Sexta-feira, 30 de Maio de 2008

Eternidade

“E ali estava ele, sozinho e incapaz de se maravilhar com a beleza assustadoramente poderosa daquele simples crepúsculo, a vermelhidão do céu tornando-se violeta à medida que o sol se refugiava para lá do horizonte longínquo, as sombras tingindo o solo verde de relva em tons de negro, a suave brisa afagando-lhe o rosto agora sem rugas. Olhava em frente mas deixara de contemplar, perdera a habilidade de vislumbrar um futuro que se lhe oferecia insípido, as razões da sua existência confundindo-se com a desilusão da monotonia. Os pensamentos velhos e longos de séculos atropelavam-se na sua mente, definhando na exuberância da carne, a contínua e perfeita renovação dos músculos e das glândulas afundando-o numa atmosfera de futilidade, os dias infinitos impacientando-o, a eternidade há muito conquistada afigurando-se-lhe demasiadamente inane para merecer ser vivida. A sabedoria adquirida com o embranquecimento dos cabelos havia sido lentamente dissipada pelo desengano de um milhão de manhãs sempre iguais, o desapontamento levando-o a uma apatia cada vez maior, o cansaço das tarefas repetidas tornando-o pouco mais que um mero autómato, o algoritmo de si próprio revelando-se desatinadamente fastidioso…”
V.A.D. em Eternidade
Imagem: Eternidade (http://kabbalah4women.typepad.com/photos/uncategorized/2007/03/19/eternity.jpg)

publicado por V.A.D. às 03:00
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Segunda-feira, 26 de Maio de 2008

Tortura

“Permaneci algum tempo em total imobilidade, demasiado fatigado e entontecido, os meus olhos fixando-se nos olhos do interlocutor sem que os estivesse a ver, a minha mente mostrando-se incapaz de entender ou elaborar um raciocínio coerente, a privação do sono gerando um total alheamento em relação a tudo o que me rodeava. A espaços, sentia-me invadido por uma espécie de leveza delirante semelhante àquela que os estados febris costumam provocar, o som das palavras ouvidas parecendo esbarrar no meu corpo em vergastadas bruscas ou sedosas consoante o timbre das sílabas, uma absurda sinestesia submergindo-me ainda mais na estranheza de não saber o que fazia ali, um mal-estar latente apoderando-se de mim como um organismo gelatinoso e tentacular, tão repulsivo quanto um verme parasitário, verde e fedorento. E de súbito a emese, libertadora e dolorosa, arrancando-me o vazio às entranhas, as contracções involuntárias do corpo exaurindo as réstias de energia, o pânico mal dissimulado levando a um esgar de aflição… E o desfalecimento, inevitável e reparador, sobrevindo sem aviso, transformando-se num longo sono sem sonhos, numa completa ausência em parte alguma…”
V.A.D. em Tortura
Imagem: Tortura (original em www.abusedmedia.it/soxno/sxn_img/soxno.gif)

publicado por V.A.D. às 03:00
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Quarta-feira, 21 de Maio de 2008

ESA

             

 

“A ESA vai recrutar astronautas nos 17 países que a integram. Os candidatos têm de corresponder a um perfil extremamente exigente (...)”
 
Embora ciente de não reunir as condições exigidas, talvez me venha a candidatar a um dos quatro lugares disponíveis. Se estiver afastado da blogoesfera por alguns dias, há fortes probabilidades de andar ocupado a alimentar a esperança… Ou, quem sabe, a fazer outras coisas, eheheheh…
Imagem: Logótipo da ESA (www.esa.int)

publicado por V.A.D. às 15:00
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Terça-feira, 20 de Maio de 2008

Tarde Demais (V)

