Quarta-feira, 11 de Julho de 2007

Ofiúco

“Dourado. Tudo era de um amarelo-dourado. Flutuei na luz ténue, consciente mas alheado de tudo, excepto da cor. O líquido começou a escoar-se no tanque, mas eu continuei a flutuar. Um choque fez-me sentir dezasseis fontes de agonia, na forma de minúsculas agulhas; os meus braços e pernas moveram-se em convulsões, mas o meu coração não começou a bater. E, depois, uma sensação bem conhecida: dera uma pancada com um dos joelhos. Mais um choque, e o coração bateu. Estava vivo e preferia morrer a aguentar outro choque. Inspirei e fui sacudido por uma tosse terrível. Bati com a cabeça na borda do tanque, apalpei o inchaço com as mãos frias e, quando olhei para elas, estavam tingidas de sangue. Parte dele tinha escorrido para o olho esquerdo, manchando o dourado de vermelho. A tampa do tanque saltou com um assobio húmido de vedantes de borracha. (…) Os sentidos começaram a despertar e deram-me a conhecer que estava enjoado. (…) Tentei ver o quarto com nitidez, pisquei os olhos, limpei o sangue…”

Excerto de Ofiúco, de John Varley. Autor norte-americano de ficção científica, Varley é muitas vezes comparado a Robert Heilein, quer pelas semelhanças do estilo de escrita, quer pela forma como as sociedades são construídas nas suas obras. Neste espectacular romance, podemos antever a possibilidade da múltipla existência e da quase eternidade, conseguidas através da clonagem e da transferência da memória.

Imagem: Asclépio (www.anestesia.com.mx/articulo/asclep3.gif)

música: Sing For Absolution (Muse)

publicado por V.A.D. às 02:58
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6 comentários:
De dhyana a 12 de Julho de 2007 às 15:37
Ofiúco, aquele que pensava ter o dom de ressuscitar os mortos. Belo título para um livro desta natureza.
Beijos...


De V.A.D. a 13 de Julho de 2007 às 01:55
O título afigura-se-me fabuloso, pois não só é uma figura mitológica, mas também o nome de uma constelação, onde parte da história se desenrola. As subtilezas e as multiplicidades paradoxais, frutos da imaginação do autor, são constantes ao longo desta obra.

Beijos...


De Emanuela a 12 de Julho de 2007 às 18:48
Assuntos que sempre nos preocupam: clonagem, transferência de memória... Entre tantas outras possibilidades que a ciência tem levantado. Coisas que se vê nos filmes de ficção e sabe-se lá se já não são praticadas há muito tempo. O preocupante é a ética, pois assim como em qualquer setor da vida humana, há os que a têm e os que não a possuem. E sabe-se lá o que pode vir por aí...O autor dá o que pensar. Um beijo!


De V.A.D. a 13 de Julho de 2007 às 02:02
Estes temas são para mim sempre motivo de conjecturas e também de alguns temores. Subscrevo o que dizes em relação à ética, ou à falta dela, e preocupo-me de sobremaneira com forma como a engenharia genética pode vir a ser usada. Não gostaria de viver num mundo onde o indivíduo fosse um mero produto tecnológico...

Um beijo... :-)


De alexiaa a 12 de Julho de 2007 às 20:02
Ok...eu li com atenção e digo-te que achei fantástico mas escapou-me a parte da antevisão da possibilidade da múltipla escolha e da quase eternidade:)
As vezes apetece-me interrogar-te até à exaustão:)

Beijo com reflexos dourados!


De V.A.D. a 13 de Julho de 2007 às 02:23
Imagina que, a partir do teu ADN, "constroem" clones de ti própria, e que por meios inovadores lhes são implantadas todas as tuas memórias e todas as tuas vivências. Seria possível a alguém que não tu distinguir o original das cópias? De certa forma não estarias a viver uma múltipla existência?
Considera agora que a informação genética de uma pessoa é preservada, assim como todas as memórias, que vão sendo constantemente actualizadas. A pessoa em causa envelhece, e a ordem natural das coisas dita a sua morte. É construido um clone, na força da juventude, e nele são implantadas as ditas memórias. O clone tem a vida inteira pela frente, tendo já vivido uma vida anterior, da qual tem plena consciência. O clone é a própria pessoa que lhe deu origem... Se o ciclo se repetir indefinidamente, não se poderá dizer que a pessoa viverá uma "quase eternidade"?
Espero ter contribuído, ainda que de forma pouco exaustiva, para o esclarecimento de eventuais questões... :-)

Um beijo...:-)


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