Terça-feira, 7 de Agosto de 2007

Fuga (I)

As décadas arrastavam-se, penosamente, para as gerações que lhe foram sucedendo. Para o Culpatu, enclausurado naquela máquina da eternidade, um século não era mais que um minuto, e a contínua sucessão de dias e noites pouco representava. A câmara selada, construída no interior de uma velha e há muito abandonada mina de tungsténio, garantia-lhe segurança e impunidade. Sistemas complexos, alimentados por energia solar e por um pequeno mas eficaz gerador nuclear, mantinham a temperatura dois graus acima de zero, enquanto válvulas e sensores se encarregavam da atmosfera, garantindo as oitenta partes por milhão de sulfeto de hidrogénio, necessárias à animação suspensa. Nunca a civilização havia assistido a uma tão grande brutalidade por parte de um ditador. As fragilidades do tecido social haviam criado um monstro que não hesitara em se apoderar, a seu bel-prazer, da vida de mil milhões de almas, manipulando-as primeiro e escravizando-as de seguida, até acumular um poder e uma riqueza inimagináveis. Mas não tinha ninguém em quem confiar, e o constante medo de ser traído por quem lhe era próximo, o medo de ser assassinado, o medo da rebelião eminente, o medo levou-o a procurar uma fuga. Mas, para onde? Não havia um único local no velho planeta onde se pudesse esconder. Restava-lhe apenas uma solução: fugir para o futuro para escapar do futuro…

Imagem: Mina (www.chayden.net/Allison98/pic/mar01-018.jpg)

música: Amanhã É Sempre Longe Demais (Radio Macau)

publicado por V.A.D. às 03:28
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6 comentários:
De gata a 7 de Agosto de 2007 às 04:02
desesperadamente à espera.....
da parte (II)

curiosity will kill the cat ...
:) :)


De V.A.D. a 8 de Agosto de 2007 às 02:23
A curiosidade, assim como tantas outras coisas, é um dom fantástico. É impulsionadora da busca e mãe do conhecimento.
Neste caso, o final da história está relegado para uma parte III. Espero que a ansiedade não seja demasiada... :-)
Votos de uma noite serena!

Um beijo...


De alexiaa a 8 de Agosto de 2007 às 01:00
Por muito que tentes nunca evitas que transforme o que leio em sentires menos distantes dessa tua galáxia!
Não consigo dissociar algumas das tuas "historias" de situações terrenas!

Um beijo sem fugas!


De V.A.D. a 8 de Agosto de 2007 às 03:05
É impossível dissociar-me totalmente daquilo que escrevo, por muito que tente... Sou também pensamentos e são os pensamentos que constroem as frases...:-)

Um beijo...


De Emanuela a 9 de Agosto de 2007 às 01:13
É sempre assim. Os que escravizam, não se dão conta de que se tornam os primeiros escravos do que pensam que conquistaram. Beijinhos!


De V.A.D. a 9 de Agosto de 2007 às 01:39
É bem verdade. Os ditadores tornam-se prisioneiros das suas acções, e não conhecem a liberdade de um espírito livre e de uma consciência tranquila. São mais infelizes que os escravizados, pois nem lhes resta a esperança...

Um beijo... :-)


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