Terça-feira, 20 de Maio de 2008

Tarde Demais (V)

“A nave corria através dos limites superiores da estratosfera, apunhalando o ar frio, um rasto incandescente cruzando os céus como um cometa. De súbito, um insistente piscar despertou-o das lucubrações que lhe atravessavam a mente. Trinta e oito graus acima do equador, numa enorme ilha entre duas massas continentais, um transponder de IFF emitia o código que assomava agora perante si, o visor holográfico anunciando o possível fim da sua própria solidão. Conteve com dificuldade a satisfação transbordante, as lágrimas marejando-lhe os olhos, o coração acelerando numa reacção instintiva de felicidade, a certeza de que encontrara os seus anunciando-se pela confirmação via rádio, o longo silêncio sendo quebrado numa manifestação feita do júbilo que transparecia na sua voz. Tantas perguntas, tantas respostas, eram tantas, as saudades…! Inseriu as coordenadas que o levariam ao local de pouso e conversou até à supressão das comunicações, os gases ionizados pelo atrito dispersando as ondas, a entrada na atmosfera elevando a temperatura até valores infernais e isolando o veículo por doze minutos que se assemelharam a séculos. A turbulência deu lugar à quietude do voo planado, a trajectória sinuosa reduzindo a velocidade e permitindo-lhe vislumbrar os contornos difusos das falésias alcantiladas brotando das águas de um azul profundo e os grandiosos edifícios reflectindo em tons metálicos o sol daquela manhã estival. Aterrou num imenso planalto, a longa pista pavimentada encurtando-se até os freios aerodinâmicos contrariarem em definitivo a inércia. Foi recebido por uma pequena delegação, as altas individualidades e os esculápios assegurando-se do seu bem-estar, cientificando-o de minudências circunstanciais e de informações pertinentes. Achava-se em Atlantis; duas gerações haviam tornado aquela terra estranha num novo lar, a ilha passando de despovoada a exílio de inteligências. Não, não iria encontrar contemporâneos: chegara tarde demais.”

V.A.D. em Tarde Demais
Imagem: Atlantis (original em http://atlantis.csillagkapu.hu/kep/atlantis.jpg)

publicado por V.A.D. às 03:00
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10 comentários:
De Fisga a 20 de Maio de 2008 às 11:33
Eu confesso que não sei quantos anos é uma geração mas será entre 75 e 100 anos? Assim sendo, poderemos pensar em 150 a 200 anos. O que significa que o tempo no espaço corre mais devagar. Será? Também segundo reza o ditado, sempre será melhor chegar tarde, não encontrar os antepassados, do que não chegar. Foi bom. Um abraço e uma boa semana


De V.A.D. a 22 de Maio de 2008 às 01:43
Ao contrário do que o senso comum nos pode fazer crer, o tempo não flui de forma constante para todos os referenciais, sendo a rapidez da sua passagem inversamente proporcional à velocidade. Se pudéssemos viajar como a luz, seríamos capazes de atravessar o universo sem que envelhecêssemos um segundo, sequer. Para nós, o tempo teria parado...
Consideremos agora um outro factor, importante no desenrolar da história. O protagonista encontrava-se, durante a maior parte do trajecto, num estado de animação suspensa, os processos fisiológicos havendo sido retardados, o envelhecimento sendo ludibriado...

Agradecendo as suas palavras, desejo-lhe uma óptima noite e um excelente feriado, amigo!

Um abraço.


De Fisga a 22 de Maio de 2008 às 10:13
Em cada alerta que nos é feito, nós verificamos a abertura de mais uma porta. Este seu alerta fez-me pensar e daí concluir que se assim não fosse não se teria concluído que a lei da relatividade é um facto. Um bom feriado e um abraço.



De V.A.D. a 25 de Maio de 2008 às 23:52
De facto, amigo, há particularidades na natureza das coisas que nos fazem pensar que a realidade pode ser mais estranha que a própria ficção...

