Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008

Estranho

“Sinto sobre os ombros o peso dos séculos, feéricos rendilhados de noções abstractas espraiando-se na mente, a areia fina e já sem brilho de ideias outrora coerentes rangendo sob os pés de mil corpos possuídos. Fadiga maldita…! Cansaço desfeito numa massa pegajosa e informe a escorrer por mim abaixo, a vontade exaurida desabando no arruinamento infecundo de um tempo que nada significa. Nascido noutro lugar que não este onde prosperou, o pensamento reclama a radícula perdida no fosso de parsecs, a origem distante e antanha teimando numa vindicação infindável. Quero ser capaz de galgar as barreiras do espaço e regressar à quentura do sol mais branco, esta luz ofendendo a vista é amarela demais e ensandece os sentidos! Nunca me habituei a este ar, a densidade que não envenena o sangue parece atordoar o encéfalo que não me pertence e sinto-me um estranho na desconformidade de um mundo que não é o meu, o pasmo de dias passados trocado pela ânsia incorpórea ainda por esquecer… Não sou daqui, a identidade em dissonância gritando desapego, a essência etérea ambicionando autonomia…

- Pobre diabo, a demência fá-lo julgar-se alienígena…”

V.A.D. em Estranho

Imagem: Estranho (www.irtc.org/ftp/pub/stills/1999-06-30/strange.jpg)

música: People are Strange (The Doors)

publicado por V.A.D. às 01:23
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12 comentários:
De Emanuela a 10 de Janeiro de 2008 às 01:41
Me explica... Porque este texto não parece ser do VAD que conheço. O que significa?


De V.A.D. a 10 de Janeiro de 2008 às 02:12
Oh, amiga, este texto é apenas a tentativa de abordar um ponto de vista diferente daquele que é habitual no ser humano. Sabes que gosto de ficção científica e quis-me colocar na pele de um ser alienígena, descorporizado mas capaz de se apossar dos corpos de pessoas, abrigando-se-lhes na mente. É um ser que "naufragou" no nosso planeta há milénios, que está cansado e com saudades do planeta natal...
Desejo-te uma excelente noite!

Um beijo... :-)


De Emanuela a 11 de Janeiro de 2008 às 01:21
Oh! amigo. Tua explicação tornou teu texto ainda mais rico. E fez-me recordar de um seriado que passava na TV brasileira nos idos de 70 e chamava-se "Os Invasores". Não sei se chegaste a assistir, mas tenho certeza de que adorarias.
Obrigada pela tua paciência para com esta leitora, he,he.
Desejo que a tua noite seja agradável e sem "invasões".
Um beijo!


De V.A.D. a 11 de Janeiro de 2008 às 02:13
Quando construi o texto, ainda coloquei a hipótese de não escrever a frase final, de forma a que ainda menos pistas fossem dadas, quanto à verdadeira natureza do ser... :-)
Creio não te passado aqui na TV nenhuma série com esse título mas, como bem referiste, tenho a certeza de que tê-la-ia adorado.
Ora, amiga, não tens que agradecer nada... :-)
Desejo-te uma excelente noite!

Um beijo... :-)


De alexiaa a 10 de Janeiro de 2008 às 11:08
Ser capaz de galgar as barreiras linguísticas deste texto não é tarefa fácil mas esse cansaço que transparece do texto não me parece tão alienígena como isso:))

Beijo demente que hoje estou alucinada!


De V.A.D. a 11 de Janeiro de 2008 às 02:16
Não me parece que estas barreiras que referes sejam assim tão difíceis de galgar...! :-)
Não vou negar que ontem me sentia realmente cansado, o que talvez tenha ajudado na construção do texto.
Desejo-te uma noite sem alucinações de qualquer espécie, ehehehe :-)

Um beijo... :-)


De **** a 10 de Janeiro de 2008 às 14:56
Sem dúvida um título estranho, com uma realidade de igual estranheza.

Quanto ao estranho, não quer dizer que seja depreciativo... como esta música (de que tanto eu gosto) diz "people are strange", mesmo só entre nós somos estranhos, diferentes, especiais. Independentemente do adjectivo que prefiramos essa estranheza está presente e é enriquecedora. Um alien é sem dúvida estranho para nós, mas nós, o nosso ar e o nosso sol amarelos, são estranhos para o alien.

Enfim... mais uma vez uma voz exterior a encarar a raça humana, mais uma vez as palavras maravilhosas que quase tornam palpável o desespero deste ser.

Beijos,
Sophia


De V.A.D. a 11 de Janeiro de 2008 às 02:26
Olá, Sofia :-) Apesar de ser uma realidade inventada, não deixa de se poder assemelhar a tantas situações em que as pessoas se sentem deslocadas, desenraizadas, cansadas de coisas que não escolheram e que lhes atormentam a existência. E subscrevo na íntegra aquilo que referes: ninguém é igual a ninguém, mas nas diferenças reside também um lado positivo, que pode e deve ser enaltecido.

A tentativa de olhar o mundo sob uma outra perspectiva é um exercício desafiador, que me dá imenso prazer. Saber que as palavras conseguem traduzir o desespero que imaginei advir de uma situação assim, é para mim motivo de ainda maior satisfação.

Desejo-te uma noite plena de serenidade!

Um beijo... :-)


De JoãoSousa a 10 de Janeiro de 2008 às 20:14
Baralhas-me! E só depois de exaustivas teorias chego a algumas conclusões!
Peço desculpa pela minha longa ausência! Mas já cá estou para devorar os teus insólitos contos que me deixam às voltas! :)


De V.A.D. a 11 de Janeiro de 2008 às 02:32
Espero que essa baralhação que referes seja sinal de que os textos que vou construindo são capazes de gerar surpresa e interesse... :-)
Amigo, não tens que pedir desculpa por nada. Sei que nem sempre temos a disponibilidade que gostaríamos de ter, pois o tempo, infelizmente, não estica.
Agradecendo a tua visita e as tuas palavras, desejo-te uma magnífica noite!

Um abraço.


De Pérola a 11 de Janeiro de 2008 às 21:13
Mataste assim 2 coelhos com uma cajadada só! :)

Beijinhos.


De V.A.D. a 12 de Janeiro de 2008 às 01:46
Às vezes, consegue-se fazer isso... :-)
Quis manifestar de forma pungente o sofrimento de um ser desenquadrado... Acabei por dar a entender também a incompreensão que a diferença parece determinar...
Desejo-te uma óptima noite e um excelente fim-de-semana!

Um beijo... :-)


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