Sexta-feira, 9 de Maio de 2008

Tarde Demais (I)

“Durante um ínfimo instante, por entre todos os silêncios incontidos, a luz arroxeada do crepúsculo uniu-se às tonalidades fortes do céu há muito sem nuvens, o sol prestes a ajoelhar-se por debaixo do mundo deixando a sua marca num instantâneo fotograma revelado pela retina. Viu-os como deviam ter sido nos últimos dias, arrastando-se nas sombras que se agigantavam, as bocas abertas num arquejo sufocante, os gemidos de autocomiseração abafados pela vagarosa inanidade dos seus próprios raciocínios. As montanhas estavam ali, negras como as trevas que se avizinhavam, a seca nudez dos penhascos eriçando-se em direcção às estrelas cegas, a planície adjacente, outrora fértil, apresentando-se austera na desalentada esterilidade da exaustão. E o vento soprava frio e frouxo, ainda assim chicoteando-lhe a face e os cabelos, varrendo os ossos acumulados no solo sem cor, as sucessivas gerações amontoando-se em maroiços de minerais sem vida que se iam lentamente transformando em poeira, os cometas murmurando impropérios no seu percurso rotineiro. Vagueou a noite inteira, até a escuridão ceder perante fulgor mórbido da anã branca rasgando a alvorada. Chegara tarde, demasiado tarde. Não havia mais ninguém, naquele planeta que o vira nascer…”
V.A.D. em Tarde Demais
Imagem: Crepúsculo (www.stevenbryant.com/blog/blogpix/malcesine_dawn_07_1.jpg)

publicado por V.A.D. às 03:00
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14 comentários:
De **** a 9 de Maio de 2008 às 23:22
“...o sol prestes a ajoelhar-se por debaixo do mundo deixando a sua marca num instantâneo fotograma revelado pela retina.” – uma imagem fantástica que impressiona não as células nos globos oculares, mas a imaginação. Está simplesmente sublime a tua descrição, dum espaço que embora desolado tem o seu encanto, nem que nos rematamos somente às memórias da “planície adjacente, outrora fértil”, do recordar do que foi belo.
Não chegando a este limite, muitas vezes certas visões afogam-nos ”na desalentada esterilidade da exaustão”, não nos deparando com estes “ossos acumulados no solo” literalmente, mas fazendo-nos sentir que “Não havia mais ninguém”.

Por vezes sim... chegamos “tarde, demasiado tarde”...
... por vezes decidimos continuar a tentar mesmo assim.

Mesmo muitos beijos.
E uma óptima noite rodeada
Sophia

PS- Amigo, desculpa não ter comentado os teus textos... Apesar do cansaço, não abdico nunca do prazer de os ler, de verificar a cada dia se uma outra viagem se avizinha e de me passear um pouco pelas tuas paisagens, contudo não tenho encontrado tempo para fazer os comentários que tu mereces...


De V.A.D. a 10 de Maio de 2008 às 02:29
Por vezes, a minha imaginação leva-me a um tempo fora do nosso alcance, os dias do fim apresentando-se-me já ali, na manhã que se segue... E sinto-me invadir por uma nostalgia de um passado que ainda não aconteceu, a saudade do futuro fazendo-me vaguear por entre as palavras que vou escrevendo, perdido em lucubrações que reflectem talvez alguma exaustão...

Independentemente dos resultados, creio que o estímulo maior reside tentativa de se atingir uma meta. Não nos podemos dar ao luxo de desistir, enquanto as hipótese não se esgotarem... :-)

Agradecendo as tuas palavras, que representam um inestimável incentivo, desejo-te uma óptima noite e um excelente fim-de-semana, amiga!

Um beijo e um enormeeeeeeeeee sorriso... :-)

P.S. Amiga, não tens de pedir desculpa por nada. Sei que o tempo é sempre curto; tenho-me debatido exactamente com esse mesmo problema... *


De Fisga a 10 de Maio de 2008 às 15:55
Não sei se o ditado ou provérbio antigo, aqui terá lugar, mas ele diz que, vale mais tarde que nunca. Um abraço e bom fim-de-semana.


De V.A.D. a 12 de Maio de 2008 às 02:02
Amigo, de certa forma, o ditado aplica-se mesmo neste caso. Embora tenha encontrado o seu mundo completamente irreconhecível, houve alguém que finalmente chegou a "casa"...
Um choque assim seria deveras arrasador e, embora tivesse pensado fazer um único capítulo deste conto, resolvi dar continuidade a uma história que espero poder ser interessante.

Votos de uma óptima noite e de uma excelente semana!

Um abraço.


De ligeirinha a 10 de Maio de 2008 às 20:01
Olá VAD Não sei se tens visto as "movimentações "no blog da Maria João acerca dum portatil para ela. Queres aderir? Lê os comentários e depois dá-me a reposta, ok? Beijinhos!


