Terça-feira, 18 de Março de 2008

Antiquitera (III)

“Os meus olhos perscrutavam a multidão ainda fervilhante de actividade, homens a carregar e a descarregar, a consertar e a preparar, a levar e a trazer, condutores de burros acarretando a lenha que se transformaria no fogo luminoso, um chicote a precipitar-se sobre as espaldas de um escravo que laborava com a lentidão indesejada pelo amo, o rumor cacofónico rolando ao meu encontro numa mescla de conversas e risos, de gritos e regateios, de relinchos e de bater de cascos naquele chão que Alexandre mandara empedrar. Por todo o lado se viam mercadores, as suas roupas ostentadoras de riqueza, as cores vibrantes contrastando com a tez escurecida pelo sol dos que apenas usavam tangas ou ofuscando os cafetãs desbotados e remendados dos marinheiros e caceteiros das docas. Avultando-se, esbelta e alva, os cabelos de um inaudito amarelo doirado, a estrangeira estendia um braço desnudo em minha direcção, num aceno de uma candura incomparável. Inexplicavelmente, uma espécie de hipnose tomou-me por completo, os ruídos silenciando-se misteriosamente, a minha vista fixando-se na profundidade azul daqueles lúzios impossíveis. Expulsando da mente o abalo, dirigi-me a ela, os passos inseguros disfarçados pelo cumprimento que lhe dirigi em grego, uma vénia correspondida pelo curvar airoso do seu corpo jovem, a clareza e perfeição da sua voz anunciando-a como Freyja, irmã de Fricka, cunhada de Wotan e princesa da Suécia, a ausência de qualquer indício de sotaque revelando uma extraordinária erudição. Caminhámos ao longo do molhe, ela referindo-se às suas indagações sobre a Biblioteca e sobre o trabalho desenvolvido por mim e pelos meus antecessores, eu questionando-a sobre as indubitáveis peripécias de tão longa viagem…”

V.A.D.

V.A.D. e Sophia em Antiquitera

Imagem: Eunostos (http://cache02.stormap.sapo.pt/fotostore01/fotos//e8/9b/af/1833813_0Lw2Y.jpeg)


publicado por V.A.D. às 15:00
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12 comentários:
De emanuela a 18 de Março de 2008 às 20:00
E ficamos na espera do próximo capítulo, cheios de curiosidade...
Beijinhos.


De V.A.D. a 19 de Março de 2008 às 01:11
É bom, perceber que o conto tem conseguido, até agora gerar essa curiosidade, amiga... :-)

Desejo-te uma excelente noite!

Um beijo e um enormeeeeeeeee sorriso... :-)


De dhayan a 19 de Março de 2008 às 23:21
A descrição da cidade é simplesmente genial. Adorei.
Freyja, espero que faça jus ao seu nome e honre os vanir neste conto que caminha para a minha pasta de favoritos, não se importam pois não?!
Vad, retribuo com outro enoooooooooooorme sorriso e um abraço.


De V.A.D. a 20 de Março de 2008 às 02:32
Agradeço as tuas palavras, amiga. Sabes, gostaria de poder viajar no tempo, para contemplar as maravilhas de certas civilizações que, embora perdidas nas profundezas do tempo, ainda se deixam vislumbrar através dos achados arqueológicos que fascinam e nos fazem pensar na habilidade e sapiência dos nossos antepassados.
Neste modesto conto, tentamos recriar os cenários que imaginamos terem sido palco de alguns dos maiores exemplos do engenho humano, juntando ao enredo as ideias mirabolantes de Von Daniken e um pedacinho da mitologia nórdica... Parece uma enorme confusão... Espero que sejamos capazes de construir algo que se possa revelar interessante... :-)

Um beijo e um abraçooooooooooooo... :-)


De emanuela a 20 de Março de 2008 às 02:22
Hei amigo... cadê a continuação? Estou cheia de curiosidade!!!!!!
Beijinhos


De V.A.D. a 20 de Março de 2008 às 02:35
Olá, amiga :-) O quarto capítulo já está pronto para publicação, a ser feita às 15 horas de hoje; o atraso deve-se apenas às inconstâncias e falhas do sapo mail, que nos pregou uma partida... :-(

Desejo-te uma magnífica noite!

Um beijo e um enormeeeeeeeeee sorriso... :-)


De Fisga a 20 de Março de 2008 às 21:13
Eu vou começar por confessar um pecado: De propósito não quis ler os posts anteriores, antes de comentar este: porque ao ler este post senti-me de tal forma, fora do meu estado normal, que nem sei explicar.
Mas sei, isso sim, que fiquei na dúvida: Se estava a ler uma História de Príncipes e de Princesas, encantados, se estava a ler sobre uma peça de teatro, ou um soneto de Camões ainda não publicado. Ou ainda uma epopeia qualquer, para mim desconhecida. Mas sei que a melodia contida nesta prosa mexeu comigo e transportou-me para lugares paradisíacos. OBRIGADO e um grande abraço. Boa noite.


De V.A.D. a 21 de Março de 2008 às 23:41
Amigo, nem sabe quão grande é a satisfação que sinto, por perceber que o texto teve esse tão grande poder...
Agradeço-lhe as gentis palavras, que representam para mim um enorme incentivo.

Aproveito para lhe desejar uma magnífica noite e uma Páscoa cheia de saúde... e amêndoas...!

Um abraço!


De Fisga a 22 de Março de 2008 às 09:35
Olá amigo VAD Pois é assim. Eu adorei ainda não sei bem porquê tenho que reler para ver o que aquele post. Tem de magico para mim. Em todo o caso aproveito para lhe sugerir que essa sua parceria com a Sophia, seja selada com selo de ouro, porque ela promete, vocês são os dois de muito alta competição, embora eu ainda não conheça o blog da Sophia, Mas com tempo eu vou procura-lo. Um grande abraço para os dois e uma muito boa Páscoa para todos.


De V.A.D. a 22 de Março de 2008 às 21:58
Sei que as palavras podem ter um poder imenso, transportando-nos muitas vezes para mundos que fazem parte do nosso imaginário, criando emoções ou despertando memórias. Saber que este texto foi capaz de impressionar desta forma, constitui para mim motivo de enorme satisfação, amigo!
Considero a Sophia uma jovem fora do comum, com um talento e um nível de conhecimentos verdadeiramente notáveis. Para que não tenha de procurar muito, deixo-lhe o link para o blog que ela partilha com três amigas: http://flipside.blogs.sapo.pt

Desejo-lhe também uma excelente Páscoa, amigo!

Um abraço.


De Fisga a 23 de Março de 2008 às 11:06
Obrigado amigo VAD, pela disponibilidade em me facultar o blog assim o tempo que poupo emprego-o a ler. Porque eu em matéria de PC sou um pouco mais vagaroso do que os alentejanos genuínos. Sem desprimor para eles ou outros que não o sejam. Um abraço.


De V.A.D. a 23 de Março de 2008 às 20:43
Não tem de agradecer, amigo! É um grande prazer poder divulgar um blog que merece, de facto, ser visitado assiduamente.

Votos de uma excelente noite!

Um abraço.


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