Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008

Fedor

“Alimento-me de ilusões, vivo dominado por desejos. Amiudadamente, crio ao meu redor um Universo de ficção, convencendo-me da minha bondade, quando aquilo que quero não passa de uma manifestação egoísta de amor-próprio, a vontade de olhar o próprio umbigo sobrepondo-se à regularidade ponderada de uma existência serenamente inquieta. Nessas alturas, um louco insinua-se no interior do meu crânio, ainda que por breves instantes, conspurcando, fazendo do meu espírito um lugar sebento, a imundície da sua actividade desvairada deixando na atmosfera o odor pútrido do destempero, os corredores repugnantes da perversidade, desselados momentaneamente, pejando-se de fantasmas e tesouros amaldiçoados, sanguessugas e vermes de vorazes e acres apetites. Grutas sulfurosas e labirínticos subterrâneos servem-lhes de morada, negrumes escuros, escorrendo pelas paredes da mente adoecida, são rasgados pela vermelhidão atroz do sangue infecto, a infinita complexidade e horror da condição humana sendo-me revelada pela natureza reptiliana do subconsciente. E depois, imobilizando-me, esforço-me por expulsar aquele agoniante fedor dos meus pulmões…”

V.A.D. em Fedor

Imagem: Obnóxio (http://www.spirit-of metal.com/les%20goupes/A/Attitude%20Adjustment/The%20Good,%20The%20Bad,%20The%20Obnoxious/The%20Good,%20The%20Bad,%20The%20Obnoxious.jpg)

música: Creep (Radiohead)

publicado por V.A.D. às 02:36
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8 comentários:
De dhyana a 1 de Fevereiro de 2008 às 22:25
hum.... eu gosto desse louco que as vezes te invade. gostava que me invadisse tb e me contagiasse com a doença de "saber dizer" ou com a "síndrome de dom-da-palavra" como fez contigo...
Com direito a vermes e sanguessugas!
Saudades...


De V.A.D. a 3 de Fevereiro de 2008 às 00:34
Todos nós somos confrontados com uma certa dose de loucura, às vezes saudável, outras vezes destilando os mais negros e fétidos aspectos da condição humana. Felizmente, são raros em mim esses momentos, mas tenho plena consciência de que não sou deles isento... :-)
Tinha saudades, da tua presença, das tuas palavras...
Desejo-te uma óptima noite e um excelente domingo, minha amiga!

Um beijo... :-)


De Emanuela a 2 de Fevereiro de 2008 às 00:49
Creio que com este post, chegaste ao limite da tua insanidade. Assumindo este papel com tamanha perfeição, agora só te resta internar-te para a desintoxição e posterior cura.
Desculpa. Não resisti a brincar.
E agora falando sério: o que me levaste a ver foi uma pessoa completamente dominada por todo tipo de vícios. Fantástica a forma como o fizeste.
E sei que há muitas formas de sermos dominadas por eles.
Um beijo.


De V.A.D. a 3 de Fevereiro de 2008 às 00:59
Ehehehe, amiga, desconheço os limites, por isso não sei se já os atingi ou não... :-)
O esteve subjacente ao texto foi a constatação de que somos feitos de inconstância, a complexidade da condição humana trazendo algumas vezes uma espécie de loucura temporária, o nosso espírito sendo atravessado por pensamentos estranhos e caóticos... Felizmente, estes momentos não são frequentes, mas tenho plena consciência de que não estou livre de os viver... :-)
Desejo-te uma óptima noite e um domingo magnífico!

Um beijo... :-)


De **** a 2 de Fevereiro de 2008 às 20:31
"fazendo do meu espírito um lugar sebento, a imundície da sua actividade desvairada deixando na atmosfera o odor pútrido do destempero" – é natural que sejamos deveras perversos por vezes, que façamos coisas simplesmente nojentas, que sintamos que somos incorrectos. Estamos confinados à condição humana e a única forma de evitar que esses “corredores repugnantes da perversidade” sejam desselados é deixar de viver, deixar de agir, isolarmo-nos por completos dos outros. De outra forma há sempre o risco de magoar ou ser magoado, de sofrer ou causar sofrimento pelas nossas acções ou inacções.
O que devemos temer não é tanto esse cheiro, esse “agoniante fedor”, mas o momento em que nos habituemos a ele de tal forma que deixemos de notar que ele nos corroí pulmões e alma ou, pior, o instante em que, embora sabendo da sua horripilante presença, deixemos de ter força ou vontade de o afastar.

Mais uma vez consegues transmitir os sentimentos no texto... quase que se consegue sentir toda a violência desta possessão, o quão dolorosa pode ser essa tomada de consciência e esse cheiro agre cheiro.

Beijos
com um perfume mais suave

Sophia

Ps – Gosto da música, se bem que ache que também é preciso ser um pouco especial para reconhecer quando somos canalhas - “I don't care if it hurts / I want to have control”


De V.A.D. a 3 de Fevereiro de 2008 às 01:31
A perversidade, embora fazendo-se notar sobretudo através de estranhos e horríveis pensamentos, não deixa de ser assustadora, uma vez que é como que uma porta entreaberta para os lugares escuros e peçonhentos que são alguns dos recantos da nossa mente.
Concordo em absoluto contigo, quando dizes que negar esses momentos, em que o louco se apossa de nós, é negar a própria condição humana; a complexidade que nos é intrínseca tem facetas de que não gostamos mas que podem e devem ser controladas.

Amiga, felizmente estas ocorrências são raras em mim, e creio ser capaz de as dominar: lutando contra elas, levo-as de vencida, mas não deixo de me assustar com o louco que se esconde, sorrateiro, à espera de uma oportunidade para me importunar... :-)

Obrigado, amiga. Embora muitas vezes não o consiga, tento sempre emprestar à escrita a intensidade das minhas divagações que, podendo estar eivadas de ideias erradas, espelham o meu entendimento das coisas... :-)

Desejo-te uma óptima noite e um domingo cheio de sã loucura...! :-)

Um beijo, sorridente e perfumado... :-)


De MalucaResponsavel a 7 de Fevereiro de 2008 às 23:20
escreveste-te? espero q sim.. :) bj gd


De V.A.D. a 8 de Fevereiro de 2008 às 01:01
Escrevi uma parte de mim, amiga; a outra parte é bem mais enfadonha mas muito mais harmoniosa... Ou será a coexistência destas duas fracções que, na verdade, gera o equilíbrio... ? :-)

Desejo que a tua noite seja plena de equilíbrios!

Um beijo e um enormeeeeeee sorriso... :-)


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