De V.A.D. a 12 de Maio de 2008 às 02:11
Olá, amiga. Tenho andado, nestes últimos dias, relativamente ausente da blogoesfera, não tendo tido, por isso, a oportunidade de verificar quaisquer movimentações. Contudo, conheço as dificuldades de hardware que vêm sendo sentidas pela nossa amiga. Estarei disponível para o que for necessário.

Votos de uma óptima noite e de uma magnífica semana!

Um beijo e um enormeeeeeeeeeee sorriso... :-)


De Café com Natas a 10 de Maio de 2008 às 23:09
"Vagueou a noite inteira, até a escuridão ceder perante fulgor mórbido da anã branca rasgando a alvorada. Chegara tarde, demasiado tarde. Não havia mais ninguém, naquele planeta que o vira nascer…"

Provavelmente estaria demasiado cansado para observar que afinal sempre estivera acompanhado, embora a escuridão da noite não o deixasse vislumbrar mais ninguém.
Bem, um dia destes entro aqui e já nem sei mais comentar sem me estar a repetir. Acho que devias pensar em publicar um livro.
Beijinhos e um sorriso


De V.A.D. a 12 de Maio de 2008 às 02:22
Provavelmente, a exaustão ter-lhe-ia retirado o discernimento, o choque deixando-o incapaz de aceitar que o cataclismo teria representado a condenação de todas as formas de vida à superfície do planeta... :-)
Amiga, graças aos gentis comentários de que este texto foi alvo, resolvi dar continuidade à história que inicialmente se resumia a este capítulo. Espero vir a construir algo que possa ser considerado interessante.

Agradeço as tuas amabilíssimas palavras; é claro que a ideia de ver os meus escritos publicados é muito, muito apelativa. Contudo, não me vejo com capacidade para arcar com tal responsabilidade, mesmo que alguma editora pudesse vir a interessar-se pelos meus contos...

Desejo-te uma óptima noite e uma excelente semana!

Um beijo e um enormeeeeeeeeeeee sorriso... :-)


De Pérola a 11 de Maio de 2008 às 17:55
Fizeste-me lembrar o filme "A lenda", em que um homem fica totalmente sozinho numa cidade. Acaba por colocar bonecos para ter com quem falar, para não enlouquecer.

Um grande beijo, amigo. Excelente semana para ti!


De V.A.D. a 12 de Maio de 2008 às 02:29
Amiga, creio que uma situação assim representaria um enorme choque para quem a vivesse, o mundo revelando-se em ruínas, algum terrível cataclismo cósmico tendo destruído aquilo que fora o seu lar...

Inicialmente, havia planeado apenas este capítulo em que pretendia ter a distopia como alicerce da história. Contudo, e face à amabilidade dos comentários de que o texto foi alvo, resolvi dar-lhe continuidade. Espero poder construir algo que possa ser considerado interessante... :-)

Desejo-te uma óptima noite e uma magnífica semana!

Um beijo e um enormeeeeeeeeee sorriso... :-)


De TiBéu ( Isa) a 11 de Maio de 2008 às 22:59
Nunca é Tarde Demais na vida temos tempo para tudo apesar das correrias todos. Gosto de passar pelo teu cantinho. Boa noite e beijo amigo


De V.A.D. a 12 de Maio de 2008 às 02:34
Gosto de pensar que assim pode ser, amiga. Contudo, há situações em que o tempo perdido jamais será recuperado. Neste caso, o protagonista não chegou a tempo de ver o seu mundo intacto; algum cataclismo cósmico destruiu-lhe o lar...
Resolvi dar continuidade à história; apesar do terrível contratempo, a esperança vai-se sobrepor a tudo... :-)

Obrigado pelas tuas amáveis palavras, amiga. Desejo-te uma óptima noite e uma magnífica semana!

Um beijo e um enormeeeeeeeeee sorriso... :-)



De Emanuela a 12 de Maio de 2008 às 01:46
A desalentadora sensação de chegar , quando já nada se pode fazer para mudar uma realidade que não é desejada é algo muito difícil de aceitar. Ainda assim é sempre esperar que um dia a escuridão se desfaça e que a luz de uma alvorada ansiada mostre que algo sobrou e que há do que recomeçar...( vai ter continuação?)
Beijinhos , amigo. Boa semana para ti!


De V.A.D. a 12 de Maio de 2008 às 02:43
Seria certamente uma situação terrível, chegar-se ao lar e vê-lo destruído por algum cataclismo cósmico, sentir-se que o mundo tinha irrevogavelmente ruído, toda a vida à superfície havendo desaparecido, deixando apenas uma indescritível sensação de impotência e solidão...

Amiga, tinha pensado apenas um capítulo, para esta breve história alicerçada numa distopia melancólica. Mas, graças aos amáveis comentários de quem faz o favor de me ler, resolvi dar-lhe continuidade. Espero poder ser capaz de escrever algo que possa ser considerado interessante... :-)

Desejo-te uma óptima noite e uma excelente semana!

Um beijo e um enormeeeeeeeeee sorriso... :-)


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