Segunda-feira, 21 de Abril de 2008

Sol Vermelho (IX)

“Ela chegou, elegante e segura, o seu olhar cruzando-se com o meu, os sorrisos estampando-se nos nossos rostos numa demonstração de indiscutível cumplicidade, o abraço que lhe havia ensinado mostrando-nos a intensidade recíproca do afecto. Sentámo-nos sob a pequena árvore descendente das antigas palmeiras, o jardim do complexo habitacional onde agora vivia apresentando-se magnificamente cuidado pelos robots, o banco feito de uma espécie de espuma biológica moldando-se aos nossos corpos esguios e saudáveis, encostados enquanto contemplávamos silenciosamente o mar que se estendia sereno até ao horizonte, aquilo que fora o Atlântico fazendo parte do imenso oceano que rodeava de água o agora único continente do velho planeta. Observámos assim o crepúsculo, o sol vermelho enchendo de tonalidades quentes a atmosfera calma, o ar enchendo-se de coleópteros bioluminescentes num espectáculo que me fazia retornar à infância, os pirilampos parecendo ter encontrado o caminho para a continuidade da espécie. As nossas vidas haviam sido interligadas por circunstâncias inesperadas. Queria que esse entrelaçamento se aprofundasse e viesse a frutificar. Enchendo-me de audácia, virei-me para ela e coloquei-lhe enfim a questão que se insinuava há muito na minha mente e que havia calado tantas vezes. A resposta, imediata e calorosa, inundou-me de uma felicidade que chegara a supor estar-me irreversivelmente vedada…”

V.A.D. em Sol Vermelho

Imagem: Pirilampos (http://farm1.static.flickr.com/140/376367551_7a1b2ad16b.jpg)


publicado por V.A.D. às 13:00
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12 comentários:
De perola a 21 de Abril de 2008 às 20:30
Ai, pões-te a escrever estas coisas, olha, esqueço-me e ponho-me em manteiga!
Gostei muito, descreveste muito bem a empatia entre as pessoas que se gostam.
Um grande beijo e uma noite estrelada, meu amigo.


De V.A.D. a 22 de Abril de 2008 às 01:53
Obrigado, amiga, pelas tuas palavras de apreço em relação à descrição que fiz daquilo a que costumo chamar de "silêncio cómodo"... :-)
Só pela empatia se consegue atingir esse estágio, as palavras revelando-se desnecessárias para a transcrição desse bem-estar que nasce de uma ligação que se aprofunda... :-)

Desejo-te uma magnífica noite, amiga!

Um beijo e um enormeeeeeeeee sorriso... :-)


De Fisga a 21 de Abril de 2008 às 20:36
Resumindo e concluindo: Cabe aqui a celebre frase bíblica: (No princípio era o Verbo). Assim. Ou seja o ciclo fechou-se e tudo comessa de novo. Será? Boa noite e um abraço



De V.A.D. a 22 de Abril de 2008 às 01:55
Toda a vida é feita de ciclos, meu amigo... O passado não regressa e, embora as memórias possam não se desvanecer por completo, há que seguir em frente, em busca daquilo que é a plenitude da existência...

Desejo-lhe uma magnífica noite!

Um abraço.


De Fisga a 22 de Abril de 2008 às 10:04
De facto não foi bem isso que eu quis dizer. O que eu quis dizer foi que a História que se repete. Um abraço e bom dia de trabalho.


De V.A.D. a 23 de Abril de 2008 às 01:30
Meu amigo, quando referi que tudo é cíclico, a própria noção de recomeço, de repetição, está implícita. A própria história raramente foge a essa regra.
A sua referência à frase bíblica "No princípio era o verbo", pareceu-me sobejamente enigmática, pois representa para os crentes a ideia de que no princípio, antes de tudo, existia deus... Algo de que veementemente discordo, pois o meu ateísmo assim o determina. Além disso, do conto nada transparece que se assemelhe a alguma forma de religiosidade; pelo contrário, valoriza-se a capacidade adaptativa do homem, enquanto ser inteligente e hábil, mas também capaz de expressar uma emotividade que lhe é característica.

Votos de uma magnífica noite!

Um abraço.


