Sábado, 19 de Abril de 2008

Sol Vermelho (VII)

“O choque quis destruir a minha sanidade, os pesadelos inundando-me como volutas negras e acres durante a noite, uma catalepsia agonizante enchendo os dias que se seguiram à revelação da verdade, a mente agachada refugiando-se no beco escuro e sombrio do desespero, encurralada por um fosso que se abria, profundo e horrendo, e que a separava do tempo a que pertencia por direito próprio. Sentia-me irremediavelmente perdido, um estranho entre a sua própria descendência, as incontáveis gerações apartando-me, enquanto indivíduo, da espécie que já não era a minha, arrancado fortuitamente a um passado a que me via impossibilitado de regressar, atirado para um futuro onde não encontrava raízes. As semanas escoavam-se por entre interrogatórios fastidiosos e intermináveis testes psicotécnicos, a desalentada monotonia sendo apenas diminuída ao crepúsculo quando os olhar da neurocirurgiã se afundava no meu, o pretexto de verificar a minha condição servindo para justificar as visitas diárias que se me iam aparentando cada vez mais pessoais que médicas. Aos poucos, via-me a aumentar a fluência numa linguagem cujos étimos me eram bem conhecidos, a comunicação tornando-se cada vez mais fácil e apetecida. Íamo-nos esquecendo do tempo, embalados em conversas que se prolongavam mais e mais, a negrura do céu, suavizada pelo vermelho do sol retirado, servindo muitas vezes como tecto, a estranha ausência de Selene não obstando a um enamoramento crescente. Pensei muitas vezes nos poetas desta singular época, a merencória luz da lua não podendo figurar nos seus escritos, a literatura, embora empobrecida, não deixando por isso de glorificar o amor que sempre pode despontar entre dois seres…”

V.A.D. em Sol Vermelho

Imagem: Sob o Céu (original em www.arthurdurkee.net/images/JTsunset5446w.jpg)


publicado por V.A.D. às 14:30
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6 comentários:
De alexiaa a 19 de Abril de 2008 às 14:36
Bolas, o primeiro paragrafo parece uma descrição detalhada da minha noite de ontem:).
Espero que estejas bem, não tenho passado por aqui, ando ocupada a deprimir:) mas sempre que bato no fundo venho a correr ler-te porque me sinto mais...capaz!

Um beijo!


De V.A.D. a 21 de Abril de 2008 às 01:51
Olá! É muito agradável ler-te por aqui... :-)
Mera coincidência, essa semelhança que referes. Contudo, os pesadelos são mesmo assim, momentos em que a mente fica atordoada pelos receios, fundados ou infundados, que se manifestam enquanto dormimos...
Agradecendo as tuas palavras, formulo o desejo de que a depressão seja passageira e que possas rapidamente readquirir ânimo.

Desejo-te uma óptima noite e uma excelente semana!

Um beijo... :-)


De **** a 20 de Abril de 2008 às 02:32
"Sentia-me irremediavelmente perdido, um estranho entre a sua própria descendência, as incontáveis gerações apartando-me, enquanto indivíduo, da espécie que já não era a minha..." - devia ser uma sensação de tal forma peculiar que mal a poderia imaginar. Cria-se uma relação em parte de proximidade, mas que o afasta dos seus anfitriões. Um choque para o qual não estariam nem um nem os outros preparados...
Com as desconfortáveis investigações descritas é fácil esquecer a naturesa desse ser que é o objecto de estudo. Vem então relação entre o tão estranho duo que se vai "esquecendo do tempo, embalados em conversas que se prolongavam mais e mais", diminuir o abismo...

"... a desalentada monotonia sendo apenas diminuída ao crepúsculo quando os olhar da neurocirurgiã se afundava no meu..." - parece que não se ficaram só pelo primeiro olhar.
Como será o crepúsculo nessa terra dum outro sol?

Seria difícil encarar outro sol...
A noite seria estranha sem a lua, sairia esse tempo e a literatura mais pobre... Mesmo na ausência deste símbolo recorrente de feminilidade e fonte clássica de inspiração, não se mostrou nem ela nem as diferenças entre ambossuficientes para impedir "o amor sempre pode despontar entre dois seres"...

Beijos
e uma óptima noite
... esta com a lua quase totalmente cheia

Sophia


De V.A.D. a 21 de Abril de 2008 às 02:21
É difícil imaginar a confusão que se instalaria na mente de alguém inadvertidamente arrancado ao seu próprio tempo, o futuro distante servindo de palco à estranheza de se ver perante seres que descenderiam da sua própria espécie, mas afastados dele por um abismo de evos... Reconheceria nos outros algumas das suas características, mas sentir-se-ia certamente desadaptado, a própria luz da estrela, tão diferente daquilo a que estaria habituado, realçando essa noção de separação... E a bataria de testes a que se via submetido fá-lo-ia sentir-se uma mera cobaia...

Mas, tinham-lhe dado um corpo novo e funcional. A mente acaba por se adaptar e há coisas que a própria evolução não poderá apagar... Não, não se ficaram pelo primeiro olhar, pois "o amor sempre pode despontar entre dois seres"... :-)

"Fecho os olhos e imagino crepúsculos..." Poderia ser um subtítulo apropriado para este conto... Gostava de poder ver o ocaso de uma estrela que não a nossa... :-)

Desejo-te uma óptima noite, cheia de luar, e uma semana magnífica, amiga!

Um beijo e um enormeeeeeeeeeee sorriso... :-)


De Emanuela a 20 de Abril de 2008 às 20:24
Na hora em que percebemos perdido um bem que para nós é precioso, é esta a reação. A impressão de estarmos perdendo a sanidade instalando-se dia a dia, um vazio, um não querer reagir... E não precisamos nem ser arrancados do nosso tempo para sentir tudo isto, a própria vida tantas vezes nos exilando de coisas, lugares ou pessoas que amamos. No entanto, um interesse verdadeiro de alguém é capaz de nos arrancar de toda esta dor. Mas, a despeito de se dizer que basta ser amado para que sejamos salvos, de minha parte acredito que é preciso que nós amemos. Seja a vida, a nós mesmos ou outro alguém.
Neste momento do teu conto, faço uma comparação com o perder para a morte. Quando alguém morre só há uma coisa a fazer: aceitar, porque para este tempo aquele ser está perdido. No entanto, enquanto acreditamos em um mínimo de vida, continuamos à espera...
Beijinhos


De V.A.D. a 21 de Abril de 2008 às 02:30
Amiga, fizeste uma fantástica síntese daquilo que o protagonista estaria a sentir; ele tinha sido fortuitamente apartado do seu próprio tempo e caminhava para um abismo, encurralado que estava pelos fantasmas de tudo o que havia perdido...

Mas, alguém lhe "deu a mão", através do olhar, através das conversas que lhe afastavam os receios e lhe transmitiam um afecto crescente, aliás recíproco... Concordo contigo: não basta ser-se amado, é preciso amar...

Há circunstâncias em que os imprevistos têm de ser aceites para que se possa continuar a percorrer o caminho... :-)

Agradecendo as tuas gentis palavras, desejo-te uma óptima noite e uma magnífica semana!

Um beijo e um enormeeeeeeeee sorriso... :-)


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