Quinta-feira, 31 de Maio de 2007

Mudança

“Só a mudança permanece”

(Heráclito de Éfeso)

Tudo nasce, cresce, envelhece, degenera e morre. E mesmo que haja um novo nascimento, uma nova vida, também isto é variação, e o que surge de novo seguirá o mesmo interminável ciclo. A mudança não é exclusiva dos seres vivos; está em toda a parte. Erguendo-se com lenta majestade, e desgastando-se por uma erosão ainda mais lenta, grão após grão, cume após cume, as montanhas nascem e morrem. A crosta terrestre está em movimento, quase imperceptível, mas constante: uma maciça placa tectónica afasta-se de outra para formar um novo oceano, e nesse trânsito colide com outra ainda, enrugando-se na forma de uma nova cadeia montanhosa. Sob a superfície, correntes de convecção magmáticas, lentas mas poderosas, são os agentes deste eterno movimento, que divide continentes, para mais tarde os juntar, ao ritmo de uma pulsação longa de muitos milhões de anos. Mais abaixo, no núcleo de ferro líquido, há redemoinhos que geram o campo magnético da Terra, o qual cresce de intensidade, só para mais tarde enfraquecer, morrer e renascer com polaridade invertida, brincando com bússolas e com pombos, e deixando desorientadas as pobres borboletas. A natureza parece insegura e desconfortável, para nós, seres humanos, que buscamos a permanência sob as asas do eterno e do imutável.

Imagem: Lava (www.pbs.org/wgbh/nova/volcano/images/anat_lava.jpg)

música: Rollin' and Tumblin' (Bob Dylan)

publicado por V.A.D. às 02:40
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Quarta-feira, 30 de Maio de 2007

Devastação

As devastações causadas no passado pela natureza excederam em muito as provocadas pelo Homem. A perspectiva de catástrofes não é novidade para as sociedades humanas: a peste bubónica matou talvez 75 milhões de pessoas e causou o desaparecimento de comunidades em grandes áreas da Europa e da Ásia durante a Idade Média; na China, nos finais do século dezanove, a fome dizimou um contingente de camponeses estimado em mais de duas dezenas de milhão. Desde então, inundações, longos períodos de seca, furacões e epidemias continuam a atestar os contínuos caprichos destruidores da natureza. Por ignorância e avidez, a humanidade muitas vezes acelerou a deterioração do ecossistema global com a erosão do solo, com o derrube de florestas, com o cultivo exagerado e impróprio dos campos e, no último século, com o aumento exponencial da emissão de gases que representam um perigo acrescido para a estabilidade, sempre precária, do clima do nosso planeta. Equilibrar crescimento e declínio, cautela e desenvolvimento, Homem e Natureza, é um requisito essencial para que possamos manter um modo de vida tolerável.

Imagem: Devastação (www.artuk.co.uk/waashow2/azure/artwork/In%20Devastation1.jpg)

música: The End Of The world (The Cure)

publicado por V.A.D. às 02:11
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Terça-feira, 29 de Maio de 2007

Terra Incognita

“Ao subir a ravina, tivera a primeira sensação de mistério e ameaça, a impressão profunda de que aquela não era uma terra familiar. Com a chegada da primeira luz, parte do medo evaporara-se. Agora ele podia ver se algo se aproximara deles às ocultas; o que visse podia ele enfrentar. Não havia nada para observar, excepto as grandes árvores que cobriam tudo em volta e se curvavam sobre eles, as copas maciças cobertas por espessas camadas de musgo e líquenes, dando-lhes um aspecto tenebroso. A sensação sombria de maldição manteve-se. Aperceberam-se de que falavam em murmúrios, quando falavam, porque o silêncio sob as árvores era tão pesado que parecia irreverente quebrá-lo. (…) Perguntou a si próprio se outros pés além dos deles já teriam alguma vez pisado aquela terra.”

Excerto de Onde Mora o Mal, de Clifford D.Simak, escritor e construtor de mundos alternativos, mencionado pela segunda vez neste blog. A par de O Outro Lado do Tempo, considero este magistral romance o expoente máximo da obra de Simak, que nos transporta muitas vezes para um tempo fora do tempo, e para um universo que, embora paralelo ao nosso, é sabiamente tecido pela fantástica criatividade do autor.

