Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2007

Otztal (VII)

“A lua cheia despontava no horizonte, a luz fria e mortiça semeando sombras esbatidas no solo macio e de uma alvura fantasmagórica. Havíamos afastado os lobos à força de golpes de machado e corríamos em direcção à caverna, guiados pelos tumultuosos sons de luta que se erguiam no ar, gritos alarmantes rasgando a noite em sinal de desespero. O cenário era trágico. O Tatuado gritava, brandindo um tronco em brasa no engano de afastar as bestas que já ali não estavam. Havia sido atingido pelas costas pelo Cura, que jazia a uns passos, o cadáver servindo de banquete à alcateia em fúria, o arco da traição testemunhando a justiça inesperada. Era imperativo fugir dali e, em vão, esforcei-me por remover a flecha cravada profundamente na sua omoplata, de onde a vida jorrava num profuso jacto escarlate. A mão direita apresentava-se dilacerada, a lupina mordedura fazendo-lhe pender os dedos. Enfraquecido pela perda de sangue, parecia incapaz de se locomover. Reunindo as poucas forças que me restavam, carreguei-o aos tropeções montanha abaixo, ajudado pelo Vesgo. Ao fim de algumas centenas de passadas, o esgotamento assomou-se, forçando-nos a uma paragem. O corpo inerte, a ausência de pulsação e os olhos abertos mas inexpressivos revelaram-nos a verdade: Otzi, o Tatuado, havia morrido.”

V.A.D. em Otztal

Posfácio

Em 1991, o cadáver mumificado de Otzi foi encontrado nos gelos permanentes dos Alpes de Otztal, perto da fronteira da Itália com a Áustria. O seu apelido deriva do nome do vale onde a descoberta foi efectuada e o estudo detalhado deste nosso antepassado, com cerca de 5300 anos, oferece uma visão sem precedentes da vida e hábitos dos europeus do Neolítico. Embora a estória não passe de ficção, esforcei-me por respeitar os conhecimentos trazidos à luz por arqueólogos e antropólogos, com o inestimável auxílio da medicina forense. Chamei-lhe Tatuado porque no seu corpo contavam-se cinquenta e sete tatuagens.

Imagem: Otzi (www.dinosoria.com/tragedie/otzi.jpg)


publicado por V.A.D. às 22:51
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13 comentários:
De MalucaResponsavel a 8 de Dezembro de 2007 às 11:32
De todas as histórias que li tuas esta foi aquela de que mais gostei... não q as outras sejam más, pelo contrário, talvez pq tnh mais a ver c as mnhs preferencias... bj gd


De V.A.D. a 9 de Dezembro de 2007 às 01:42
Esta foi a história que me deu mais prazer, mas também mais trabalho a construir pois, não tendo grandes conhecimentos sobre a pré-história, vi-me "obrigado" a fazer algumas pesquisas, que acabaram por ser enriquecedoras. Fico contente por teres gostado e sei que nem sempre os temas que abordo correspondem às preferências de quem, simpaticamente, me lê...
Agradecendo a gentileza das tuas palavras, desejo-te uma excelente noite e um óptimo domingo.

Um beijo... :-)


De Melissa a 8 de Dezembro de 2007 às 16:48
Bela história, muito bem embasada nos estudos científicos do corpo do "Homem da Neve".
Parabéns!


De V.A.D. a 9 de Dezembro de 2007 às 01:45
Obrigado, amiga! Embora o enredo não passe de ficção, creio tê-lo construído plausível e fiel ao modo de vida destes nossos ancestrais.
Desejo-te uma excelente noite e um óptimo fim-de-semana!

Um beijo... :-)


De Fisga a 8 de Dezembro de 2007 às 18:17
Esta reportagem feita a 5300 anos de distancia, torna o repórter digno de uma menção honrosa no mínimo.
Os meus sinceros parabéns. bom fim de semana e um abraço.


De V.A.D. a 9 de Dezembro de 2007 às 01:35
Nem tinha pensado nisso, amigo Fisga, mas este conto podia muito bem ter sido uma reportagem feita na primeira pessoa, um relato dos acontecimentos daqueles dias trágicos em que muito aconteceu, inclusive a morte de um amigo...
Agradecendo-lhe a simpatia revelada em palavras, desejo-lhe uma excelente noite e um óptimo domingo.

Um abraço.


De Fisga a 10 de Dezembro de 2007 às 20:56
Não é este o caso, mas quantas vezes nós tomamos atitudes menos pensadas, que aos olhos do nosso semelhante parecem mesmo o contrário, você não tinha pensado, mas eu pensei e filo convicto. Um abraço. Fisga.


De V.A.D. a 11 de Dezembro de 2007 às 14:27
Obrigado, amigo... As suas palavras são sempre gentis...

Um abraço.


De A Túlipa a 9 de Dezembro de 2007 às 13:29
Sempre misterioso, com algo a acrescentar =]

'


De V.A.D. a 9 de Dezembro de 2007 às 21:25
Nada é definitivo, muito menos as estórias que escrevo, eheheheh :-)
Na verdade, pouco poderia acrescentar ao enredo, pois este destinava-se a arranjar uma explicação para a morte de Otzi, o homem do Neolítico cuja múmia foi encontrada nos Alpes.
Espero que, apesar da forma como foi concluída, a estória possa ter sido interessante... :-)
Desejo-te uma óptima noite e uma excelente semana!

Um beijo... :-)


De Emanuela a 9 de Dezembro de 2007 às 21:29
Certamente uma horrível noite para os protagonistas desta história. Sentimento de medo e luta que ficaria marcado no espírito daqueles homens, e seria passado aos descendentes de todas as maneiras: ensinamentos e sensações...
Pena que o estudo cientifico não consiga resgatar ainda as emoções do cadáver. Mas tu o fizeste muito bem, através dos olhos de uma " testemunha ocular", hehe.
Parabéns e beijinhos!


De V.A.D. a 9 de Dezembro de 2007 às 22:10
Teria sido, de facto, uma noite aterradora, sob todos os aspectos, mas com especial ênfase na traição perpetrada .
Não sabemos, de facto, quem matou o Otzi encontrado nos Alpes, mas creio que o enredo que criei à volta desta ocorrência é, pelo menos plausível...
Obrigado, amiga, pelas tuas amáveis palavras.
Desejo-te uma noite agradabilíssima e espero que a semana que aí vem decorra em paz e alegria.

Um beijo... :-)


De Anónimo a 10 de Novembro de 2008 às 20:14
Que medo cara, mas a história é da hora, gostei. Fui...


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