Quarta-feira, 5 de Março de 2008

Cidónia (VIII)

“Uma vibração profunda, inenarrável e poderosa estremeceu-me as entranhas, devolvendo-me por um infindável instante à vanidade de que cada ser humano devia ser cônscio. Incontáveis luzeiros iluminaram-se no tecto elevado centenas de metros acima de uma superfície surreal, os reflexos metálicos do ferro polido enchendo de uma luz fantasmagórica aquela nave de sonho, qual estranha e admirável catedral consagrada à devoção pela astronomia, as paredes abobadadas incrustadas de estrelas e constelações colocando o humilde observador perante a desconcertante amplitude do Cosmo. Avancei uma centena de passos, o deslumbre exaurindo-me as forças, o peso do portento levando-me a sentar e a descobrir que nem um grão de pó contaminava a pureza de um chão onde glifos em baixo relevo pareciam ter uma história a contar. Movido por uma intuição que se erguia, dissimulada, no fundo da minha mente, verifiquei os dados climatéricos do equipamento multifuncional que trazia preso ao antebraço esquerdo: dezasseis graus de temperatura, meio bar de pressão atmosférica, trinta e cinco porcento de oxigénio e nenhum sinal de gases nocivos. Num impulso incontido, retirei o capacete e as luvas, inspirando profundamente aquele ar tão puro como o que ainda se respira na minha aldeia natal…”

V.A.D. em Cidónia

Imagem: Firmamento (http://antwrp.gsfc.nasa.gov/apod/image/0607/ngc7331_gabany_f.jpg)

música: Today's The Day (Aimee Mann)

publicado por V.A.D. às 01:59
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10 comentários:
De Emanuela a 5 de Março de 2008 às 02:23
Extase, realização, plenitude... Chego a sentir um aperto no estômago só de imaginar a emoção de uma tal descoberta...Muito bom, amigo. Conseguiste ser totalmente surpreendente! Pois até intuitivo estiveste he,he...
Beijinhos


De V.A.D. a 5 de Março de 2008 às 02:53
Aquele lugar era o derradeiro testemunho de uma civilização que se perdeu nas brumas do tempo e do espaço, dispersa pela vastidão do Universo... Inúmeros segredos estavam ainda por revelar, a imensidão de um conhecimento, adquirido ao longo de eras, ao alcance da humanidade. Espero que os últimos capítulos, a publicar de seguida, possam ser interessantes... :-)

Desejo-te uma magnífica noite, amiga!

Um beijo e um enormeeeeeeeee sorriso... :-)


De Grão de pó de UNIVERSO a 5 de Março de 2008 às 08:25
Sigo a visão que observa o gesto da retirada do capacete...
Entro pela tua imagem adentro e troco o meu corpo por um grão do teu pó...
Inspiro as tuas palavras a cada capítulo e sinto... sinto a pureza do ar da tua aldeia natal.

:)


De V.A.D. a 5 de Março de 2008 às 14:35
Sabes, gostaria de ser capaz de exprimir ainda de forma mais veemente aquilo que imagino ser o êxtase proporcionado por uma experiência assim...

Fico muito agradado por saber que as minhas palavras são capazes de causar estas sensações... :-)

Obrigado, pelas palavras e pela tua presença. :-)
Desejo-te um excelente dia, amiga.

Um beijo e um enorme sorriso... :-)


De teresworld a 5 de Março de 2008 às 10:12
Li completamente alucinada, correndo os olhos pelos capítulos na ânsia de descobrir, com a mesma ansiedade do explorador vi ... e senti-me a pisar solo marciano.
Adorei o texto!
Com uma descrição espectacular , já alguma vez esteve em Marte?
Um beijo
Teres


De V.A.D. a 6 de Março de 2008 às 02:00
Há, no Universo coisas fascinantes, mas Marte ocupa um lugar especial no meu imaginário, fazendo-me continuar a sonhar com viagens assim, a beleza austera e os enigmas de um planeta, simultaneamente próximo e distante, levando-me a mais uma incursão na aventura da ficção científica... Obrigado, amiga. Enchem-me de satisfação, as suas palavras e espero ser capaz de continuar a escrever algo que se revele interessante. Seria mais fácil se tivesse estado lá... :-)

Desejo-lhe uma magnífica noite!

Um beijo e um enormeeeeeeee sorriso... :-)


De Fisga a 5 de Março de 2008 às 14:05
Sim senhor meu amigo. Um autentico astronauta a quem nem um pequeno pormenor escapou. Sem esquecer está claro, um pouco de sorte também com a atmosfera que também é de invejar o que já não se encontra por cá em todo o lado. Parabéns e boa continuação nessa torne. Um abraço.


De V.A.D. a 6 de Março de 2008 às 02:07
Amigo, escaparam-me, certamente, incontáveis pormenores, mas procuro sempre construir uma história plausível que, embora sendo ficção, possa respeitar as leis da física que regem este nosso Universo.
No caso presente, o interior da Face representa o Marte já extinto, a atmosfera respirável fazendo recuar cinquenta milhões de anos até à época em que o planeta podia ter sido palco da vida...

Agradecendo as suas palavras, desejo-lhe uma excelente noite, amigo!

Um abraço.


De **** a 6 de Março de 2008 às 23:36
“...devolvendo-me por um infindável instante à vanidade de que cada ser humano devia ser cônscio” – se o resto já em tal deveria resultar, esta sala deveras é demasiado para encarar num instante só. Uma possibilidade que, à semelhança desta tua descrição, me deixa sem saber o que dizer.

"nem um grão de pó contaminava a pureza de um chão onde glifos em baixo relevo pareciam ter uma história a contar" - Num desenrolar inesperado quase se mistura-se a exploração espacial com a arqueologia...
É um autêntico santuário, inesperado na sua localização, único no seu esplendor, precioso no significado. Aliado ao sentimento generalizado de maravilha que uma descoberta deste género causaria na humanidade, só um sentimento de vazio causado por nunca termos visto do auge dessa civilização, de termos chegado tarde demais, de darmos de caras com a nossa própria finitude.

Gostava de poder também respirar esse ar...

Beijos,
e muito boa noite sob uma abóbada celeste - esta não incrustada em paredes, mas no manto de veludo escuro da noite

Sophia


De V.A.D. a 9 de Março de 2008 às 00:06
Sabes, amiga, quanto mais sei acerca da grandeza do Cosmo, mais profunda se torna a constatação da minha insignificância. "Sei-me humilde, sem que procure a humilhação." Procuro conhecer o meu lugar na "grande roda", sem que tenha pretensões a ser o eixo... :-)

A exoarqueologia poderá vir a ser uma disciplina importante, quando e se a humanidade descobrir que não está só nas vastidões espaciais. Vi muito do que há a ver sobre Marte em geral e Cidónia em particular. Fiquei estupefacto, por perceber que muita da informação disponível tem sido descaradamente manipulada. Gostava de perceber até que ponto isso tem sido feito...

Um beijo e um enormeeeeeeeee sorriso... :-)


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