Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2007

Otztal (V)

“Aproximávamo-nos do final da íngreme subida e as sombras agigantavam-se, à medida que o luzeiro descia para o horizonte, o arco da luz fechando-se sobre a terra, predizendo a negrura gélida da noite. A desolação branca era rasgada, a espaços, por penhascos enegrecidos e ameaçadores, o assobio do vento glacial a roçar na pedra contrastando com o mutismo generalizado que se havia assenhoreado da comitiva. Havíamos deixado para trás a floresta de coníferas, depois de esquartejarmos o imolado, sem que houvessem sido trocadas quaisquer palavras entre o Tatuado e o Cura, este último parecendo cada vez mais absorto em congeminações. Por fim, diante de nós, abriam-se as fauces da terra, a boca negra da Deusa, escancarada, aguardando as oferendas. Prostrámo-nos, numa genuflexão submissa, enquanto as palavras rituais eram cantadas numa cadência arrebatadora:

 

Oh, Deusa-Mãe sagrada

Lutámos contra neve e vento

Aqui te trazemos alimento

Que sorria, a tua face irada

No fim desta dura jornada

Rogamos-te pelo sustento

 

Submetemo-nos à tua vontade

Rastejando perante a grandeza

Faz do nosso fardo, leveza

Suplicamos a tua bondade

Dá-nos um gesto de caridade

Alivia-nos a dor e a tristeza

 

Faz do frio, temperança

Faz da neve, água pura

Suaviza esta vida dura

Faz da tempestade, bonança

Faz da desilusão, esperança

Dá-nos para os males, a cura

 

Por alguns instantes, senti-me em comunhão plena com a Natureza, o fervor da reza amenizando a severidade de um mundo repleto de misteriosos e intrincados caprichos. Mas, no fundo, havia já em mim a convicção de que é ao Homem que compete a escolha do caminho…”

V.A.D. em Otztal

música: Pele (Polo Norte)

publicado por V.A.D. às 02:35
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11 comentários:
De Fisga a 5 de Dezembro de 2007 às 17:17

GOSTEI MUITO DO TEXTO ESTÁ PERFEITAMENTE DENTRO DA URDIDURA A QUE JÁ ME HABITUOU, MAS ADOREI O POEMA, ACIMA DE TUDO. EU COSTUMO DIZER QUE UM POEMA COM CONTEÚDO É UM TEXTO ESCRITO AO CUBO. PARABÉNS E UM BOM DIA. O FISGA


De V.A.D. a 6 de Dezembro de 2007 às 02:38
É verdade, amigo. Às vezes dá-me para a poesia, eheheheh. A estória está a aproximar-se do fim, mas já sentia vontade de fazer umas rimas. Achei que estas se enquadrariam no texto.
Agradecendo-lhe a gentileza expressa por palavras, desejo-lhe uma excelente noite.

Um abraço.


De Fisga a 10 de Dezembro de 2007 às 19:45
Amigo v.a.d. eu gostava de ter traquejo para sempre que a disposição o permitisse falar em verso e nunca em prosa, mas depois de muitos ensaios concluí que isso não se aprende nasce. Um abraço. Fisga


De V.A.D. a 15 de Dezembro de 2007 às 21:42
Acho que, conforme diz, é preciso que a capacidade de versejar tenha nascido connosco. No que me diz respeito, descobri-a há muito pouco tempo, mas tenho a noção de que não sou nenhum poeta.
Votos de uma óptima noite!

Um abraço.


De Fisga a 16 de Dezembro de 2007 às 18:21
Não seja modesto a esse ponto, eu estou farto de fazer testes e não consigo passar, você só com um simples ensaio como pode saber? Há que ser teimoso.
mas atenção. Sem prejuízo da ficção. um abraço e boa semana.


De Pérola a 5 de Dezembro de 2007 às 22:20
"senti-me em comunhão plena com a Natureza"

Aí está uma sensação que adoro.

Um grande beijinho!


De V.A.D. a 6 de Dezembro de 2007 às 02:40
Aquela sensação de profundo êxtase que às vezes nos invade, quando contemplamos as pequenas belezas do mundo, é profundamente maravilhosa.
Espero que a consigas sentir muitas vezes.
Desejo-te uma excelente noite!

Um beijo... :-)


De Emanuela a 6 de Dezembro de 2007 às 01:16
O texto todo leva-nos a uma viagem difícil, mas completamente sentida. Há nele uma força maior ainda do que te é peculiar. E a oração...realmente coloca-nos em comunhão com a natureza e o sagrado. Percebe-se claramente a fé que tens na vida!
Um beijo!


De V.A.D. a 6 de Dezembro de 2007 às 02:45
É bem verdade, amiga: embora seja completamente descrente em relação à existência daquilo a que se convencionou chamar "Deus", não deixo de me maravilhar profundamente com a Natureza, umas vezes agreste, outras suave e aveludada, mas sempre bela e grandiosa. E sim; creio na vida!
Amiga, agradecendo as tuas palavras e a tua gentileza, desejo-te uma noite magnífica!

Um beijo... :-)


De A Túlipa a 6 de Dezembro de 2007 às 23:32
Continuo e creio que continuarei sem saber de onde nascem as tuas histórias.

'


De V.A.D. a 7 de Dezembro de 2007 às 20:28
As minhas histórias baseiam-se muitas vezes em factos verídicos ou em experiências que eu próprio vivi. Pego nessas coisas e construo, à volta delas, um enredo ficcionado... :-)
Desejo-te uma óptima noite e um fim-de-semana muito, muito agradável!

Um beijo... :-)


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