Quarta-feira, 31 de Outubro de 2007

Os outros (III)

“Soergui-me, um cotovelo apoiado no almadraque que de imediato se adaptou à pressão exercida. Um guincho inquietante, um uivo agudo pejado de surpresa meteu-se-me pelos ouvidos adentro, derrubando-me como se uma mão invisível me tivesse empurrado. Soube que qualquer coisa não estava certa; pareceu-me haver um novo odor na atmosfera, um fedor aflitivo a asco e repulsa, que me nauseou a ponto de vomitar o vácuo das minhas entranhas. E senti a dor, subtil mas incómoda. Não tive necessidade de levar a mão à nuca para saber que, enquanto inconsciente, aqueles cirurgiões diabólicos tinham estado a trabalhar, introduzindo condutores em centros do meu cérebro, micrometricamente localizados. Nessa massa de tecido hipertrofiado, com menos de quilo e meio de peso, feixes de nervos e tecido especializado dominam a disposição e as emoções, assim como o pensamento consciente e as actividades motoras. E então um medo estarrecido apoderou-se de mim, tolhendo-me irrevogavelmente. Apercebi-me que não era mais que um títere, estranhamente suspenso por fios condutores, indiscutivelmente manietado por impulsos eléctricos meticulosamente aplicados…”

V.A.D. em Os Outros.

Imagem: Implante Cerebral (www.motherjones.com/news/feature/2005/11/clicker_265x296.jpg)
música: I Put A Spell On You (Nina Simone)

publicado por V.A.D. às 02:36
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Terça-feira, 30 de Outubro de 2007

Os Outros (II)

“Um tremor incontrolável tomou conta de todos os músculos do meu corpo, como se o tivessem mergulhado nas águas geladas de um lago boreal. Uma luz azulada e difusa parecia amplificar a fantasmagoria atordoante de um cenário para o qual nada me podia ter preparado. Debruçada sobre mim, a vaga silhueta de um ser definitivamente alienígena focava nos meus os seus olhos, negros como as profundezas das fossas abissais, penetrantes e interrogativos como projécteis disparados pela arma da curiosidade. Através da visão periférica, conseguia discernir outros vultos, esguios e estáticos, rodeando a tarimba onde jazia indefeso. Para lá deles, naquilo que julgava serem paredes abobadadas, luzes suaves piscavam num frenesim multicolor de tinta salpicada. Um zumbido grave e quase imperceptível estremecia-me por dentro, contribuindo para aquela sensação de pânico, insidiosa como uma erva daninha, que sentia estar a formar-se dentro de minha mente. Julguei, por momentos, estar no meio de algum pesadelo aterrador. Era premente reagir de alguma forma…”

V.A.D. em Os Outros.

Imagem: Olhos Alienígenas (http://ufoundercover.homestead.com/Alien_Eyes_Green.jpg)

música: Don't Bring Me Down (Sia)

publicado por V.A.D. às 02:39
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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Os Outros (I)

“Acordei em sobressalto, no meio de uma sufocante desordem de pensamentos em tropelia, a consciência a ganhar forma rápida e titubeantemente, todavia ainda isolada do mundo por uma cegueira sensorial que abalava a minha placidez. Sentia-me protagonista de um filme sem conteúdo, projectado inexequivelmente depressa sobre uma tela defeituosa e ondulante. Um fosso de temores separava-me da vontade de abrir os olhos, o alarmante receio de que o corpo não obedecesse às ordens do cérebro impedia que me movesse. Pressentia a penumbra de um lugar frio e cinzento e um desconforme murmúrio de movimentos quase inaudíveis fazia-me crer que alguém se encontrava à espreita do meu despertar. Compreendi que devia virar os meus esforços para a necessidade de recordar o que me colocara naquela estranha situação, em que receava nem sequer ter a habilidade de me reconhecer. Percebi-me deitado de costas, nu sobre um catre duro mas de textura aveludada, os braços alinhados ao lado do corpo e as pernas estendidas. Cautelosamente, entreabri os olhos e sufoquei o grito que de imediato se formou na minha garganta…”

V.A.D. em Os Outros.

