Sábado, 3 de Novembro de 2007

Os Outros (VI)

“Penosamente, peguei nos pedaços desfeitos da minha congruência e juntei-os com extremo cuidado. A espuma e a lâmina de barbear encarregaram-se de sonegar as provas; a água, negra de sonhos lúcidos, sumiu-se pelo ralo abaixo. Rodopiando, levou consigo parte do meu cepticismo. Nesse dia, quis dormir até à exaustão.

Assisti ao gotejar das águas na clepsidra do tempo, as horas passando por mim como luzes vertiginosas, os anos sucedendo-se bonançosos, percebidos com a cadência própria de quem já viveu metade da vida. Sabia, de forma pertinente, que aquele episódio não passara de uma ilusão, que nada daquilo que sentira e experimentara havia sido real. E, no entanto, vívida e incisiva como um gume afiado, a esquizóide e obsessiva impressão de aquilo tinha sido mais do que uma simples manifestação de uma raridade neurofisiológica, teimava em atormentar-me. Tinha sido oneironauta por uma noite: a hiper-realidade, estranha e enganosa, apossara-se de mim, arrastando-me por lugares horríveis e fazendo-me refém de mim mesmo. Ah…! Nunca mais levei os dedos à nuca!”

V.A.D. em Os Outros.

Imagem: Sonho Lúcido (http://sprott.physics.wisc.edu/fractals/collect/2005/Lucid_Dream.jpg)


publicado por V.A.D. às 03:26
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10 comentários:
De Ivy a 3 de Novembro de 2007 às 15:58
Muito interessante e original teu conto. Adorei esta parte final.
Um abraço!


De V.A.D. a 3 de Novembro de 2007 às 23:15
Muito obrigado! Como te apercebeste certamente, baseei-me num fenómeno relativamente raro, chamado "paralisia do sono", em que os intervenientes têm os chamados sonhos lúcidos. Estes acontecimentos têm tido, ao longo de séculos, diversas interpretações, algumas ligadas ao sobrenatural, outras encontrando na ovnilogia a explicação tão procurada. Na verdade, a neurociência aponta uma dessincronização entre o sono e o sonho como a resposta para estes eventos.
Votos de um excelente final de sábado!

Um beijo... :-)


De Sónia a 3 de Novembro de 2007 às 17:07
Gostei muito do fim. nesta vida não há certezas. bjs!


De V.A.D. a 3 de Novembro de 2007 às 23:16
Concordo em pleno. Existem explicações, sim, mas elas podem não corresponder com exactidão à verdade que todos deviam procurar.
Bom final de sábado!

Um beijo... :-)


De Emanuela a 4 de Novembro de 2007 às 02:09
Consegues sempre surpreender a cada novo conto: não só pelo final, mas por cada detalhe,cada movimento e sentimento relatado e por cada novo tema abordado.
Beijinhos!


De V.A.D. a 4 de Novembro de 2007 às 03:16
Obrigado, amiga! É-me muito agradável saber que apreciaste o conto. Às vezes tenho um certo receio de não ser capaz de transcrever da melhor forma as ideias que se vão formando. Palavras gentis, como as tuas, expressas nos comentários, representam um enorme incentivo, fazendo perdurar a vontade de tentar fazê-lo.
Desejo-te um domingo muito, muito agradável!

Um beijo... :-)


De Lazy Cat a 4 de Novembro de 2007 às 20:28
A mim parece-me um final adiado....não deixa no entanto de ser fabuloso este teu conto.

Beijo. Boa semana.


De V.A.D. a 4 de Novembro de 2007 às 21:39
Não gosto de finais que fechem portas... Neste caso, deixo em aberto a possibilidade de voltar a pegar na estória e dar-lhe seguimento, o que não será feito a curto prazo, se é que tal vai chegar a acontecer.
Por outro lado, desta forma, cabe ao leitor tirar as suas próprias conclusões. Em relação aos fenómenos de abdução, o meu cepticismo é muito grande, uma vez que vejo na neurologia a explicação para os ditos. Contudo, e como sempre tento fazer, no que concerne a muitos dos aspectos da vida, mantenho a minha mente aberta...
Agradeço e retribuo, os teus votos de uma boa semana.

Um beijo... :-)


De MalucaResponsavel a 8 de Novembro de 2007 às 19:12
do capítulo anterior para este último fiquei como q perdida... hã? mas gostei mt mais do q do anterior (sbs q n gostei do final, apesar de fazer sentido). mas deve ser de mim. tenho de reler tudo com mais atenção... bj


De V.A.D. a 10 de Novembro de 2007 às 02:07
A transição é abrupta, mas foi feita assim deliberadamente. Pretendi dar a entender que certos eventos, reais ou resultantes de distúrbios pontuais, devem ser assimilados da melhor maneira possível. Naquele dia, ele dormiu até não poder mais: pretendeu que o sono o fizesse esquecer do episódio. Depois, deixou que os anos passassem: o tempo cura quase tudo, até as mazelas deixadas por situações complicadas...
Bom fim-de-semana!

Um beijo... :-)


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