“A nave corria através dos limites superiores da estratosfera, apunhalando o ar frio, um rasto incandescente cruzando os céus como um cometa. De súbito, um insistente piscar despertou-o das lucubrações que lhe atravessavam a mente. Trinta e oito graus acima do equador, numa enorme ilha entre duas massas continentais, um transponder de IFF emitia o código que assomava agora perante si, o visor holográfico anunciando o possível fim da sua própria solidão. Conteve com dificuldade a satisfação transbordante, as lágrimas marejando-lhe os olhos, o coração acelerando numa reacção instintiva de felicidade, a certeza de que encontrara os seus anunciando-se pela confirmação via rádio, o longo silêncio sendo quebrado numa manifestação feita do júbilo que transparecia na sua voz. Tantas perguntas, tantas respostas, eram tantas, as saudades…! Inseriu as coordenadas que o levariam ao local de pouso e conversou até à supressão das comunicações, os gases ionizados pelo atrito dispersando as ondas, a entrada na atmosfera elevando a temperatura até valores infernais e isolando o veículo por doze minutos que se assemelharam a séculos. A turbulência deu lugar à quietude do voo planado, a trajectória sinuosa reduzindo a velocidade e permitindo-lhe vislumbrar os contornos difusos das falésias alcantiladas brotando das águas de um azul profundo e os grandiosos edifícios reflectindo em tons metálicos o sol daquela manhã estival. Aterrou num imenso planalto, a longa pista pavimentada encurtando-se até os freios aerodinâmicos contrariarem em definitivo a inércia. Foi recebido por uma pequena delegação, as altas individualidades e os esculápios assegurando-se do seu bem-estar, cientificando-o de minudências circunstanciais e de informações pertinentes. Achava-se em Atlantis; duas gerações haviam tornado aquela terra estranha num novo lar, a ilha passando de despovoada a exílio de inteligências. Não, não iria encontrar contemporâneos: chegara tarde demais.”

V.A.D. em Tarde Demais
Imagem: Atlantis (original em http://atlantis.csillagkapu.hu/kep/atlantis.jpg)

publicado por V.A.D. às 03:00
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Sábado, 17 de Maio de 2008

Tarde Demais (IV)

“Queria lavar-se; sentia-se atormentado pelo profundo desejo de ser acariciado pela água corrente, mas só podia perceber o formigueiro das inaudíveis ondas sonoras massajando-lhe a pele, o duche ultrassónico expurgando-o dos resíduos acumulados na cútis durante as décadas de total imobilidade. Vestiu-se e permaneceu quedo durante alguns minutos, apreciando a extraordinária sensação de calor a invadir-lhe o corpo, o fato de voo aconchegando-o, o sangue voltando a fluir-lhe nas veias na cadência determinada pela natureza. Lá em baixo, um mundo novo aguardava-o, as incertezas emboscando-se pelos cantos escuros dos seus raciocínios, a esperança temerária asseverando-lhe que haveria de ser bem sucedido. Inspirou profundamente e olhou os monitores, concentrando-se na imperiosa tarefa de verificar as condições da nave, o longo voo exigindo-lhe redobrada atenção antes de accionar os retrofoguetes, uma órbita baixa afigurando-se-lhe apropriada à investigação de quaisquer sinais reveladores da presença de congéneres naquele planeta tão análogo ao seu. A trajectória marcada na mesa de navegação fez o veículo desacelerar momentaneamente, a gravidade obrigando-o cair, os pormenores da superfície tornando-se cada vez mais distintos, o computador sendo chamado a calcular as contínuas e indispensáveis correcções para que um ângulo de seis graus fosse mantido…”
V.A.D. em Tarde Demais
Imagem: Mesa de Navegação (original em http://a.abcnews.com/images/Technology/ht_nasa_path3_071105_ms.jpg)

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Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

Tarde Demais (III)