Imagem: Cegueira Sensorial (original em http://wado.podomatic.com/2007-04-02T11_03_15-07_00.jpg)

música: Sinkin' Soon (Norah Jones)

publicado por V.A.D. às 00:35
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Domingo, 28 de Outubro de 2007

Vento

Em qualquer parte, para lá do horizonte, irei desaparecer sem que restem quaisquer traços de mim. Irei embrulhado no frio vento que sopra de norte, carregado de cristais de gelo e suor, espalhando pelas desertas estepes a leve carga que sou… Vinte e um gramas de nada, um grande vazio outrora pejado de utopias. Aqui e agora, não há imutabilidade alguma. A brisa quente da vida, sussurrando incessantemente, desenha ondulações febris na seara dos meus pensamentos. Fabulosos sopros fazem rodopiar a minha capa, tingida de mil tonalidades subtis, tecida de emoções à solta. Drapejante como uma bandeira erguida no topo de uma colina, a voz da minha mente entoa as instruções dadas ao corpo, aprendidas ao longo das eras, feitas de instinto e intelecto. Deste lugar privilegiado, espreito os vales do passado, preenchidos pela névoa estagnada num ar cediço e sem movimento. O bafo doce e ténue de um futuro que desconheço enche-me os pulmões e infiltra-se-me nos sentidos. Será assim, até que os torvelinhos violentos de alguma indeclinável tempestade me arrastem, para lá do horizonte…

Imagem: Encarando o Vento (www.westernwindenergy.com/images/image_2.jpg)

música: Dust In The Wind (Linkin Park - Kansas Cover)

publicado por V.A.D. às 00:31
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Sexta-feira, 26 de Outubro de 2007

Poema de Viver

Dinâmica nostalgia, que revira por dentro e faz renascer; tristeza cinzenta e absurda ou esfuziante alegria. Motor prodigioso, alimentado de sonhos, gerador de gritos abafados e de sorrisos rasgados, tectónica de placas em constante deriva, que faz fechar os olhos e sentir frio na barriga. É isto, viver: face séria e lábios risonhos, desejos agradados e cenários medonhos. Louca roda em giro permanente, incrível de celeridade, fascinante e pungente, ruidosa e melífera. Correria desenfreada ou meditação profunda, êxtase iminente ou impassibilidade soporífera. Necessidade premente que flúi e tudo inunda, ou satisfação silenciosa. Rouca cacofonia ou melodia maviosa. Trilho indefinido por onde andamos errantes, eivados de pensamentos abafados ou de raciocínios brilhantes. É isto, viver: amar e rir, sentir e sofrer, vibrar ou tremer… É a imperecível busca do ser…

Imagem: A Grande Roda (original em www.monasette.com/blog/gallery/salthill/salthill_wheel.jpg)
música: Walk Of Life (Dire Straits)

publicado por V.A.D. às 02:01
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Quinta-feira, 25 de Outubro de 2007

O Tempo, O Espaço e O Ser

Estava sentado nos degraus do alpendre, admirando a beleza daquele final de dia. Um sopro outonal descia a serra e trazia consigo os cheiros rodopiantes da Natureza, feitos de fragrâncias silvestres de flores e pinho. O sol descia para as trevas, enroupando o mundo ao meu redor com os tons avermelhados da luz cada vez mais débil; o céu parecia uma abóbada de dimensões infinitas, cheia de ar renovador e fresco. Não é comum encontrar-me com uma calma assim, desprovida de imbecis desassossegos. Era capaz de ficar ali a contemplar a dádiva que os meus sentidos absorviam, entregue a meditações, até ao fim de todas as eternidades. Será o interminável tempo do Universo apenas um infindável número de tempos que cessam de existir, dando lugar a renovados inícios, o ciclo permanente de nascimento e morte a uma escala incomensurável? O que é o tempo senão uma ideia de continuidade, demitida de sentido sem o espaço? Compreendi, subitamente, não só com o meu cérebro, mas com todo o meu organismo que, no fundo, conhecia as respostas… As minhas respostas...

Imagem: Universo (www.faemalia.net/USPictures/Backgrounds/universe.jpg)

música: At The River (Groove Armada)

publicado por V.A.D. às 03:36
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Quarta-feira, 24 de Outubro de 2007

Vermelho, Branco, Negro

A música deixou de se fazer ouvir, esgotadas que estão as faixas do CD. Não me importo. Estou num lugar sossegado, o mutismo da atmosfera cálida circunda-me como um vasto tecido de veludo negro, macio como a brisa de uma noite de Verão. A luz mortiça de uma vela aromática enche de sombras bruxuleantes as paredes alvas, decoradas com quadros abstractos que parecem ganhar vida própria. Branco e negro, alguns traços de vermelho… Inspiro a fragrância suave e soporífera, e deixo-me escorregar no brando e aconchegante momento de quietação. Pouso o copo de conhaque e recosto-me no sofá, fechando os olhos para melhor sentir a pacificação que me inunda, que preenche os vazios de mim, qual sonho inteirando os vácuos inconscientes do sono. As imagens, agora ainda mais difusas, detêm-se em movimentos improváveis, branco, negro e vermelho… Chegas-te a mim, sinto o calor do teu encostar, percebo-o rubro. Atiça-se-me a vontade de cetim argênteo, antes do escuro olvido do repouso…

