Domingo, 3 de Fevereiro de 2008

Insectos (II)

“Nos confins da Via Láctea, muito para além das dezenas de anos-luz que separam a Terra do centro galáctico, uma inconcebível e temerosa sociedade floresceu, incontáveis éons permitindo o desabrochar da inteligência em seres de pesadelo, a selecção natural dizimando mamíferos e répteis e deixando todo um planeta entregue a complexos organismos insectiformes. Ao longo da evolução, os insectos desenvolveram uma apetência cada vez maior pelo agnição, a comunicação feita de intrincadas linguagens químicas permitindo a transferência de informação entre indivíduos levando à criação de uma tecnologia em nada inferior à de outras raças, a feroz competição obrigando ao desenvolvimento de estratégias cada vez mais complexas, a exponencial taxa de natalidade exaurindo os recursos e obrigando à expansão. Os sistemas solares das proximidades foram varridos por naves de exploração, os globos que apresentavam recursos importantes sendo rápida e selvaticamente conquistados, as espécies nativas sendo dizimadas num cego e voraz apetite, demitido de quaisquer cuidados que não o assegurar de alimento para os enxames que cresciam como praga de gafanhotos. E, quando o solo se tornava estéril e os ecossistemas morriam, partiam em enormes naves, a busca de novos domínios tornando-se crucial…”

V.A.D. em Insectos

Imagem: Descolagem (original em http://images.elfwood.com/art/p/a/parnanen/leaving.jpg)

música: The World Is Not Enough (Garbage)

publicado por V.A.D. às 22:44
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4 comentários:
De **** a 4 de Fevereiro de 2008 às 19:30
Para os “confins da Via Láctea, muito para além das dezenas de anos-luz que separam a Terra do centro galáctico” – um conto que nos leva além fronteiras, para uma sociedade longínqua espacialmente, mas ainda mais distante em termos de realidade vivida. Embora tenham uma forma completamente estranha e encarem um problema que, já tendo pensado na hipótese, ainda não nos afecta a nós, transparece neles uma cunha de humanidade protegida por um exosqueleto de quitina. Também nestes seres ecoa aquele ego do instinto de conservação do outro personagem do conto.

Quanto à música adapta-se bem ao texto: realmente “the world is not enough”, nem para nós, nem para qualquer outro ser que, sendo dotado de inteligência, também tenha a sua cota parte de ambição. Contudo não concordo com “No one ever died from wanting too much”, há baixas tanto nos vencidos - nas espécies “dizimadas num cego e voraz apetite” - como nos (aparentes) vencedores.

Beijos
De alguém ansiosa para saber quais as novas passagens destes temerosos “organismos insectiformes” tão maravilhosamente descritos

Sophia


De V.A.D. a 5 de Fevereiro de 2008 às 02:26
Uma vez mais, o instinto de sobrevivência a ser enfatizado, desta feita através uma entidade colectiva, o grande enxame precisando de se libertar da esterilidade de um planeta esgotado pela voracidade desregrada... Sim, é uma parábola daquilo que está por vir, caso a humanidade não saiba acautelar o futuro...

Nada é suficiente... A inteligência tem-se desenvolvido à custa desta premissa: aquilo que se sabe é pouco, muito pouco, em relação ao que há a saber. O poder não é bastante, quando há ainda tanto para conquistar. A felicidade parece sempre pequena, quando a utopia parece estar já ali, ao alcance das mãos...

De facto, querer em demasia pode conduzir à ruína. Há que saber dosear o apetite, embora o mundo não seja suficiente, quando a imaginação se parece querer inflacionar, mesmo que numa fraca explosão de palavras escritas... :-)

Ao conto vai ser dada uma continuação que espero poder corresponder às expectativas. Cabe-me agora agradecer, uma vez mais, a amabilidade que sempre demonstras para comigo, e desejar-te uma noite cheia de momentos agradáveis.

Um beijo e um enormeeeeeee sorriso... :-)


De Emanuela a 4 de Fevereiro de 2008 às 23:17
Podem ser mais irracionais, mas não me parecem assim tão diferentes do homem...
Beijos!


De V.A.D. a 5 de Fevereiro de 2008 às 02:34
A natureza destes seres, aparentemente muito diferente da natureza humana, revela alguns dos instintos primários inerentes à própria vida: é preciso dar continuidade à espécie, a todo o custo, ainda que para isso se desrespeitem princípios e se hipoteque o futuro... A parábola é propositada: para nós, são sempre os outros parecem agir irreflectidamente mas, na verdade, pecamos pelos mesmos defeitos...

Desejo-te uma óptima noite e um dia de carnaval cheio de alegria e de momentos agradáveis!

Um beijo... :-)


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