Imagem: Terra Incognita (www.handgraphics.com/SF_Portfolio/Barbero,%20Terra%20Incognita,%20Litho.jpg)

música: Speak To Me (Pink Floyd)

publicado por V.A.D. às 01:58
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Segunda-feira, 28 de Maio de 2007

Futuro Infinito

A ficção científica, mais do que qualquer outro género literário, reflecte o facto incontornável de vivermos num universo em constante mudança. Embora estabeleça estereótipos, são daquilo que um dia poderá acontecer ou aconteceu, ou ainda daquilo que podia ter acontecido, mas constituem sempre apresentações de uma forma modificada do mundo. As atitudes que viermos a tomar nos próximos anos virão a ser cruciais para o destino do nosso planeta e da própria humanidade. Começámo-nos a aperceber disso há já algumas décadas, primeiro pela tomada de consciência do perigo nuclear, e ultimamente pela percepção de que as alterações climáticas, em grande parte provocadas pela acção humana, podem ser fatais. Se quisermos, enquanto espécie, sobreviver para o Futuro Infinito que alguns autores conseguiram insuflar nos nossos sonhos, teremos de prestar uma profunda atenção política ao que fazemos com os produtos da ciência e com os seus indesejáveis derivados. Sendo inegável que a ficção científica tem tido um papel importante na divulgação de possíveis cenários catastróficos, não pode desempenhar apenas a função de uma Cassandra, nem pintar sempre um quadro distópico do que há-de vir, pois uma dieta constante de pessimismo e horror seria digerível apenas para um misantropo. A divulgação de histórias de homens dominando a natureza por meio dos seus recursos, e a fé de que a humanidade saberá transpor os obstáculos que se lhe possam deparar, são dois dos motivos que me levam a apreciar tanto este género tão mal-amado.

Imagem: Cassandra (www.kzu.ch/fach/as/aktuell/1999/risk/images_risk/cassandra.jpg)

música: Imitation Of Life (R.E.M.)

publicado por V.A.D. às 00:38
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Domingo, 27 de Maio de 2007

Imperfeição

O dia morria num halo de glória e a noite prometia ser amena, pois o crepúsculo era apenas sacudido por uma brisa suave, o bastante para empurrar as flores roxas caídas das árvores sem nome, e dar aos rostos das pessoas uma cor mais viva. Os sentimentos de inconstância e de volatilidade de dias anteriores haviam-se dissipado por completo, agora que o passeio solitário estava a terminar. Os passos compassados, sem destino e sem pressa, ajudaram-no a descer as escadas mal iluminadas da sua consciência, onde residia a raiz dos problemas. Afinal, reconheceu, era simples lidar com a ansiedade inconsequente que frequentemente o martirizava. Bastou perceber que nunca conseguiria alcançar a perfeição e a infalibilidade que teimava em exigir, de si próprio e dos outros. Porque ninguém é perfeito…

Imagem: Imperfeição (http://perso.orange.fr/kuhfgug/Chaos%20Legion/Images/Imperfection.jpg)

música: Perfect Day (Lou Reed)

publicado por V.A.D. às 01:18
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Sábado, 26 de Maio de 2007

Amadurecer

O crescimento não é coisa fácil para qualquer organismo, em qualquer parte do Mundo. As cobras mudam de pele, as aves abandonam a segurança do ninho, os insectos constroem casulos, e deles saem alados, tendo esquecido já o anterior estado larvar. A ecdise dos crustáceos é, sem que provavelmente se dêem conta disso, a fase mais problemática da vida destes organismos; os predadores são impiedosos no aproveitamento das fragilidades. Os carnívoros jovens são afastados das mães e enfrentam a difícil luta pela sobrevivência. É geralmente duro, e algumas vezes fatal. Não é muito diferente para os seres humanos, até pelo facto de a sua mudança não ser apenas de carácter fisiológico. Quando uma criança deixa de ser criança, os ritos de passagem são dolorosos e não isentos de perigo. O processo de amadurecimento é difícil para qualquer um, mas infinitamente mais complicado para aqueles que pensam que já são adultos, especialmente quando a noção de que são o centro do universo se revela completamente ilusória.

Imagem: Transição

música: Wise Up (Aimee Mann)

publicado por V.A.D. às 02:59
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Sexta-feira, 25 de Maio de 2007

Integração

A pressa, a insatisfação, o desalento, a pressão, o cansaço, são como martelos que se abatem sobre nós e nos quebram, sem que disso demos conta, reduzindo-nos a insignificantes partes, disformes e desconexas, ininteligíveis aos outros e a nós próprios. Deixamos de ser inteiros. Contingências que nos são externas, ou dissociações pontuais da nossa personalidade, levam-nos a este estado alterado, anormal e absurdo, que nos corrói como um ácido e que empesta o ar que os outros respiram, infectando-os, afectando-os, contagiando-os… Depois, há quem pegue nos nossos cacos e os agrupe, como se de peças de puzzle fôssemos feitos. A reconstrução é penosa e exige minúcia, mas a paciência opera milagres e a unicidade enfim regressa.