Imagem: Vermelho, Branco, Negro (produção própria)

música: Nights In Whie Satin (The Moody Blues)

publicado por V.A.D. às 14:10
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Terça-feira, 23 de Outubro de 2007

Naufrágio (III)

Exultação. Uma vaga de alegria, ampla e possante, abate-se de imediato sobre todo o meu ser, deixando-me esmagado pela jubilosa perspectiva de não vir a fenecer ingloriamente, devido a um acidente arbitrário e cruel. Redescubro, neste instante, a vontade de viver e os olhos enchem-se-me de lágrimas. Sinto-me tentado a agradecer a um deus em quem não acredito, o aparente milagre que está a ser operado. Acção. Recupero a lucidez e apercebo-me de que é forçoso fazer-me notar. Procuro freneticamente, por entre parco equipamento disponível, algo que possa assinalar a minha presença no interior da nave sem energia, onde só os sistemas de suporte da vida continuam operacionais. O apontador laser deve servir! Aproximo-me da escotilha e faço o dispositivo piscar intermitentemente, o foco dirigido para aquele veículo onde reside a esperança. Interrogação. Agora, mais calmo, vejo nascer na minha mente diversas questões para as quais não consigo entrever respostas: quem serão? Serão hostis? Reconhecer-me-ão como um ser inteligente? Por entre as incontáveis estrelas de um Universo ilimitado, quem sabe que formas de vida terão nascido…”

V.A.D. em Naufrágio.

Imagem: Feixe de Laser (www.sunbeamtech.com/PRODUCTS/images/laser_beam_led_r_550.jpg)

música: Too Sick To Pray (Alabama 3)

publicado por V.A.D. às 02:05
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Segunda-feira, 22 de Outubro de 2007

Pensamento De Mim

Milhares de impulsos electroquímicos atravessam o meu cérebro a cada instante, formando padrões de coerência invejável ou de louca desarmonia. Imagens vagas dissolvem-se quase instantaneamente, assim que acabam de ser formadas, enquanto outras permanecem vívidas e bem delineadas como se tivessem sido captadas por uma fabulosa câmara fotográfica, manejada destramente por um sabido retratista. Mapas de analogias e metáforas são desenhados a traço fino pelo topógrafo linguístico que às vezes se encarrega de as transmutar em sons, enquanto mantenho uma conversação com alguém. Compêndios de palavras são consultados e deles extraio, a cada segundo, os termos que parecem melhor definir os conceitos que fervilham na minha mente. Esquissos daquilo que me parecem ser grandes ideias acabam por ser evacuados como se de pútrida matéria fecal se tratassem e, às vezes, redescubro uma porção de lugares dentro da minha cabeça onde me é desagradável estar. Nas mais das vezes, os raciocínios não me envergonham. Posso é não ter a capacidade de os partilhar…

Imagem: Pensamento de Mim (http://exper.3drecursions.com/apo/just_a_moron_thought_of_mine_reprised_tmb.jpg)

música: Dream A Little Dream Of Me (Diana Krall)

publicado por V.A.D. às 01:07
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Domingo, 21 de Outubro de 2007

Tundra

“Fustigado pelo chicote invisível de um clima agreste que não é o meu, caminho curvado, evitando mecanicamente os raros e raquíticos arbustos rasteiros. Os olhos semicerrados, postos no chão, nada mais vêem que a desgraçada desolação do permafrost, pedras nuas e terra tão infértil como o meu estado de alma. Sinto um terrível frio, que me entorpece e me suga a energia, que me deixa exaurido de forças, que me dispersa por completo até nada mais ser que um corpo fragilizado e destituído de identidade, perdido há muito nos confins de um labiríntico pântano gelado. Detenho-me. Pontilhando o breu da extensa noite, imprevisíveis luzes cintilam à distância, promessas de um lugar onde me poderei abrigar de um cortante vento catabático que se me entranha nos ossos, na carne e na mente. Esqueci-me do calor, não sei a que sabe, e percebo em mim um medo absurdo de o reconhecer e apreciar. Tenho de vencer os receios a todo o custo, tenho de lutar para que não desista de me arrojar por esta tundra, permanentemente amaldiçoada e terminantemente inóspita, até reencontrar a civilização, até me reencontrar…”

V.A.D. em Tundra.

Imagem: Tundra (http://summit.k12.co.us/schools/sms/Copy%20of%20BiomeQuest/tundra/Images/Winter%20Scene%20516.jpg)

música: Fragile (Sting)

publicado por V.A.D. às 01:24
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