De Fisga a 23 de Abril de 2008 às 10:58
Eu peguei numa frase bíblica como poderia ter pegado noutra. O termo (no principio era o verbo) no contexto em que está quer significar que tudo era novo e desconhecido. Pegando agora no tópico que me serviu de trave no texto numero I de o sol vermelho, (Fiquei ali de pé deixando que a minha memória me conduzisse numa reconstituição precisa dos últimos instantes da minha anterior existência). No meu fraco entender deduzi caqui que se ia tratar de um salto para o desconhecido (tudo seria novo e desconhecido). Um abraço e um bom dia.


De V.A.D. a 24 de Abril de 2008 às 00:28
A frase tem notoriamente uma conotação teológica. Por isso, não posso concordar com o seu uso nesta situação em concreto. Além disso, o seu significado é bem explicado na Wikipédia; basta que procuremos o termo grego "Logos" que é traduzido como "verbo" ou "palavra" mas que na verdade é usado na acepção "espírito" ou "deus"...

Votos de uma excelente noite, amigo!

Um abraço.


De Emanuela a 22 de Abril de 2008 às 02:53
Sorrisos, abraços, cumplicidade... Coisas simples e mágicas em qualquer tempo e lugar. Acho que é algo que o ser “humano” jamais pode perder. São coisas que remetem sempre à esperança e ao sonho.
Beijinhos


De V.A.D. a 23 de Abril de 2008 às 01:35
Quero acreditar que a evolução do Homem não lhe cerceará essa estranha e maravilhosa capacidade de se emocionar e de expressar os seus sentimentos através de gestos tão simples e profundos... :-)

Obrigado, amiga, pelas tuas palavras. Desejo-te uma noite muito, muito agradável.

Um beijo e um enormeeeeeeeeee sorriso... :-)


De **** a 22 de Abril de 2008 às 20:42
“...os sorrisos estampando-se nos nossos rostos numa demonstração de indiscutível cumplicidade, o abraço que lhe havia ensinado mostrando-nos a intensidade recíproca do afecto. ” – ressoam os ecos deste presente nessa relação, confundindo-se com gestos que nos podem fazer identificar com certos episódios reais.
Cada vez gosto mais da união tão improvável destes dois seres e da forma como a descreves... mas também eu sou terrível (se bem que orgulhosamente) suspeita nesta apreciação

"...o ar enchendo-se de coleópteros bioluminescentes num espectáculo que me fazia retornar à infância, os pirilampos parecendo ter encontrado o caminho para a continuidade da espécie." - adorei esta imagem... simplesmente não sei que acrescentar, prendeu-me, maravilhou-me, tirou-me da memória as tarefas que me consomem o tempo e as energias, consegui abstrair-me delas e por isso agradeço-te.

Este conto evoluiu num sentido que nunca teria suposto nos seus primeiros passos...
Algo as consequências dessa “resposta, imediata e calorosa”…

Muitos Beijos
e uma noite cheia de uma felicidade tão inesperada como essa

Sophia


De V.A.D. a 23 de Abril de 2008 às 02:24
Apaixonei-me, há muitos anos, pela ficção científica, mas nem toda a escrita me merece a mesma veneração. Os cenários têm de ser plausíveis, as emoções precisam de ser um espelho daquilo que sentimos, a escrita tem forçosamente de ser coerente com uma pseudo-realidade baseada em leis provadas. Tento seguir estes princípios quando, de forma titubeante, vou construindo estes enredos... Seria pouco provável que dois seres de espécies tão diferentes se apaixonassem. Contudo, ao humano tinha sido dado um corpo em tudo semelhante ao dos seus parentes afastados; a mente tem uma enorme capacidade adaptativa e creio terem todo o cabimento, os desejos e sentimentos que vieram a despontar entre ambos... :-)

Os pirilampos, amiga, vêm directamente das minhas memórias de infância, as noites estivais marcadas pelo espectáculo das luzes lindíssimas preenchendo a noite tépida, a bioluminescência dos insectos e as estrelas criando uma imagem que ficará gravada na mente até ao fim dos meus dias... :-)

Sabes que costumo ir escrevendo ao sabor das palavras, as situações sendo criadas à medida que vou usando o teclado mas, regra geral, obedecendo a um guião mais ou menos pré-estabelecido. Mas, desta vez, o caminho que o conto tomou diverge substancialmente da ideia original. Talvez a aproveite para um dos próximos escritos... :-)

Agradecendo as tuas palavras, desejo-te uma magnífica noite!

Um beijo e um enormeeeeeeeeeee sorriso... :-)


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