Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

Textos Interligados

“E vi o brilho despido do espaço, as imagens ainda gravadas na retina fazendo-me perceber a mortalidade intrínseca, levando-me a aceitar a minha própria exiguidade face às incomensuráveis vastidões daquele prodígio. Sentei-me a um canto do compartimento gratificantemente finito, os joelhos envolvidos pelos braços, o tronco vergado pelo basto peso da percepção que me atingira como um martelo enfurecido, os olhos fechados em busca da escuridão onde talvez se desvanecesse o medo da minha própria finitude. Pela primeira vez em muitos meses conheci de novo a sensação de estar fora do meu lugar, de não pertencer a nada, de ser um intruso num mundo que me devia ser vedado… Contudo, perdura a indeclinável e até crescente noção de absoluta inteireza, obtida para além da fachada do trivial através de olhos que não os meus, os momentos de puro fascínio continuando a fazer-me sonhar, talvez presunçosamente, com inevitabilidades. Expressa a vontade, valer-me-ei até da eternidade que não me foi concedida, mas que desejo ainda mais profundamente…”

V.A.D. em Texto Interligado I
 
“E escutei a crueza das palavras, os sons ainda gravados na mente fazendo-me perceber a minha mediocridade intrínseca, levando-me a aceitar a minha própria insignificância face às incomensuráveis complexidades da existência. Sentei-me a um canto do compartimento incomodamente silencioso, os joelhos cingidos pelos braços, o tronco curvado pelo basto peso da percepção que me ferira como um martelo enfurecido, os olhos fechados em busca da escuridão onde talvez se desvanecesse o medo da minha própria finitude. Os murmúrios da rua chegavam-me vagamente aos ouvidos através da janela fechada ao frio das primeiras noites de Novembro, incapazes de silenciar o ruído que me transtornava a fluidez dos pensamentos. Encarcerei-me na nudez glacial de uma cela cinzenta, arrastado numa incongruente espiral de desânimo, desejoso que a vigília penosa desse lugar ao sono reparador. Dormirei sem sonhos, mas talvez acorde ainda capaz de sonhar com o riso despreocupado de quem tem a vida por inteiro, talvez me force a despertar da letargia lodacenta em que me afundo, talvez me eleve acima das abissais fossas da prostração… Valer-me-ei da eternidade que não me foi concedida, invocarei todas as minhas energias para não ceder à angústia da indeclinável delonga…”
V.A.D. em Texto Interligado II

publicado por V.A.D. às 03:00
link do post | comentar | favorito
|
1 comentário:
De Melissa Yedda a 4 de Novembro de 2008 às 01:24
Apesar de ser , talvez, somente ficção, acho que ninguém consegue escrever daquilo que não provou...
As alegrias vem e vão, as dores também. E logo o sol volta a brilhar!
Um abraço


Comentar post

.quem eu sou...

.pesquisar

 

.Abril 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30


.posts recentes

. Curvatura

. O horizonte de eventos e ...

. Subjectividade

. O "capacete de deus"

. Apontamento (II)

. Apontamento

. Alter Orbe (II)

. Alter Orbe (I)

. Marte

. Regresso

.arquivos

. Abril 2013

. Fevereiro 2013

. Fevereiro 2012

. Junho 2011

. Janeiro 2011

. Março 2010

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

.tags

. todas as tags

.links

.Blog Nomeado Para:

.contador

blogs SAPO

.subscrever feeds