Segunda-feira, 14 de Abril de 2008

Sol Vermelho (IV)

“Sou Jon’hoh, o comandante. O nosso mundo está à beira do fim. Passaram-se já nove mil milhões de anos desde que a nossa estrela nasceu, a fase de gigante vermelha assimptótica havendo-se já iniciado há vários séculos, o colapso gravitacional resultante do esgotamento do hidrogénio no núcleo levando a um aumento da temperatura, a transmutação do hélio em carbono tornando-se factível, as camadas exteriores expandindo-se pela súbita pressão termodinâmica vinda do interior. É quase irónico, pensar que o elemento em que toda a vida conhecida se baseia esteja a ser criado desta forma, o processo que leva a esta génese ameaçando de extinção todo um ecossistema, o pagamento de um evo de vida sobre o planeta prestes a ser cobrado. Aprendemos a dominar os mais ínfimos aspectos da biologia, somos capazes de prorrogar a morte quase indefinidamente mas ver-nos-emos na contingência de abandonar o nosso lar definitivamente, antes de sermos obliterados pela fotosfera do astro moribundo, caso o escudo protector se venha a manifestar incapaz de alterar o destino.

As minhas cogitações são interrompidas, a hora do teste aproximando-se numa irreversível contagem decrescente, o gerador de radiações, posicionado algumas milhas acima da atmosfera, aguardando o premir do botão, os sensores da nave em voo sub-orbital apontados para o ponto onde a descarga terá a máxima intensidade. A sequência é iniciada e concluída com exactidão, o êxito parecendo reforçar a esperança no futuro. Subitamente, o imediato agita-se, alertando-me para um objecto improvável, escuro e danificado, surgindo no monitor como uma mancha informe…”

V.A.D. em Sol Vermelho

Imagem: Planeta (original em www.natrium42.com/halo/flight2/thumbs/IMG_0461.jpg)


publicado por V.A.D. às 03:30
link do post | comentar | favorito
|
10 comentários:
De **** a 15 de Abril de 2008 às 00:39
“É quase irónico, pensar que o elemento em que toda a vida conhecida se baseia esteja a ser criado desta forma” – a vida em si é muitas vezes dona da mais refinada ironia, sendo quase impossível encontrar algo que, depois de nos beneficiar, não possa vir a cobrar o favor. Talvez sejamos nós a emprestar essas qualidades, vendo nos fenómenos “quase” uma deliberação cuidada, uma arguta inteligência, um sentido de humor de tons demasiadamente escuros...

“Aprendemos a dominar os mais ínfimos aspectos da biologia, somos capazes de prorrogar a morte quase indefinidamente mas ver-nos-emos na contingência de abandonar o nosso lar” – uma vez um colega perguntou a uma professora, mais ou menos por estas palavras, quando o sol iria explodir. Vendo a professora a demorar na resposta e o colega alarmado, disse-lhe que antes disso havia boas hipóteses da humanidade se obliterar a si mesma sem chegarmos a ver “fotosfera do astro moribundo”. Hoje não sou mais positiva, mas acredito mais no nosso instinto de sobrevivência e na capacidade de improviso retardada mas eficaz na sua obstinação.
Não sei a que preço, mas acho que vamos ficar por cá mais uns milharzinhos de milhões de anos.

... mas “As minhas cogitações são interrompidas” para falar do capítulo e do conto. Esta simplesmente sublime, iniciando-se uma viagem da qual me faço clandestina sob a luz desse outro sol. Nunca me deixa de maravilhar o quão literária e bela até é a tua ficção científica...
“...o êxito parecendo reforçar a esperança no futuro” – diz-se sempre que é a última a morrer, mas esperemos que esta não se antecipe ao definhar do sol.

Muitos Beijos
e, num pacato imediato que não se agita, desejo-te uma óptima noite

Sophia


De V.A.D. a 15 de Abril de 2008 às 02:40
Estou profundamente convencido de tudo está sujeito a uma sequência de nascimento, apogeu, declínio e fim, uma sinusóide podendo representar fielmente os ciclos de que o Universo é pródigo. Muitas mentes se têm debruçado sobre estas questões iminentemente filosóficas, concluindo que à destruição pode suceder a criação. Morre uma estrela, nascem os elementos essenciais à génese da vida...
Entendo o Cosmo não como resultado de um desenho inteligente, mas como uma estrutura complexa, dentro da qual se dá uma evolução contínua, fruto das leis físicas que a regem.

