Sexta-feira, 7 de Março de 2008

Cidónia (X)

                   

“A noite fora espantosamente fria, um érebo gelado e seco assenhoreando-se das horas sem luz, as temperaturas atingindo valores inconcebivelmente baixos, os ventos aninhando-se numa hibernação transitória até a luz os trazer de novo à actividade. O amanhecer revelou-se desusadamente alvo, a neve carbónica cobrindo fendas e manchando a rubidez da superfície com reflexos extraordinários, coroando de brilho a última manhã marciana. Trinta dias de puro êxtase e de laboriosa pesquisa haviam-se escoado por entre fascínio e cognição, a expedição terminando abruptamente, as ordens vindas da Terra representando uma peremptória antecipação do regresso. Registadas nas câmaras de vídeo e gravadas nas nossas memórias, estavam demasiadas respostas a outras tantas questões. Desde que havíamos penetrado nos segredos da Face, as comunicações passaram a ser encriptadas e estritamente de voz. A nenhum dado foi permitida a transmissão, nenhuma imagem alcançando as antenas apontadas a Marte, o sigilo absoluto acautelando o elevadíssimo investimento das seis nações envolvidas. Devo referir que sempre foi feroz, o meu antagonismo a esta decisão. Creio na verdade e na transparência, o reconhecimento de que Lowell havia sido um visionário afigurando-se-me a atitude apropriada, a consideração de que Vishnu nascera no planeta vermelho parecendo-me prenhe de razoabilidade... Sim, porque eu estive lá e vi…!

 

Epílogo

 

A viagem de retorno arrastou-se, longa e sofrida, as recordações da incrível peripécia insinuando-se, vívidas, nos sonhos serenamente inquietos, as emoções resultantes de uma experiência única na história da humanidade anunciando-se nas olheiras dimanantes de uma ascese científica que podia ter mudado definitivamente o futuro. Fomos recebidos como heróis, aclamados como pioneiros e, contudo, quase decorrida uma década, o secretismo continua a negar o esclarecimento, cerceando o avanço. Ainda que forçado a esconder-me atrás de um pseudónimo e de um I.P. flutuante, decidi levantar a ponta do véu.”

V.A.D. em Cidónia

Vídeo: Estruturas Artificiais em Marte (www.youtube.com/watch?v=Di85p5vfo0k&feature=related)


publicado por V.A.D. às 03:10
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14 comentários:
De poetaporkedeusker a 7 de Março de 2008 às 04:07
Excelente epílogo V.A.D.! E agora? Vais para onde?
Não me digas que também te preparas para o "logout" final...
Abraço!


De V.A.D. a 8 de Março de 2008 às 02:05
Obrigado, amiga. Ainda estou a digerir a enorme quantidade de informação obtida na pesquisa feita acerca das anomalias de Cidónia. Sabia da existência da Face desde 1987 mas, por incrível que pareça, não é tema que pareça interessar à grande maioria dos media...

Não, não vou fazer nenhum "logout". Descobri há pouco que a escrita pode ser um enorme prazer e, por isso, ainda têm de aturar por mais algum tempo, eheheheh :-)

Desejo-te uma óptima noite e um excelente fim-de-semana!

Um beijo... :-)


De poetaporkedeusker a 8 de Março de 2008 às 13:47
Um beijo também para ti V.A.D.
Fico muito contente por continuar a "aturar-te". Ainda bem que existem pessoas como tu!:)


De V.A.D. a 8 de Março de 2008 às 22:28
Agradeço-te, uma vez mais. São sempre amáveis, as tuas palavras, amiga!

Votos de um excelente final de sábado e de um domingo soalheiro!

Um beijo... :-)


De Fisga a 7 de Março de 2008 às 14:45
Finalmente chegou ao fim, com todos os percalsos superados, ainda bem que assim foi. Pode não usufruir desse direito mas merece umas boas férias. Parabens e bom fim de semana.


De V.A.D. a 8 de Março de 2008 às 02:08
O protagonista parece apenas ter direito à clandestinidade, o medo de falar abertamente levando-o a esconder-se sob a capa de um pseudónimo...

