Terça-feira, 27 de Novembro de 2007

Aldeia (I)

Da água, o meu olhar voltou à água. O reflexo mostrava agora um sorriso no rosto. Desaparecera, como que por artes mágicas, aquela expressão indecifrável de cansaço, que me tornava semelhante a uma estátua, mas guardei-me num silêncio de estrebuchante tranquilidade. Estava perdido num labirinto de rememorações e fazia de conta que havia retornado aos dias de antanho, quando a brincadeira era o meu mundo, edificado com a mansa simplicidade das horas despreocupadas. Tantas vezes aquele tanque havia sido um oceano imenso, onde os barquinhos, construídos de madeira e cortiça, capitaneados por lendários piratas e oficiais ao serviço de reis imaginários, se viam envolvidos em duríssimas batalhas navais. Tantas vezes havia regressado, em choro, a casa da minha avó, a roupa encharcada pela parvoíce implicante do meu irmão, que achava engraçado molhar-me… A chuva chegou sem aviso, num aguaceiro ensolarado, os pingos grossos e frios batendo com força nas pedras irregulares da parede do velho poço, à beira da ruína, depois de anos de desuso. Levantei os olhos e fui atingido bruscamente pela constatação, evidente e agradável, de que a aldeia das minhas raízes, embora jamais tivesse achado os prazeres da cidade, continuava a ser um bálsamo para a minha mente.

Imagem: Poço (produção própria)

música: My Hometown (Bruce Springsteen)

publicado por V.A.D. às 01:59
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8 comentários:
De Fisga a 27 de Novembro de 2007 às 11:56
E O BOM FILHO À CASA TORNA. SEMPRE ASSIM FOI
E SERÁ. PARABÉNS. UM GRANDE ABRAÇO E BOM DIA DE TRABALHO. O FISGA.


De V.A.D. a 27 de Novembro de 2007 às 14:08
As raízes são como que os alicerces da construção que somos...
Obrigado!

Um abraço.


De Cöllyßry a 27 de Novembro de 2007 às 17:14
A infancia, se recorda com saudade...mesmo essa traquinices...

Bjca doce


De V.A.D. a 28 de Novembro de 2007 às 01:37
A infância, feliz e cheia de momentos agradáveis, é algo que gosto de recordar. Aqui neste espaço, vou partilhando, às vezes, partes dessas memórias, tentando transmitir a ideia de que a vida pode ser apreciada através de pequenas coisas.
Desejo-te uma excelente noite!

Um beijo... :-)


De Emanuela a 28 de Novembro de 2007 às 00:00
Amigo, acho que nada nos reabastece mais do que estar nos lugares da nossa primeira infância.Tenho também um lugar assim, mas não sobrou quase nada do que existia lá quando eu era criança. Da última vez que lá fui, tbem fotografei o velho poço, agora já só mais um buraco de água no chão...Foi doloroso!
Mas o vento que canta naquele lugar é diferente de qualquer loutro e o ar que lá eu respiro, parece encher meu corpo de novas energias. Fizeste-me transportar para lá.Obrigada!
Um beijo!


De V.A.D. a 28 de Novembro de 2007 às 01:44
Felizmente, muitos dos lugares da minha infância, dos quais guardo maravilhosas recordações, permanecem intactos. Relembrá-los e revisitá-los é algo que me pacifica e me alivia da pressão de uma vida agitada.
Fico com pena, ao saber que os teus lugares já quase desapareceram; resta a alegria de sabê-los presentes na tua memória...
Desejo-te uma noite muito, muito agradável!

Um beijo... :-)


De Emanuela a 28 de Novembro de 2007 às 01:52
Minha memória os mantém com cada pequeno detalhe, cada cheiro, cada sabor. Mas temo que com o tempo, também isto se perca. E lamento não saber pintar, ou ao menos desenhar bem, para colocar no papel as imagens que guardo, pois nem fotografias encontro!
Beijos, e uma boa noite!


De V.A.D. a 28 de Novembro de 2007 às 02:45
Seria uma pena, perderem-se para sempre essas imagens, amiga. No entanto, a contínua passagem do tempo tende a alterar irreversivelmente as paisagens da nossa infância e pouco podemos fazer para modificar o curso natural das coisas...
Reformulo o meu desejo de que a tua noite seja imensamente agradável!

Um beijo... :-)


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