fevereiro de 2008 às 02:21
As mais improváveis alianças resultam da necessidade premente de se combater um inimigo comum ou de perseguir um objectivo que serve às partes envolvidas. É uma táctica inteligente, na medida em que as diferenças são postas de parte, numa união de pontos em comum. A nível militar e ao longo da história da humanidade, têm sido muitos os exemplos do que essa união pontual pode conseguir. Vejamos o exemplo da Segunda Guerra, os soviéticos e os ocidentais enfrentando em conjunto a ameaça nazi, apesar das abissais diferenças ideológicas...
A nível pessoal, devo dizer-te que tenho uma certa dificuldade em me aliar com pessoas que pouco me dizem. Prefiro estar sozinho perante as dificuldades do que "vender" uma amizade que estaria sempre maculada pela falsidade... Mas, amiga, sei que não devo dizer que "desta água não beberei"... :-)

O protagonista é o mesmo mas, como bem disseste, as situações moldam as atitudes e aqui verifica-se isso mesmo. Depois de um cenário dantesco, a serenidade voltou com a constatação de que o perigo foi ultrapassado.

Espero corresponder às expectativas, e confesso-te que tento sempre escrever algo que seja agradável à leitura, embora saiba que nem sempre sou capaz de fazer isso...

Desejo-te também uma noite pontilhada de sonhos agradáveis, amiga!

Um beijo e um enormeeeee sorriso... :-)


Comentar post

.quem eu sou...

.pesquisar

 

.Abril 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30


.posts recentes

. Curvatura

. O horizonte de eventos e ...

. Subjectividade

. O "capacete de deus"

. Apontamento (II)

. Apontamento

. Alter Orbe (II)

. Alter Orbe (I)

. Marte

. Regresso

.arquivos

. Abril 2013

. Fevereiro 2013

. Fevereiro 2012

. Junho 2011

. Janeiro 2011

. Março 2010

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

.tags

. todas as tags

.links

.Blog Nomeado Para:

.contador

blogs SAPO

.subscrever feeds