Imagem: Homem Puzzle (www.pcsengineering.com/images/PuzzleMan.jpg)

música: Just The Way You Are (Barry White)

publicado por V.A.D. às 02:29
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Quinta-feira, 24 de Maio de 2007

Acordar

Despertei calmamente com a luz limpa, cor de prata, da paz interior. Senti os pensamentos a tomar forma e abri os olhos. Voltei-me para ver as horas e suspirei de alívio: ainda era cedo; podia dormir mais um pouco. À minha volta, o silêncio aconchegante convidava à preguiça, e a claridade tímida que penetrava no quarto não me impedia de voltar a mergulhar no sono. Deixei-me embalar pela suavidade ritmada da própria respiração e as pálpebras, pesadas, voltaram a cerrar-se. Permiti que a mente se esvaziasse de actividade consciente, enquanto cada músculo do corpo se descontraía. Adormeci…

Imagem: Dormindo (www.tobinmueller.com/artsforge/martin/sleeping.jpg)

música: Home (Zero Seven)

publicado por V.A.D. às 02:36
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Quarta-feira, 23 de Maio de 2007

LGM

Na nossa galáxia existem cem mil milhões de estrelas e, de acordo com recentes descobertas, fornecidas pela astronomia, muitas delas estão rodeadas de planetas, constituídos pelos mesmos componentes que os do nosso sistema solar. Alguns desses planetas têm certamente água em estado líquido, uma atmosfera equilibrada e as mesmas flutuações climáticas a que a Terra está sujeita. As moléculas nos mares alienígenas sofrem as mesmas combinações químicas, obedecendo às mesmas leis que regem os átomos no nosso planeta. Cometas e meteoritos caem na superfície, trazendo com eles aminoácidos formados nas nebulosas e nos grandes espaços interestelares, e tempestades eléctricas fornecem a energia crucial ao desenvolvimento da química orgânica. Todas as condições necessárias ao aparecimento da vida estão satisfeitas. E ela surge, primeiro sob formas simples, evoluindo depois, numa crescente complexidade… Não temos razões para pensar que somos a única forma de vida no Universo. Até porque, como alguém disse, a ausência de provas não é prova da ausência.

Imagem: Exobiologia (www.na.astro.it/meetings/astrobiology/graphics/Exobiology_1024x7683_corn.gif)

música: After It All (Cat Power)

publicado por V.A.D. às 02:05
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Terça-feira, 22 de Maio de 2007

Contos do Insólito

“Amo a noite com paixão, com um amor instintivo, profundo, invencível. Amo-a com todos os meus sentidos, com os olhos que a vêem, com o olfacto que a respira, com os ouvidos que a escutam em silêncio, com toda a minha carne que as trevas acariciam. As calhandras cantam ao sol, ao ar azul e quente, ao ar ligeiro das manhãs claras. O mocho foge na noite, mancha negra que passa através do espaço escuro e, alegre, embriagado pela negra imensidade, solta o seu grito vibrante e sinistro. O dia cansa-me e entedia-me. È brutal e ruidoso. Levanto-me a custo, visto-me com lassidão, saio com mágoa, e cada passo, cada movimento, cada gesto, cada palavra, cada pensamento cansa-me como se levantasse um fardo esmagador. Mas quando o sol desce, uma alegria confusa, uma alegria de todo o meu corpo invade-me. Desperto, animo-me. À medida que a sombra aumenta, sinto-me outro diferente, mais jovem, mais forte, mais vivo, mais feliz. Vejo a grande sombra suave caída do seu a espessar-se: afoga a cidade, como uma onda imperceptível e impenetrável; oculta, apaga, destrói as cores e as formas. (…) Um impetuoso, um invencível desejo de amar acende-se-me nas veias.”

Excerto de A Noite, de Guy de Maupassant, um dos melhores contistas franceses de sempre. Nascido em 1850, viria a falecer aos 42 anos, após tentativa de suicídio, resultante de perturbações causadas pela sífilis. Em parte da sua vasta obra, Maupassant envereda pela exploração do terror e do macabro, em óbvio paralelismo com a sua própria descida ao inferno da loucura.

Imagem: Noite (www.konect.org/blog/images/nuit.jpg)

música: Numb (Linkin Park)

publicado por V.A.D. às 02:28
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