Obrigado, amigo. Também eu lhe desejo uma magnífica noite e um excelente fim-de-semana!

Um abraço.


De **** a 7 de Março de 2008 às 19:15
"Registadas nas câmaras de vídeo e gravadas nas nossas memórias, estavam demasiadas respostas a outras tantas questões " e que provocavam uma tremenda enchente de novas perguntas na mente de cada um daqueles seres humanos que partia daquele lugar de sonho.
Tive inveja de cada um desses 30 dias, de cada uma dessas 30 noites frias, desses 30 amanheceres alvos, mas não desta “longa e sofrida” viagem, nem tão pouco deste muito longo e ainda mais sofrido silêncio imposto, deste véu mais pesado do que qualquer burca que faz esconder algo maravilhoso com a derradeira natureza desta especial “Face”. A ciência, ao longo dos tempos e principalmente neste momento, evoluiria muito mais depressa caso houvesse um clima de abertura, de partilha de informações, de colaboração para a obtenção de conhecimentos que derradeiramente podem afectar toda a humanidade. Há algumas instituições científicas que já procuram fazer isso, deixando as patentes que vão conseguindo no seu seio sem qualquer restrição de consulta e desenvolvimento. Contudo se tudo no meio científico se baseasse “na verdade e na transparência” a economia ressentir-se-ia. Como já tinha dito noutro contexto “outro valor mais alto se alevanta” e adia-se assim um pouco mais o revelar dum conhecimento fantástico, mais umas décadas se acrescentam aos séculos que esperámos para dar de caras com a mensagem em Marte – a humanidade demorou a preparar os meios técnicos para decriptar a mensagem, mas esses acham que nunca estará pronta para a conhecer.

Adorei este conto... deveras estás de parabéns.

Beijos
ansiosos pela próxima história

Sophia


De V.A.D. a 8 de Março de 2008 às 02:49
Não sou capaz de imaginar o que uma descoberta daquelas representaria, concepções preconceituosas tendo de ser revistas, enigmas encontrando soluções que apenas levariam a outros mistérios... Creio que o status quo seria seriamente abalado e dar-se-ia um enorme salto no sentido de se perceber não só a verdadeira insignificância do ser humano, mas também a real magnitude da inteligência.

Confesso-te que eu próprio senti inveja do personagem que criei; também eu queria ter estado lá, mesmo que a Face se revelasse apenas uma anomalia areológica. No conto, usei o termo "geologia" por lapso, uma vez que em relação a Marte esta ciência tem um nome mais apropriado. Estou certo que esta falha é desculpável, até porque torna mais fácil, a compreensão.

Tomei conhecimento da existência de diversas estruturas estranhas no planeta vermelho aí pelo ano de 1987 e, desde essa altura, a ideia de aprofundar o assunto não mais me saiu da cabeça. No processo que levou, diariamente, à construção desta história, fiz diversas pesquisas que me deixaram simultaneamente maravilhado, pela quantidade e diversidade de informação, e estupefacto, por aquilo que me pareceu ser o sonegar de dados ou a sua manipulação, por parte de entidades que deveriam estar acima de qualquer suspeita. Acredito que os "interesses mais altos" que se levantam estão íntimamente ligados à necessidade de se tirar proveito dos investimentos feitos, em jogos de poder que não pretendo nem posso abordar... :-)

Amiga, agradecendo as tuas palavras, peço que me desculpes o atraso na resposta aos teus comentários; o tempo não tem estado a meu favor...

Desejo-te uma óptima noite e um magnífico fim-de-semana!

Um beijo e um enormeeeeeee sorriso... :-)


De Grão de pó do Universo a 8 de Março de 2008 às 00:49
Bem me parecia que eras mesmo um astronauta... ;)
Não sei como fazes, mas vives as tuas experiências de uma forma real.
Consegues fazer de mim passageira clandestina nas tuas viagens...
Fascinante mesmo!