Agradecendo as suas palavras, desejo-lhe uma óptima noite e uma magnífica semana!

Um abraço.


De Emanuela a 20 de Maio de 2008 às 23:52
"Tantas perguntas, tantas respostas, eram tantas, as saudades…!"- Ficar longe das pessoas da nossa convivência, daqueles que amamos ou por quem temos algum tipo de afeição, cria uma expectativa que pode jamais ser saciada. Nem há a necessidade de gerações de distanciamento. As vezes esta solidão se verifica mesmo em meio aos nossos iguais.
Beijos


De V.A.D. a 22 de Maio de 2008 às 01:50
Subscrevo na íntegra, amiga... Podemos sentir-nos sós, até no meio da multidão...
Embora tenha conseguido chegar até junto dos da sua espécie, o protagonista sentir-se-á sempre um estranho entre iguais: o tempo roubou-lhe os contemporâneos e sempre olhará o passado distante como o ontem ainda tão próximo...

Desejo-te uma magnífica noite, amiga!

Um beijo e um enormeeeeeeee sorriso... :-)


De KI a 27 de Maio de 2008 às 02:17
Às vezes é muito difícil entender o que dizes mas quando descubro que basta sentir fica maais fácil compreender a ambiguidade do que descreves.

Boa Noite :)


De V.A.D. a 28 de Maio de 2008 às 01:35
Olá, Ki :-)
Reconheço que alguns dos meus textos não são de fácil entendimento, até porque tendo a escrever sobre questões ligadas ao espaço, área pela qual nutro um especial interesse. Contudo, as descrições que faço são, regra geral, plausíveis e baseadas em dados concretos, podendo delas extrair-se alguma informação. Neste texto, por exemplo, os efeitos da entrada na atmosfera correspondem à realidade: durante uma dúzia de minutos, o gás ionizado pelo aumento da temperatura, resultante do atrito, impede que as comunicações via rádio se efectuem...

Embora alienígena, o protagonista apresenta emoções e reacções em tudo semelhantes às dos humanos. Convenhamos que, numa situação como a que ele vivia, as lágrimas facilmente brotariam dos olhos e que as saudades se fariam sentir...

Fico muitíssimo contente por saber que, mais do que entender, se pode sentir o que escrevo... :-)

Pedindo desculpa pelo atraso da minha resposta, não podia deixar de agradecer as tuas palavras, amiga.

Um beijo e um enormeeeeeeeeee sorriso... :-)


De Café com Natas a 6 de Junho de 2008 às 23:42
Chegara tarde demais, mas ainda assim se sentia vivo...
E os cometas a murmurar impropérios... e olha, nem digo mais, eu fico parva com as tuas descrições pormenorizadas e das tuas personificações.
Tarde demais... nunca será tarde demais para ti pensar seriamente em dedicar-te mesmo à escrita de ficção cientifica. Mas olha... sem ficção também lá vai, Ah pois!
Enquanto esperamos por um livro vamos lendo por aqui. :)
Fica bem, beijinhos


De V.A.D. a 7 de Junho de 2008 às 02:59
Oh, amiga... As tuas palavras gentis encantam-me e deixam-me cheio de contentamento...
Vou-te confessar uma coisa: há uns dias recebi um e-mail de uma editora, convidando-me a apresentar alguns dos meus escritos... Mas, como tens certamente podido constatar, o tempo tem sido tão, tão escasso que ainda nem sequer lhes enviei nada e pelo menos até ao final deste mês não conto poder fazê-lo. Envolvi-me num novo projecto profissional e o processo tem sido profícuo mas imensamente desgastante...

Conto poder fazer uma visita ao teu espaço no final deste dia de sábado. Agradecendo a tua presença aqui, desejo-te uma magnífica noite e um dia cheio de sol... :-)

Um beijo e um enormeeeeeeeeeeee sorriso... :-)


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