“Uma luz intensa e branca brilhava sobre metade da superfície da nave, a outra metade permanecendo na sombra e nos pálidos reflexos azul-esverdeados do planeta lá em baixo, a elevada altitude dando ao seu ocupante uma visão extraordinária de continentes e mares, encobertos aqui e ali por uma alva e pouco espessa camada de vapor de água, a ténue atmosfera erguendo-se algumas dezenas de quilómetros acima do horizonte. O computador quântico havia decidido ser aquele um destino aceitável, a análise espectrográfica indicando um mundo telúrico feito de silicatos, ferro e outros metais pesados, a existência de água no estado líquido e oxigénio em abundância declarando que a vida certamente florescera ali, no terceiro orbe a contar do Sol. Tinha procedido às manobras necessárias, o veículo alinhando-se primeiro com o plano da eclíptica e depois descrevendo a trajectória que o levara à órbita geossíncrona. Cedera o comando; os procedimentos que haviam levado ao despertar do ser biológico que com ele viajava revelando ter sido bem sucedidos, as decisões cabendo agora ao cérebro que lentamente ia recuperando a lucidez, num caminho sinuoso através de raciocínios ainda desconexos mas cada vez mais coerentes: atravessara uma distância incomensurável, sentia a garganta seca e o estômago vazio. Uma moinha incomodativa pesava-lhe sobre a cabeça, deixando-o nauseado. Mas, acima de tudo, sentia-se vivo…”
V.A.D. em Tarde Demais
Imagem: Terra (www.sages.ac.uk/image_gallery/general/earth-space.jpg)

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Segunda-feira, 12 de Maio de 2008

Tarde Demais (II)

“A nave ia derivando num voo curvilíneo e sem rumo aparente, os impulsores bocejando frios e silenciosos no vazio, os sistemas de suporte de vida mantendo os parâmetros necessários à protecção do solitário tripulante que jazia em animação suspensa no interior de um envoltório hermético. A sua pele desnuda achava-se pejada de sensores ligados à interface cibernética, o cérebro artificial gerindo os cada vez mais parcos recursos, numa maquinal obediência aos programas habilmente desenvolvidos séculos atrás. A cada trinta minutos, o músculo cardíaco pulsava para irrigar de sangue oxigenado os tecidos do corpo arrefecido, a necrose sendo adiada por mais um breve intervalo de um tempo que se escoava irremediavelmente por entre o total alheamento da mente destituída de sonhos, a inconsciência mantendo-o afastado da terrível incerteza do que havia por vir. Tinha procurado, em vão, sinais de que a sua espécie pudesse ter encontrado forma de resistir à catástrofe. Restara-lhe a esperança de que pelo menos alguns o tivessem feito, a estrela de classificação espectral G2V a que chamavam Nanahuatl sendo o objectivo provável, a existência confirmada de uma sistema planetário e os pouco mais de oito anos-luz de distância fazendo dela um destino promissor. Antes de cruzar a órbita de Lalande C, marcara na mesa de navegação a trajectória elíptica até ao bordo interno do braço de Orion; nove décadas iriam suceder-se como se apenas um mês viesse a decorrer, o envelhecimento não passando de um conceito falho de invariabilidade …”
V.A.D. em Tarde Demais
Imagem: Lalande 21185 (www.exoplaneten.de/lalande/sonne_lalande3_t.jpg)

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Sexta-feira, 9 de Maio de 2008

Tarde Demais (I)

“Durante um ínfimo instante, por entre todos os silêncios incontidos, a luz arroxeada do crepúsculo uniu-se às tonalidades fortes do céu há muito sem nuvens, o sol prestes a ajoelhar-se por debaixo do mundo deixando a sua marca num instantâneo fotograma revelado pela retina. Viu-os como deviam ter sido nos últimos dias, arrastando-se nas sombras que se agigantavam, as bocas abertas num arquejo sufocante, os gemidos de autocomiseração abafados pela vagarosa inanidade dos seus próprios raciocínios. As montanhas estavam ali, negras como as trevas que se avizinhavam, a seca nudez dos penhascos eriçando-se em direcção às estrelas cegas, a planície adjacente, outrora fértil, apresentando-se austera na desalentada esterilidade da exaustão. E o vento soprava frio e frouxo, ainda assim chicoteando-lhe a face e os cabelos, varrendo os ossos acumulados no solo sem cor, as sucessivas gerações amontoando-se em maroiços de minerais sem vida que se iam lentamente transformando em poeira, os cometas murmurando impropérios no seu percurso rotineiro. Vagueou a noite inteira, até a escuridão ceder perante fulgor mórbido da anã branca rasgando a alvorada. Chegara tarde, demasiado tarde. Não havia mais ninguém, naquele planeta que o vira nascer…”
V.A.D. em Tarde Demais
Imagem: Crepúsculo (www.stevenbryant.com/blog/blogpix/malcesine_dawn_07_1.jpg)