Bjinho


De V.A.D. a 8 de Março de 2008 às 03:00
Hummm... Nem imaginas com quanta pena te afirmo que não sou um astronauta, pelo menos na verdadeira acepção da palavra. Não deixo, no entanto, de empreender estas viagens imaginárias, rumo ao desconhecido e em busca de mais algum conhecimento. Estes processos obrigam a alguma pesquisa, revelando-se simultaneamente enriquecedores e fonte de enorme prazer, a escrita representando a vontade de partilhar estas experiências com quem muito gentilmente me lê... :-)

Ah...! Posso sempre reservar um lugarzinho para ti, na próxima aventura... :-)

Obrigado, pelas palavras e também pelo incentivo que elas representam! Desejo-te uma óptima noite e um magnífico fim-de-semana.

Um beijo e um enormeeeeeeeeee sorriso... :-)






De Grão de pó do Universo a 8 de Março de 2008 às 10:42
Não foi na "na verdadeira acepção da palavra astronauta" que eu me referi... foi na verdadeira acepção da palavra "amador" (aquele que ama)... O sonho de um ser algo que já o és mesmo sem que para isso saias da frente de uma folha de papel (a tua nave) e de um lápis (a trajectória). A tua experiência cientifica sai-te sempre na perfeição... e cativa.
Sabes, os teus posts não revelam só conhecimento ou inteligência, revelam também o prazer que tu tens pela vida, pelo sonho, pelo desconhecido, pelo universo e de uma forma muito humana.

Ah...! Mesmo que não reservasses um lugarzinho para mim, eu iria arranjar forma de lá estar ;)

Beijinhos e Bom fim-de-semana
(sim! Um sorriso enooooooooorme também!)


De V.A.D. a 8 de Março de 2008 às 23:01
Ehehehe, eu percebi o sentido que quiseste dar à palavra "astronauta", amiga; quis manifestar a pena que sinto por esse sonho de criança não ter tido condições para se realizar.

Não sendo demasiado exigente, tento extrair da vida o máximo que ela tem para dar, enfrentando os desafios que se me apresentam da melhor forma que sei, emprestando a tudo o que faço um pouco de mim, tentando fazer da existência uma constante aprendizagem.

O fascínio que sempre senti pelo Cosmo, pelo mundo e pela natureza humana, encontrou na escrita uma forma de ser partilhado e apraz-me saber que, de alguma forma, encontra receptividade por parte de quem vai lendo as minhas ficções, devaneios ou textos que reflectem a maravilhosa aventura que é o aprofundamento da realidade. Perceber o que me rodeia ajuda-me a entender quem sou... :-)

O lugar já está reservado e é na primeira fila... :-)

Renovo os meus votos de um magnífico fim-de-semana!

Um beijo e um enormíssimo sorriso... :-)


De Emanuela a 16 de Março de 2008 às 17:17
Olá amigo Vad. Terminei de reler teu conto e gostei muito . O questionamento que deixas no final é bem interessante, não só para este caso. Sabe-se lá o quanto de conhecimento, de descobertas em todas as áreas, não tem sido negadas à humanidade? Porque alguns assuntos que em determinadas épocas trouxeram tantas informações, de repente foram calados, como se jamais tivessem existido? Dá sempre muito o que pensar!
Um beijinho.


De V.A.D. a 16 de Março de 2008 às 21:37
Olá, amiga :-) É bom sentir a tua presença novamente, aqui neste espaço. Sem dúvida, o questionamento levantado no final do conto é muito pertinente. Se viste o vídeo que aqui é apresentado, percebeste que mesmo em relação a algumas das imagens mais recentes da Face houve uma óbvia manipulação das imagens. Assusta-me, pensar nos motivos que levam o JPL ou outras entidades a agir desta forma...

De qualquer forma, quero afirmar que, embora hajam imensas coisas perturbadoras por esse Universo fora, mantenho um elevado cepticismo em relação a estas coisas. Quando as provas forem avassaladoras, acreditarei...

Desejo-te uma óptima noite e uma magnífica semana!

Um beijo e um enormeeeeeeeee sorriso... :-)


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