A humanidade é belicosa e intrinsecamente destrutiva, mas creio que também é capaz de perceber os riscos de certas escolhas e recuar, quando o caminho conduz a um precipício. Tenho uma grande confiança no futuro de uma espécie que tem revelado uma enorme habilidade adaptativa e gosto de pensar, tal como tu, que os nossos descendentes continuarão a propagar os genes durante muito, muito tempo... :-)

Amiga, não és de forma alguma uma clandestina nesta viagem; reservei para ti um lugar de observadora, numa missão a que pretendo dar um final inesperado.
Mais uma vez agradeço a gentileza que deixas transparecer nas tuas palavras. Sei que não sou nenhum escritor, mas tento dar aos meus escritos algo de mim próprio, e das sensações que me percorrem ao imaginar estes cenários... :-)

Que a tua noite possa também ser repleta de momentos pacatos, minha amiga!

Um beijo e um enormeeeeeeeeee sorriso... :-)


De Cöllyßry a 15 de Abril de 2008 às 18:53
De facto é complexo, todo o sistema cósmico, que o Homem teima em querer alterar
E curioso nem se dá conta, que o deixam…mas até a um ponto, a partir dai já outros valores se levantam, e dai não passaram…Isto foi um aparte meu

Aqui por momento viajei no tempo, e assustadoramente parece que vi o futuro
Para mal da Humanidade, Sabes doce amigo que há estrelas de pertença de quem as forma? Pela energia dos actos e estado de quando a sua paragem neste plano físico…

É cósmica a Tua escrita…

Doce beijo, e uma terna noite


De V.A.D. a 16 de Abril de 2008 às 14:14
A vastidão do Universo encerra mistérios que, aos poucos, vão sendo deslindados, através da procura do conhecimento. Muito se sabe hoje acerca de fenómenos como o ciclo de vida de uma estrela; aproveitei os dados para dar à história ficcionada um cariz de alguma divulgação científica.

Fico muito contente por saber que aquilo que vou escrevendo tem essa capacidade de gerar emoções, através da descrição de cenários que, embora inventados, são plausíveis.
Por isso, amiga, cabe-me agradecer as tuas gentis palavras, que sempre representam um enorme incentivo.

Aproveito também para te desejar um dia magnífico!

Um beijo e um enormeeeeeeeeee sorriso... :-)


De Fisga a 15 de Abril de 2008 às 20:28
Pode depreender-se daqui que a frase que diz tudo nasce e tudo morre, é mais do que uma verdade, é uma constatação, por isso também o sol vermelho não vai certamente escapar à regra, fica apenas uma duvida: Para quando o ultimo ocaso. Um abraço e uma boa noite.


De V.A.D. a 17 de Abril de 2008 às 01:23
A natureza e o Cosmo são feitos de ciclos, todas as coisas estando sujeitas a esta sucessão de eventos que começa num nascimento e acaba numa morte... Mas a morte de algumas coisas pode representar a vida de outras...
Nada escapa a esta regra, nem o sol vermelho. A fase de gigante é como que o último fôlego, antes do derradeiro apagão...

Votos de uma excelente noite, amigo!

Um abraço.


De Fisga a 17 de Abril de 2008 às 11:18
Pois amigo é assim. Já um Sr. que não conheci, porque Já tinha falecido, dizia: Nada se perde tudo se transforma, enquanto não houver a prova do contrário
temos que acreditar que assim é. Um abraço e um bom dia.


De V.A.D. a 19 de Abril de 2008 às 01:34
Lavoisier, conseguiu perceber que a mudança é feita num interminável ciclo, a Natureza renovando-se constantemente...

Obrigado, amigo. Desejo-lhe uma óptima noite e um magnífico fim-de-semana!

Um abraço.


De Emanuela a 18 de Abril de 2008 às 02:25
Por mais que os seres ( humanos ou outros dos quais não temos conhecimento) lutem contra a morte, creio que a Natureza sempre se mostrará mais forte, desafiadora. Jamais teremos controle total sobre ela...


De V.A.D. a 19 de Abril de 2008 às 01:38
Concordo inteiramente contigo, amiga. A Natureza rege-se por leis que determinam ciclos, a morte representando o fim, a vida sucedendo-lhe numa cadência infindável...
A longevidade dos próprios seres humanos está limitada pela arquitectura do ADN, os telómeros determinando o número máximo de divisões celulares. Podemos apenas prorrogar o inevitável... :-)

Desejo-te uma óptima noite e um excelente fim-de-semana!

Um beijo e um enormeeeeeeeeeee sorriso... :-)


Comentar post

.quem eu sou...

.pesquisar

 

.Abril 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30


.posts recentes

. Curvatura

. O horizonte de eventos e ...

. Subjectividade

. O "capacete de deus"

. Apontamento (II)

. Apontamento

. Alter Orbe (II)

. Alter Orbe (I)

. Marte

. Regresso

.arquivos

. Abril 2013

. Fevereiro 2013

. Fevereiro 2012

. Junho 2011

. Janeiro 2011

. Março 2010

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

.tags

. todas as tags

.links

.Blog Nomeado Para:

.contador

blogs SAPO

.subscrever feeds