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Quarta-feira, 7 de Maio de 2008

Sequência Principal

Nascença, a fragilidade do ser aconchegando-se no peito da progenitora, a dependência absoluta transformando-se paulatinamente na autonomia crescente dos anos que passam, plenos de novidade e prodígio, as descobertas sucedendo-se numa esfusiante cadência feita de brincadeiras e percepções, o mundo crescendo num permanente alargar de horizontes… Experimentação, as inúmeras possibilidades mostrando-se-lhe num caleidoscópio de simetrias multicolores e variáveis, a juventude avocando a natural irreverência de quem crê tudo poder... Emancipação, a dureza desafiadora das responsabilidades assumidas afigurando-se-lhe estimulante, as escolhas sendo feitas em impulsos, as emoções manifestando-se na indizível doçura de um amor consequente e prolífero… Domínio, o doce sabor do poder e dos feitos, a preciosa negação da insondabilidade dos mais profundos mistérios, a férrea vontade de caminhar no sentido da descoberta, a inacabada aprendizagem conferindo-lhe a convicção de pouco saber, o pouco que sabe parecendo-lhe insuficiente, a apressada procura de colmatar as lacunas fazendo-o sentir que o tempo escasseia… Decrepitude, a imponderabilidade das noções absurdas, a trémula incerteza do que há para vir, a irrealidade dos raciocínios impérvios assomando-se, estranha e incoerente, emaranhando a existência nos fios pegajosos da demência, ossos e músculos acusando o ónus das décadas… Decessa, nada mais que o vazio, a individualidade evolando-se em memórias que não passam de resíduos etéreos daquilo que fora, a identidade dissipando-se no irrevogável substrato do tempo, a espuma fantasmagórica da sua mente ficando somente registada nas palavras insistentemente grafadas em formato digital, até que o próprio suporte se desfaça…

Imagem: Mãos (www.europarl.europa.eu/eplive/expert/photo/20071107PHT12721/pict_20071107PHT12721.jpg )


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Segunda-feira, 5 de Maio de 2008

Estranha Estrela

“Incapaz de notar a indolência que se voltara a induzir, adormentei, flutuando na doçura serena da semi-obscuridade prenha de pensamentos gastos e renovados, tão absurdos e tão inconsequentes como os sonhos que iam nascendo, esmaecidos pela luz suave que penetrava pela janela, o estore ligeiramente subido negando as trevas e contrariando a espessura do sono vagaroso que insistia em apossar-se de mim…

O mundo orbitava em torno de uma estrela amarela do tipo G, a poucos anos-luz da periferia da Via Láctea, os crepúsculos tingidos a cores quentes gerando uma beleza indizível, a noite afigurando-se rara de estrelas, o profundo negrume do céu manchado apenas pela nitescência das nuvens de Magalhães e do distante braço da espiral, curvado como uma cimitarra sobre o núcleo galáctico. Apesar da nudez e do vento que sabia frio, sentia-me singularmente aconchegado, a noção de que havia retornado a casa insinuando-se-me intensa e segura como uma verdade intuída, da minha boca saindo frases que sabia conhecer mas de que não recordava o significado…

Despertei abruptamente, o sussurro suplicante da voz dela no meu ouvido implorando que acordasse, que a estava a amedrontar com as palavras pronunciadas numa língua desconhecida, que devia estar a ter um pesadelo estranho, pois sorria enquanto tremores espasmódicos me atravessavam o corpo num desconforme símile de êxtase, que os olhos abertos e fixos no nenhures a faziam julgar-me em algum delírio patológico. Virei-me para ela e beijei-a. Assegurei-lhe que tinha sido só um sonho sem nexo. Mas, teria sido apenas isso…?”

V.A.D. em Estranha Estrela

Imagem: Nuvens de Magalhães (www.astrosurf.com/antilhue/LMC55mmLRGB.jpg)


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